Inteligência e bondade de Nise

Napoleão de Almeida*

Ela foi uma luz em meio a um período de sombras. Pagou o preço por desafiar a pobre lógica dos opressores durante o governo Vargas — e por enxergar humanidade em pessoas desprezadas pela sociedade, os doentes mentais.

Há noventa anos, na Faculdade de Medicina da Bahia (na qual ingressou com apenas 16 anos), foi a única mulher entre 157 alunos. Despertou a atenção de um dos papas da psicanálise, Carl Jung. E deixou para a ciência brasileira um legado de abnegação, inovação e coragem.

Esses foram alguns dos feitos da alagoana Nise da Silveira, cuja obra ganhou as telas de cinema com Nise – O Coração da Loucura, de 2015. O filme, dirigido por Roberto Berliner, traça o retrato da médica psiquiatra que deixou Alagoas na década de 1930, antes de completar trinta anos de idade, para encarar um período de efervescência política no Rio de Janeiro, então capital federal, além do preconceito dos seus colegas médicos.

À época, a principal prática no tratamento aos diagnosticados com problemas mentais era a lobotomia, cirurgia em que se remove um pedaço do cérebro do paciente, limitando suas reações. Nise, vivida no filme pela atriz Glória Pires, propôs diálogo onde só existia força. “Não era a esquizofrenia, era uma coisa política. Suas excelências pensam que trabalham com a cabeça.

Pensam. Então não pode um médico fazer operações terríveis de lobotomia e depois estudar o que os doentes faziam”, contou Nise em entrevista feita pelo documentarista Leon Hirszman em 1986. Ela então propôs que os pacientes fossem ouvidos e que lhes fossem dadas ferramentas, para que expressassem suas sensações em trabalhos de arte. O trabalho acalmava a esquizofrenia e permitia acesso aos comportamentos dos doentes que, mesmo muitas vezes sem perspectivas de cura, ganhavam condições de convívio. Seus relatos chegaram ao renomado psicoterapeuta suíço Carl Jung, de quem se tornou discípula e principal representante no Brasil. Muitas das obras produzidas pelos pacientes de Nise acabaram no Museu de Imagens do Inconsciente, com um acervo que fez parte da mostra “Brasil 500 anos”, no ano 2000.

Repressão

Nise foi além do seu tempo e acabou duramente reprimida pelo Estado Novo. Denunciada por uma enfermeira, acabou presa em 1936 pela polícia política de Getúlio Vargas, que perseguia implacavelmente os comunistas. Foi considerada “subversiva” quando encontraram duas obras de Karl Marx em sua biblioteca.

Ficou atrás das grades por 18 meses no Presídio Frei Caneca, no Rio de Janeiro, onde dividiu a cela com Olga Benário. O escritor Graciliano Ramos, que também esteve preso no local à mesma época, relatou com detalhes sua convivência com a psiquiatra no aclamado Memórias do Cárcere, de 1953. Um trecho em especial se destaca: o descritivo de Ramos quanto ao que enxergou em Nise da Silveira.

“A figura de Nise entrara- -me fundo no espírito. Apesar de havermos ficado momentos difíceis um diante do outro, confusos, aturdidos, em vão buscando uma palavra, aquela fisionomia doce e triste, a revelar inteligência e bondade, impressionava- me”, relatou. Livre, Nise foi afastada do serviço público. Quase uma década depois, em 1944, conseguiu voltar às atividades profissionais no Centro Psiquiátrico Pedro II. Lá, enfrentou novas dificuldades, mas que não a impediram de consolidar suas ideias e implementar suas propostas.

Entrou em atrito com o comando da casa por se recusar a fazer o tratamento padrão, que envolvia choques, camisas de força e isolamento, entre outros métodos. Em sua luta, conseguiu criar a Seção de Terapia Ocupacional, na qual os pacientes dispunham de um atelier que dava aos pacientes a chance de se tratar com psicologia não-verbal.

“Não havia médicos vestindo jalecos, não havia enfermeiras. As monitoras estavam ao lado dos doentes e apenas os ajudavam, trabalhavam com eles”, relatou no documentário ‘Olhar de Nise’, de 2015”, continuando: “As portas e as janelas sempre abertas”. Com essa cultura, criou a Casa das Palmeiras, também no Rio de Janeiro, ativa até hoje no bairro de Botafogo. “O que me fascinava era o que acontecia dentro da ‘cuca’ do esquizofrênico, debaixo daquele aspecto miserável, de alienado,” dizia.

Reconhecimento

Reconhecida internacionalmente, Nise da Silveira escreveu diversas obras sobre Terapia Ocupacional e Psicanálise, além de ser uma das maiores representantes das teorias de Jung no Brasil. Sua vertente desafiadora já podia ser vista na primeira delas, g de 1926, sua tese de con-clusão de curso, que acabou editada sob o nome Ensaio sobre a criminalidade da mulher no Brasil. Entre os livros mais importantes, estão Terapia Ocupacional: Teoria e Prática e Casa das Palmeiras, A Emoção de Lidar, além de Jung: Vida & Obra, até hoje usado nas faculdades de psicologia do País. Nise recebeu do governo brasileiro a Ordem de Rio Branco pelo conjunto de sua obra. Do Grupo Tortura Nunca Mais, recebeu a Medalha Chico Mendes.

Na França, foi homenageada pela criação da Associação Nise da Silveira – Imagens do Subconsciente (Images de L’Inconscient, em francês), na Itália, com o Museo Attivo dele Forme Inconsapevoli e em Portugal, na Universidade do Porto, com o Centro de Estudos de Imagens do Inconsciente. Outra paixão de Nise eram os animais. Ela desenvolveu técnicas de relacionamento com cães e, especialmente, com gatos, aos quais era mais afeita.

O livro Gatos, A Emoção de Lidar trata de como a responsabilidade em cuidar de um animalzinho e compreender suas necessidades pode auxiliar doentes a se recuperarem Em 1999, Nise da Silveira descansou. Após um mês hospitalizada não resistiu a uma pneumonia e, aos 94 anos, morreu de insuficiência respiratória. Foi sepultada no Cemitério São João Batista, em Botafogo, perto da sua Casa das Palmeiras. Suas ideias seguem sendo importantes para o desenvolvimento da Terapia Ocupacional em todo o mundo.

*O autor é jornalista. Especial para o Jornal do SindCT

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