HISTÓRIAS de trabalhadores na pena do autor

Moacyr conta casos reais do nosso Brasil

Metalúrgico, professor, sociólogo. O cérebro ágil de Moacyr Pinto guarda histórias do tempo da vovozinha, das lutas dos trabalhadores no ABC paulista, e em São José. Seus livros sintetizam a experiência, a análise e a capacidade de ouvir o que o outro tem para contar

Por Claudia Santiago

O sociólogo Moacyr Pinto é autor de três livros: Contos de Vista (2005), Hiena (2009) e A sabedoria e os causos do Seu Zé Pedro (2010).

Além desses, coordenou a publicação Ação e Razão dos Trabalhadores da General Motors, lançado em 1985 pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São José. Em todos, conta histórias. Histórias dos debaixo, ou seja, daqueles que produzem a riqueza, mas que dela não desfrutam.

Seus personagens são agricultores, metalúrgicos, quilombolas. Compõem uma parcela da população marcada pelo destino para ser invisível, mas que assume as rédeas do tempo e exerce importante papel na história.

Há coisa de seis meses, em parceria com o Déo Lopes, Cauíque Bonsucesso e Márcio Oliveira, integrantes da Banda Trem da Viração, desenvolve um trabalho literário a partir da obra “Eu tenho o meu sonho – A sabedoria e os causos do Seu Zé Pedro”, mestre quilombola da Casa de Farinha de Ubatuba.

Déo faz as músicas e Moacyr conta as histórias. Assim, já passaram pelo Festival da Mantiqueira, pela Bienal do Livro, pelo Quilombo da Fazenda. Moacyr resume seus livros como o relato de uma parte da história do Brasil contada do ponto de vista de um trabalhador.

Ele conhece bem o que conta. Filho de pequenos agricultores de Pacaembu, já aos 14 anos trabalhando numa farmácia despertou para as questões sociais. “Tudo passava por ali. As necessidades dos pretos, dos pobres, dos baianos, o dinheiro emprestado, a cadeia por causa do jogo do bicho”, conta.

Influências de 68 As ideias ficaram mais definidas quando cursou o Madureza. “O Madureza me abriu a cabeça. Os professores eram jovens universitários de 68. Se debatia muito, íamos ao teatro e tínhamos acesso à cultura de qualidade”.

Fez Senai, mas não gostou nem um pouco. “Há uma mística em torno do Senai, mas é adestramento de mão de obra”.

Lá se fazia de tudo para o menino não cursar o ginásio porque largaria o macacão, e a indústria precisava de mão de obra.

Já na universidade, foi um dos líderes da greve dos estudantes por mudança no currículo do curso de Ciências Sociais.

“Éramos estudantes e trabalhadores. Meu pai levou todo mundo para ser metalúrgico: os fi lhos e os genros”.

A vida em São José Para São José dos Campos, Moacyr Pinto trouxe a experiência de metalúrgico, de presidente da Associação de Sociólogos do ABC e militante estudantil.

Foi um dos organizadores de inúmeras lutas e um dos 33 processados pela greve da General Motors, em 1985.

“O Sindicato cumpria um papel muito importante. Era uma referência, inclusive, do ponto de vista cultural.

Em 84, peão levava o filho no Sindicato para benzer”, conta.

Em 1993, assumiu a Secretaria de Educação no governo da petista Ângela Guadagnin, hoje vereadora.

A provação do desaparecimento da filha

No ano passado, Moacyr começou a passar pela sua maior provação. Em 16 de setembro, a filha Sulamita Scaquetti Pinto juntou-se à multidão de pessoas desaparecidas. Desde então, enfrenta o que qualifica como “inoperância, desarticulação e mediocridade da Polícia de São Paulo”.

Na busca pela filha, chegou às “Mães da Sé”, grupo de familiares de desaparecidos.

“O encontro serviu para descobrirmos o estado de tristeza e abandono em que estão essas pessoas, principalmente as que têm menos recursos”.

Foi também o embrião do projeto de lei estadual nº 463, de autoria do deputado Hamilton (PT), que cria um banco de dados integrado à Secretaria Nacional de Segurança Pública para facilitar a comunicação entre os diversos órgãos envolvidos.

De acordo com o deputado, onze pessoas desaparecem por dia no estado de São Paulo. Sulamita continua desaparecida.

Sinopse HIENA - minha revolta não se vende

Autor: Moacyr Pinto

Moacyr conta a história de Ediberto Bernardo dos Santos, um negro pobre que saiu de Ilhéus, na Bahia, com 19 anos para trabalhar em São Paulo.

Em 1984, torna-se operário da GM.

Uma greve de ocupação da fábrica por uma semana, marcou o início de uma carreira de lutas e envolvimentos políticos e sociais que nunca mais parou.

Seu principal instrumento de trabalho era o carro de som do Sindicato dos Metalúrgicos da região.

Por volta de 1990, se envolve num assalto e vai parar na cadeia. Experimentou durante sete anos a vivência nos presídios paulistas.

Estava dentro do Sistema quando o PCC foi criado, e com ele conviveu durante boa quantidade de anos.

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