Cresce o “Fora Temer”

CENÁRIO POLÍTICO É CONTURBADO E COMPLEXO

Antonio Biondi

Governo quer demolir marcos que regulam atuação das estatais, bemestar social e os direitos trabalhistas. Políticas neoliberais voltam com força e trazem o risco de “explosão social”.  Diante da consumação do golpe no Senado, com o impeachment de Dilma, e frente ao anúncio de medidas que, se aprovadas, vão desmantelar a Constituição Federal e a CLT (como a desvinculação dos recursos para saúde e educação, idade mínima de 65 anos para aposentadoria, jornada de trabalho de 12 horas), o “Fora Temer” vem crescendo no país. As mobilizações têm reforçado a bandeira das eleições presidenciais diretas (“Diretas Já”) como um dos caminhos para restabelecer a soberania do voto popular. Neste cenário complexo, Jornal do SindCT colheu a opinião de experientes analistas sobre os desdobramentos mais prováveis. 

“O PT ficou no poder, desde 2003, sem fazer um trabalho de politização maior em torno das principais questões e discussões. O governo de Lula fez um acordo por cima, que se expressou na ‘Carta ao Povo Brasileiro’ [2002], nos esquemas de financiamento, em várias pautas e ações, que demonstram um ‘acertão’ do PT nos bastidores em Brasília.

Não foi um acerto bancado nas ruas”, avalia o jornalista Luiz Carlos Azenha, que dirige o portal Viomundo. Em resumo: “Quando chegou esse momento do impeachment, o governo e o PT não tinham força política para resistir ao ataque”. Os grupos que ascenderam ao governo federal “pretendem desconstruir rapidamente os pilares da Constituição, mas tenho dúvidas se isso será possível”, prossegue Azenha. “Primeiro porque o Brasil mudou. Os governos do PT não trabalharam a politização da população como foi feito pelos governos de esquerda em outros países da América Latina.

Mas quando as pessoas têm acesso a direitos, passam a lutar por eles”. Além disso, uma agenda desse tipo gera impactos importantes, inclusive eleitorais. “Então, tenho sérias dúvidas de que isso poderá ser feito, a não ser que se pense em algo mais autoritário. O que não acho que vá acontecer. E já existem rachas. Os segmentos que deram sustentação ao golpe já demonstram divergências e choques em público.

Vai ser uma guerra até 2018, até as eleições presidenciais”. Na sua opinião, não está descartada uma situação de “explosão social”, e a crise institucional ainda pode se agravar muito. Antonio Augusto de Queiroz (Toninho), diretor do Departamento Intersindical de Apoio Parlamentar (DIAP), aponta o papel do grande empresariado na crise política: “A origem de tudo isso está no fato de que a presidente Dilma adotou uma espécie de obsessão positiva para trazer a taxa de juros para um patamar civilizado.

Essa política deu certo, tendo ela determinado ao Banco Central a redução da taxa Selic e que os bancos oficiais reduzissem o spread bancário entre a Selic e suas taxas de juros. Foi um sucesso e os juros do setor como um todo caíram. Os banqueiros chiaram, mas nem o cidadão como indivíduo gosta de banqueiro, nem o empreendedor possui essa afeição pelos bancos. Foi ideal desse ponto de vista”.

Dilma, porém, adota essa orientação em relação aos portos, energia, licitações, o que na prática significa uma intervenção na margem de retorno dos setores. “Atrai a ira de todo o capitalismo brasileiro, que a partir dali patrocina todo tipo de ação no sentido de tirar a legitimidade e desestabilizar o governo, afirmando que não possui sustentação, que representa um padrão moral inaceitável, etc. Isso desestabiliza o governo, cria um ambiente de insegurança. Vieram as manifestações de 2013 e 2014 e não houve resposta adequada por parte do governo”.

Continua Toninho do DIAP: “Ainda dentro desse cenário, acompanhamos a intensa mobilização dos meios de comunicação, envolve- se o TCU no processo, os procuradores federais se mobilizam para punir o PT”. Resultado: hoje estão sob forte ameaça, no seu entender, os “marcos regulatórios de proteção dos direitos dos trabalhadores, de fortalecimento e proteção da política industrial do país, de atuação das estatais, do bem-estar social previsto na Constituição Federal”. Ou seja: “O chamado Consenso de Washington e suas políticas neoliberais voltam com força”.

“Contradição”

“O que está acontecendo faz parte da tradição das classes dominantes do Brasil. Mas o governo que emerge do golpe parlamentar carrega uma contradição muito séria, que emerge da sua falta de legitimidade e das tarefas que seus apoiadores querem que sejam feitas. A contradição, resultado de um impeachment artificial e das tarefas para as quais o governo se destina, já tem criado grandes dificuldades, visíveis para o governo”, raciocina João Guilherme Vargas Netto, consultor sindical. “Considero muito importante trabalhar para que o conjunto dos movimentos sindicais compreenda essa contradição e unifique-se com vistas a defender seus interesses.

A potencialidade da resistência é muito grande. Temos que trabalhar a partir do movimento sindical e dos trabalhadores, mas também de todos os setores sociais ligados ao campo da esquerda e progressista, para um grande movimento de resistência às medidas e, por consequência, ao governo”. “Os partidos e os movimentos ainda estão titubeantes e perplexos frente a todo esse novo cenário.

É fácil nomear o PT nesse sentido, diante de sua derrota, mas até mesmo o PSDB analisa no momento como agir. Tanto os derrotados como até mesmo os mais vitoriosos encontram-se nessa situação”. Para Vargas Netto, “a continuidade da recessão, mais as medidas que estão sendo estudadas, podem gerar uma reação social muito grande”. Bruno Elias, membro da coordenação da Frente Brasil Popular (FBP), destaca o crescimento do repúdio ao governo Temer: “Desde a votação do golpe no Senado cresce em todo o Brasil a mobilização popular contra o governo usurpador de Michel Temer.

As manifestações dos próximos dias contra o governo golpista, em defesa dos direitos e por eleições diretas se ampliarão ainda mais. Não tem conciliação com golpista”. Segundo Bruno, PT, CUT e FBP devem conectar a luta pelo “Fora Temer” com o debate sobre uma nova estratégia e programa para o próximo período, que supere a política de conciliação com as classes dominantes e que articule a classe trabalhadora e os setores populares contra o programa de restauração neoliberal do governo golpista”.

Como dialogar com a população no cenário atual? “Devemos ser capazes de explicar o impacto do congelamento dos gastos públicos previsto pela PEC 241 no fechamento das escolas, postos de saúde e destruição dos direitos sociais. Reforçar a denúncia contra o desmonte da Petrobras e barrar o PL 4567/16 que acaba com o regime de partilha do Pré-Sal, bem como intensificar a mobilização contra as propostas de reformas trabalhista e previdenciária — que pretendem aumentar a jornada de trabalho, impor a negociação coletiva sobre os direitos legislados, elevar a idade mínima para a aposentadoria e acabar com a política de valorização do salário mínimo”.

Compartilhe
Share this

testando