Aposentados

PERIGO DE ESVAZIAMENTO: Sem concurso sobram lugares vazios
Servidores se aposentam e não há reposição de pessoal

A continuidade dos projetos é a grande preocupação dos que se aposentam.

Servidores têm amor pelo trabalho e não querem que a memória tecnológica se perca

Por Fernanda Soares

A carreira de C&T está perdendo seu pessoal especializado. Desde o ano passado, dezenas de servidores do INPE e DCTA entram com pedidos de aposentadorias e não há concursos para a reposição deste pessoal. Yukari Yoshioka Iamamura, tecnologista sênior, foi servidora do IAE por 28 anos. Ela é uma das especialistas que deixou a instituição neste ano.

Yukari trabalhava no laboratório químico dando apoio a projetos da área espacial do sistema de defesa. Diferentemente do que ocorre com muitos servidores, Yukari pôde passar seu trabalho para uma engenheira química, porém militar. Ela também era responsável por um elo da Qualidade da Divisão de Sistemas de Defesa.

Essa função transmitiu a um colega, servidor já antigo no DCTA. “Os servidores que entraram na década de 80 estão se aposentando agora. É uma grande perda de recursos humanos, de pessoas bem especializadas. E quem pega essa herança?”. Na Divisão de Materiais (AMR), do IAE a preocupação dos servidores é a mesma.

Roseli de Fátima Cardoso e seu colega, ambos técnicos em química, são os únicos no laboratório de química dessa divisão.

Eles já completaram 27 anos de trabalho. “Todos os técnicos em química do IAE têm em torno de 27 a 29 anos de trabalho”, diz Roseli. Em pouco tempo esse pessoal estará se aposentando e não há novos servidores para aprender com as pessoas mais experientes.

Tetunori Kajita, pesquisador e servidor do DCTA desde 1973, pediu a aposentadoria em março deste ano. Kajita trabalha com blindagem balística para aeronaves e também precisou passar seu trabalho para colegas antigos na divisão. A continuidade dos projetos é a grande preocupação de Kajita.

“Não só minha como de todos os colegas. Temos muitos projetos que, se o pessoal se aposentar, param.”

Esta é também a preocupação de Miguel Enrique Saldívia.“O maior problema no DCTA é a falta de concursos para repor os servidores aposentados. Quem sai precisa passar para quem chega a memória tecnológica do DCTA. Caso contrário, o conhecimento vai se perdendo no tempo”, afirma.

Miguel Enrique é tecnologista sênior. Trabalhou no DCTA durante 35 anos. Aposentou- se em 14.07.2011.

Era chefe da Qualidade da Divisão de Materiais do IAE. Eu sempre pratiquei a ideia que todo servidor deveria ter um substituto, aprendi isto de um militar. Assim, quando previ minha aposentadoria conseguimos definir meu substituto e mais tarde me esforcei para reforçar a equipe da Qualidade da AMR. A AMR tem hoje cerca de 70 servidores.
Kajita lembra que este número já chegou a 240, quando desenvolviam menos projetos.

Conhecimento desperdiçado

Francisco Cristóvão Lourenço de Melo, também servidor da AMR, conta que conseguem desenvolver projetos hoje com a ajuda de bolsistas e alunos.

“Mas são temporários. O governo investe seis anos nessas pessoas e depois a indústria contrata.”

Francisco faz uma dura crítica à falta de concursos e de pessoal qualificado. E exemplifica contando a história de um casal de amigos:

“Os dois estudaram a vida inteira em escolas públicas. Fizeram graduação, pós-graduação e mestrado em universidades federais. Para o doutorado, conseguiram bolsa do governo brasileiro e ficaram quatro anos estudando na Inglaterra. Quando voltaram para o Brasil não conseguiram emprego. Ficaram desempregados por um ano até conseguir trabalho em Portugal. Ou seja, o governo deve ter gasto em torno de 400 mil dólares com a educação de cada um e eles foram aplicar seus conhecimentos e dar retorno desse aprendizado para outro país.”

DCTA: Burocracia interna atrasa processo de aposentadoria

Servidores do DCTA estão com problemas para conseguir se aposentar

Uma servidora que não quis se identificar nos contou que sua aposentadoria demorou mais de um ano para sair. Por causa da demora, seus planos foram prejudicados. “O pior é não saber quando irá sair a aposentadoria”, diz.

