Entrevista

RETRATOS DA VIDA E DO TRABALHO: entrevista com o engenheiro Francisco Abranches Pinheiro

“Subcontratação não funciona e ninguém transfere tecnologia”

Francisco Abranches Pinheiro tem 67 anos.
Quase a metade vivida entre as paredes do INPE e DCTA.

Ainda hoje, morando em uma fazendinha em Sapucaí Mirim-MG, onde planta pés de framboesa e de oliveira, ele transpira mecânica e tecnologia. O engenheiro usa todo este conhecimento para potencializar a sua plantação. Em entrevista ao Jornal do SindCT, categórico afirmou: ninguém transfere tecnologia.

Ele pode fazer tal afirmação: trabalhou na concepção de produção da satélites e foguetes no INPE e DCTA. Falou também do desenvolvimento da ciência espacial na periferia do sistema mundial e revelou certa nostalgia ao falar sobre a perda de oportunidades históricas para avançar na construção de uma verdadeira engenharia de sistemas.

Desta entrevista participaram a jornalista Fernanda Soares e os colegas do entrevistado Luiz Elias, Pedro Cândido e Vitor Portezani.

Jornal do SindCT: Gostaríamos que o senhor se apresentasse.

Francisco Abranches: Quando você me ligou falando que viria, eu fiquei pensando em como me apresentar. Meu avô era engenheiro, meu pai é engenheiro e eu sou engenheiro. Meu pai ficou com medo da guerra e comprou uma fazendinha. Eu nasci numa casa de pau a pique no meio do mato. Até os 17 anos eu vivi em fazenda, sítio... Depois eu vim pra São Paulo para fazer o científico, aí fi z o ITA. Fiquei professor no ITA 20 anos, depois fui pro INPE e fiquei trabalhando no satélite SCD1. Depois que me aposentei trabalhei numa firma espacial por dez anos e dei aulas na Argentina.

Jornal do SindCT: Como é viver em Sapucaí?

Abranches: Comprei aqui um sítio com 10 hectares, sem cachoeira e sem rio. Sapucaí sobrevivia da serraria. De tanto explorar a madeira (pinus) acabou. Dos seis mil habitantes da cidade, praticamente uns 1.200 viviam de serraria. O comércio é pequeno. Não tem indústria, agricultura. Três mil habitantes vivem na área rural. É uma cidade pobrezinha.

Jornal do SindCT: Como a cidade se formou?

Abranches: Os fazendeiros foram morrendo e os fi lhos herdando as terras. As fazendas foram sendo repartidas e viraram sítios. Alguns pequeninhos de casa de beira de estrada, alguns maiores. Sou presidente da Associação de Turismo. A ideia é trazer o turismo pra cá para gerar emprego, orçamento, dinheiro, para o turismo ecológico.

Jornal do SindCT: Da parte administrativa e gerencial, agora você foi pra política...

Abranches: Eu não sou político, não. Quando há reuniões na Câmara eu participo.

Jornal do SindCT: Então você está fazendo política.

Abranches: É uma política...

Jornal do SindCT: Não é uma política partidária.

Abranches: É, não vai de confronto ao poder. É participar, fiscalizar no Conselho de Turismo e na Associação de Turismo.

Jornal do SindCT: Você planta oliveiras?

Abranches: Meio hectare. O plantio tem que ser bem longe uma da outra. Tá começando agora. No ano retrasado colhi a primeira produção. No ano passado não deu nada. Esse ano vai dar. A oliveira é que nem café, dá um ano sim o outro não.

Jornal do SindCT: Aqui no sítio qual a sua principal atividade?

Abranches: Pomar. Comecei com o pomar, três plantas de cada, três pessegueiros, três macieiras. Não deu certo, arranca.

Jornal do SindCT: Isso é pra sua sobrevivência?

Abranches: Eu plantei o pêssego paulista. E não dava certo. Aí fui num curso de uma mulher do Rio Grande do Sul que falou que aqui é frio e eu teria que plantar o pêssego do Rio Grande do Sul. Então estou com o pêssego de lá e da China. E para dar esse pêssego demora muito tempo, de 7 a 10 anos.

Jornal do SindCT: Você fez vários cursos focados na agricultura. A mecânica já foi o seu carro chefe.

Abranches: Se você olhar, tenho até torno aqui.

Jornal do SindCT: Então você está usando aquilo que você aprendeu.

Abranches: E mais algumas coisinhas.

Jornal do SindCT: Está usando o que aprendeu, mas focado na sua raiz, a agricultura.

Abranches: Foi minha mulher que me trouxe para cá.

Jornal do SindCT: A sua esposa o trouxe aqui, o senhor ficou e ela voltou pra SJC?

