Nosso Campo

ASSENTAMENTO NOVA ESPERANÇA: Conquistas na fazenda Santa Rita, em São José

Trabalhadores querem plantar, vender e ter seus fi lhos na escola

Famílias vendem seus produtos em feiras, asilos, entidades sociais e já venderam para merenda escolar e para o Programa Fome Zero.

As dificuldades, porém, são muitas. Não há escola para as crianças, que precisam se deslocar até o centro da cidade para estudar. Mercados e farmácias mais próximos, assim como médicos, estão a mais de 20 quilômetros de distância, no mínimo.

Por Fernanda Soares

Em 1994, um empresário de Caçapava adquiriu 185 alqueires de terra na Zona Norte de São José dos Campos.

A Fazenda Santa Rita, como foi denominada, utilizava toda essa terra para abrigar alguns poucos bois de rodeio.

Em 2008, com o apoio e coordenação do MST, algumas pessoas descobriram que a Fazenda Santa Rita não realizava os pagamentos ao Banco da Amazônia, de quem fora comprada.

O grupo se organizou e ocupou a terra em 16 de setembro do mesmo ano. Um acampamento foi montado e as famílias passaram a conviver com a repressão policial. “Foram dois anos fazendo pressão e vigiando o acampamento”, diz o agricultor e líder do assentamento, Ovídeo Ferreira Dias.

No início da ocupação, ficaram em acampamentos improvisados na entrada da fazenda. Com a chegada das chuvas, o acampamento foi invadido pela lama, pois ficou instalado na parte baixa do terreno. Após esse fato, decidiram ocupar as casas espelhadas pela fazenda. Foi quando passaram a receber ameaças. Somente após dois anos recebendo uma série de liminares de despejo, o grupo conseguiu a posse das terras.

Hoje vivem ali mais de 200 pessoas

O terreno foi dividido entre as 63 famílias que participaram da ocupação. Cada uma recebeu quatro hectares e meio de terra.

A antiga fazenda conta ainda com áreas de proteção ambiental, áreas sociais e 30% de todo o terreno é considerado área de reserva. A área de reserva, determinada por lei, necessita de reflorestamento urgente.

São cerca de 150 hectares aguardando investimentos para a recuperação da mata nativa e preservação ambiental.

Enquanto os órgãos do governo não se manifestam e não oferecem apoio ao reflorestamento, os moradores estão recuperando a mata aos poucos.

Conforme vão conseguindo mudas das plantas nativas, elas são plantadas nas áreas sociais, garantindo a continuidade da mata.


Assentados não vão vender suas terras

Para evitar a exploração imobiliária no local, os moradores se reuniram em assembleia e decidiram que essas terras não podem ser vendidas.

Se houver alguma desistência em permanecer no local devido às dificuldades que enfrentam, a terra do desistente será transferida aos filhos dos que querem permanecer no assentamento.

E as dificuldades são muitas. Não há escola para as crianças, que precisam se deslocar até o centro da cidade para estudar. Mercados e farmácias mais próximos, assim como médicos, estão a mais de 20 quilômetros de distância, no mínimo. Para plantar, não recebem auxílio.

O senhor Ovídeo relata que as famílias podem fazer empréstimos para investir na agricultura, porém os juros são altos e a maioria dos moradores já ficou endividada.

Mesmo com todas essas dificuldades, o assentamento investe na agricultura orgânica, como a família de Maria Regiane Correa dos Reis.

“A gente remove os matinhos assim, na mão, não tem nada de agrotóxicos”, diz. As famílias vendem seus produtos em feiras, asilos, entidades sociais e já venderam para merenda escolar e para o Programa Fome Zero.

Para melhorar a distribuição, esse e outros cinco assentamentos do Vale do Paraíba, estão organizando uma cooperativa regional de produção agropecuária e piscicultura.

Esquecidos pelo poder público logo após a conclusão do assentamento, os moradores lutam para viver da terra que demoraram a conquistar.

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