Neste ano, o SindCT solicitou aos servidores que enviassem cópias dos pedidos de aposentadoria ao sindicato. Com a documentação, o SindCT pôde intervir e agilizar o processo desses servidores. O Sindicato também solicitou ao DCTA que fornecesse a lista de servidores com pedidos de aposentadoria, porém o DCTA se recusou a fornecer.

O SindCT esteve em visita ao DIRAP, órgão culpado pelo DCTA na questão dos atrasos, em junho deste ano. Os diretores puderam constatar que a estrutura do setor responsável é precária, porém não justifica os atrasos nas emissões das aposentadorias. A conclusão que se tira é que o DCTA segura, o máximo que pode, as aposentadorias dos servidores.

SindCT já entrou com Mandado de Segurança

Em vista da grande demora na emissão de aposentadorias no DCTA, o SindCT entrou com pedido de Mandado de Segurança na Justiça Federal de São José dos Campos.

O mandado requer que todos os processos de aposentadoria sejam examinados no máximo com 30 dias. Caso contrário, SindCT requereu que o DCTA pague multa diária de R$ 1.000,00 por servidor.

Requereu ainda que, se a decisão de concessão de aposentadoria pelo DCTA demorar mais de 30 dias, o servidor seja autorizado a aguardar em casa, com recebimento se sua remuneração e seja paga multa de 1/30 de sua remuneração por dia de atraso.

Aplicando a tecnologia no campo

Francisco Abranches, servidor aposentado do INPE, retornou à sua origem e hoje vive num sítio em Sapucaí Mirim.

Abranches viveu até os 17 anos em sítios. “As pessoas estranham eu morar aqui porque não sabem que fui criado assim”.

A principal atividade de Abranches hoje é o cultivo de framboesas e a produção de geleias.

Abranches fez alguns cursos para se especializar na área, mas não nega que aplica os conhecimentos em tecnologia, adquiridos ao longo da vida, em seu pomar.

Com muita história para contar sobre sua vida no INPE, o SindCT preparou para esta edição uma reportagem especial com Abranches, veja nas páginas 8 e 9.


PSICOLOGIA: conflito entre liberdade e inatividade
Sentimentos ambíguos relacionados à aposentadoria precisam ser enfrentados por todos nós

Por Siman Cândido*

A compreensão da importância do tema aposentadoria fica mais clara quando identificamos os sentidos e significados do trabalho para os indivíduos e para a sociedade, ou seja, o ato de aposentar-se impõe conflitos permeados pelo papel central do trabalho no processo de constituição de nossa identidade.

O lugar do trabalho é tão privilegiado que basta observarmos como nos apresentamos: “Olá, eu sou a Siman, psicóloga”; “Muito prazer, sou a Helena, professora”; e assim por diante. Diante do reconhecimento pelo o que fazemos é compreensível a valorização dada ao trabalho pelos indivíduos.

A aposentadoria, em contrapartida,implicará em um rompimento com essa identidade profissional.

Ser aposentado é deixar de ser Siman, a psicóloga; ou Helena,a professora.

Seremos simplesmente Siman e Helena as “aposentadas” ou, de forma depreciativa, as “inativas”.

Lidar com esta perda pode levar o indivíduo a experimentar um processo de inatividade, gerando conflito entre a sua ainda existente capacidade produtiva e o estigma da não ação habitualmente relacionado ao estereótipo de aposentado.

Mas se por um lado a aposentadoria pode gerar estes sentimentos de crise, ela também pode promover, concomitantemente ou não, a sensação de liberdade.

A aposentadoria também pode ser vivida como uma recompensa à dedicação e esforço empreendidos ao longo de uma carreira de trabalho. Além de possibilitar a concretização de planos e sonhos protelados por muito tempo.

Essa ambiguidade de sentimentos é apenas um aspecto para reforçar a importância da preparação para esta nova etapa da vida, pois ela poderá ter consequências em outras áreas da vida, como por exemplo, na esfera familiar.

*Siman Cândido é psicóloga clínica especializada em orientação profissional e de carreira

Compartilhe
Share this

testando