Abranches: Ela é diretora do Grupo de Apoio à Criança com Câncer (GACC). Ela tá entranhada lá... Aquilo lá é uma loucura. O GACC começou vendendo camiseta e hoje é referência de toda a região do Vale do Paraíba, litoral de São Paulo e Sul de Minas. Eles começaram com 20 crianças e hoje têm mais de 200 crianças. Antigamente a ajuda do município era enorme, hoje é ridícula.

Jornal do SindCT: O senhor trabalhou no DCTA. Fazendo o que exatamente?

Abranches: Na área espacial. No começo eu trabalhei uns quatro anos no IEAv (Instituto de Estudos Avançados). Em projetos confidenciais.

Jornal do SindCT: Mas o senhor começou no ITA.

Abranches: É. Fui 20 anos professor no ITA. Departamento de Projeto e Controle. Ficava na Mecânica. Quando entrei era o pior departamento do ITA. Não tinha nada. Vieram os americanos com a energia, vieram os franceses com a eletrônica. Na parte de mecânica tinha um professor que era de Ann Arbor (Estados Unidos). O meu professor tinha projetado, durante 50 anos, milhões de máquinas. E eu fiquei com ele uns 10 anos. Aprendi a ser projetista de máquinas, desde uma moenda de cana até satélites, pra mim era tudo a mesma coisa. Eu devo ter projetado umas duas mil máquinas, pra GM, pra Ford, para as indústrias. Eu precisava de um supercomputador, o único supercomputador brasileiro era da Embraer. Um aluno me avisou que na legislação brasileira tinha uma brechazinha, aí comprei um supercomputador dos EUA e trouxe pra cá. No INPE precisávamos do supercomputador para calcular os satélites, fazer projeto de cálculo. No começo, a gente usava o CPTEC, que tinha dois supercomputadores, mas demorava um mês. Começamos a mandar os cartões pra São Paulo e de lá mandavam pra outro lugar, mas demorava cerca de uma semana e era só pra cálculo pequeno. Depois a gente passou pro supercomputador da Embraer. Mas a gente disparava o job sábado cedo e na segunda de manhã tinha que parar por causa da Embraer. E não terminava nosso cálculo.

Jornal do SindCT: a Embraer era estatal?

Abranches: Naquela época era.

Jornal do SindCT: O SCD1 seria lançado por um foguete brasileiro...

Abranches: Na concepção original, sim. O foguete brasileiro (VLS) não tinha ainda a especificação. Então a gente usava do Scout que era um foguete militar, do tipo rápido, não do tipo econômico que sai devagarzinho que nem o russo. O VLS era muito mais ameno que o Scout. Só que ele tinha suas especificidades. Então eu peguei essas especificações, juntei com a de outros foguetes, e fi z uma especificação que cobrisse tudo. Esse foi o sucesso nosso. Como a minha especificação abrangia vários tipos de foguetes, quando usamos o Pegasus, foi de letra. O primeiro lançamento foi um satelitezinho da NASA. Não deu certo. Aí nós fizemos o segundo. O segundo lançamento do Pegasus foi o SCD1. E deu certo. Era meio truculentozinho. É botar fogo no bicho e ele sai que nem doido. O terceiro voo foi de um satélite argentino. Pifou também. E nós demos sorte também. Há 10 anos o sol estava num período de calmaria. Então o satélite, que era pra durar um ou dois anos, durou esse tempo todo. É muita coisa, muita coincidência. Por isso que ele aguentou pra caramba, não era pra aguentar tanto.

Jornal do SindCT: Quantas pessoas trabalhavam na sua equipe?

Abranches: Cinco pessoas. Aí terminou o SCD1 e o INPE saiu daquela de querer promover tecnologia e entrou naquela que a diplomacia brasileira precisava, queria entrar na China, pensando em vender coisas pra China. Coitado, mal sabia... Eu li um livrão de como fazer comércio na China. Quando eu acabei de ler aquele livro eu pensei: que petulância do brasileiro. Aí nós fomos pra China. Nós fomos trabalhar com chineses já de idade, que tinham aprendido a parte espacial do foguete Longa Marcha. O foguete chinês era uma cópia feita à mão do foguete russo. O problema deles não era lançamento, era satélite. Tinha um chinês lá que me enchia a paciência. O chinês chegava pra mim e dizia: “estamos lançando o 24º satélite. Quantos satélites o Brasil já lançou?”. Mas eles não tinham documento nenhum. Não faziam cálculo nenhum. Quando a gente fazia cálculos e estatísticas o chinês perguntava: “onde você aprendeu isso?”.

Jornal do SindCT: Desenvolver tecnologia custa caro?

Abranches: Muito caro. E o pior foi que entrou o computador. O computador foi a desgraça maior. Toda a frequência tecnológica foi passando pra dentro do computador. O conhecimento fica dentro da máquina, a indústria não precisava mais de um monte de engenheiro.

Jornal do SindCT: Volta a essa questão do satélite com a China.

Abranches: Os satélites tinham morte infantil. Lançava e um mês depois pifava. Eles não sabiam parafusar, não sabiam montar, só sabiam colocar rebite. Eles não tinham tecnologia. Mas essa era a ideia deles, desenvolver a partir do zero. Nenhum satélite deles durava mais do que um mês.

Jornal do SindCT: Mas no lançador...

Abranches: O lançador era russo. Voltando aos satélites. Paguei 10 mil dólares para um canadense ensinar a usar a cola. Era uma coisa que não existia, que é chamada de cola estrutural. Lá na Embraer eles usavam, mas era chamada de cola secundária, eu queria usar como primária. Toda vez que você tem um monte de gente trabalhando durante muito tempo num projeto muito complexo, se você não tiver engenharia de sistemas você se perde.

Jornal do SindCT: Como você acha que é para o INPE?

Abranches: Na época que o INPE tinha a função de contratação tecnológica, recursos humanos, a Embraer contratava gente do DCTA, envolvia tecnologia e gente.

Jornal do SindCT: Hoje em dia, como você falou, tem muita coisa a partir da máquina, a gente acabou queimando etapas.

Abranches: Pra você usar um software você tem que saber o que tá lá dentro. Vou dar o exemplo da NASA. A NASA desenvolvia tecnologia, repassava pra fora. Eu não estou falando dessa ideia do INPE querer subcontratar porque isso não dá. A NASA foi subcontratando e virou uma engenharia de sistemas. Chegou uma hora que a tecnologia da Boeing estava mais avançada que a da NASA. Eles não eram capazes de bolar novos satélites. Eles tiveram que revitalizar toda a bagagem tecnológica. Se não, como é que eles iam numa expedição para Marte, como é que eles iam fazer toda a engenharia de sistemas, toda a documentação, se eles não sabiam nem que diabo que era aquele negócio? Os projetos internos da NASA tinham a função de revitalização tecnológica pra poder acompanhar a evolução tecnológica das contratadas.

Jornal do SindCT: você tocou num assunto interessante, da subcontratação.

Abranches: É uma ideia maluca. Não funciona. É tipo o INPE: vamos subcontratar pra fazer o que a NASA faz com a Boeing. Pelo amor de Deus. A NASA tem um problema que a tecnologia da Boeing é maior que a deles.

Jornal do SindCT: E a transferência de tecnologia?

Abranches: Não existe transferência. A tecnologia consome muito dinheiro. São centenas de pessoas trabalhando para saber se uma coisa funciona. Como que você vai transferir uma coisa pro cara que vai concorrer com você? Não existe transferência. O que existe na parceria é um cara fazer uma parte e você fazer outra. Vou dar um exemplo. Na placa solar do satélite tinha uma dobradiça. Trabalhamos dois anos, três engenheiros, pra descobrir como funcionava aquele negócio. Aí fomos para a China. Lá encontramos um painel solar lindo de morrer comprado na Alemanha. Conversei com o chinês. Ele disse: “rapaz, o maldito do alemão me deixava num hotel numa cidade vizinha, não podia nem ir à cidade onde eles fabricavam o painel solar”. Tudo o que tinha de tecnológico estava ali naquela dobradiça. E o chinês bravo porque não podia nem ir na cidade. Ele não sabia o que tinha lá dentro, o que o projetista tinha pensado ao projetar aquilo.

Jornal do SindCT: Não transferia experiência nenhuma.

Abranches: Eu não conto nada pra você do que eu sou capaz de fazer. Custa caro. Vou dar um exemplo bem rameiro. Quanto custaram os cursos para eu plantar framboesa? 10 mil reais. Aí um dia no curso uma dona lá ficou brava porque eu tenho um caderno e vou anotando. Ela queria meu papel, meu caderno e eu disse: “vou te cobrar 30 mil”. Ela reclamou. Eu tive que fazer curso lá em Holambra, mais num sei o quê. Isso é tecnologia. Você transfere? É claro que não. Custou caro pra danar. Tem um cara aqui, dono de uma indústria em Taubaté. Eu tenho 400 plantinhas de framboesa aqui, ele tem 80 mil. Ele colhe 40 gramas de framboesa, eu colho 400 gramas. Ele fechou o negócio dele. É tecnologia. É a abordagem tecnológica, abordagem de conhecimento.

Jornal do SindCT: E a gente começa a ver as pessoas saindo...

Abranches: 90% do conhecimento ainda está em gente. O computador só pega tecnologia consolidada.

Jornal do SindCT: Você não tem vontade de voltar?

Abranches: Eu estou velho, com 67 anos. Eu trabalhava 10 horas por dia de segunda a sábado.

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