Museu do Folclore valoriza cultura regional

INSTITUIÇÃO FUNCIONA NA ANTIGA TECELAGEM PARAÍBA, EM SÃO JOSÉ DOS CAMPOS

Shirley Marciano

“No nosso espaço, levamos muito em consideração a arte das figureiras. Elas modelam figuras com as mãos, utilizando argila”, explica a diretora do museu, Angela Savastano. Conta-se que, há cerca de 200 anos, um homem pescava no Rio Jaguari, região norte de São José dos Campos, quando, de repente, encontrou um objeto estranho. Curioso e ‘encucado’, perguntou-se: ‘O que será isso?’ Ele olhou bem e pensou: ‘Parece uma perna mecânica’.

Ele achou diferente aquele objeto e acabou decidindo levar para sua casa. Assim que chegou, mostrou à sua esposa o que havia encontrado nas águas do rio. Ela achou interessante e resolveu guardar em cima do guarda-roupa. Os dias se passaram e algo muito inusitado começou a acontecer com a mulher. Ela, que tinha uma úlcera na perna, viu seus ferimentos serem cicatrizados dia-a-dia. Era algo de fato extraordinário, pois na época não havia cura para esse tipo de doença — pelo menos era o que diziam... Então, não houve dúvida: ela teria sido agraciada por um milagre. Toda a vizinhança ficou maravilhada com aquele acontecimento, e foi impossível não associar o fato à perna encontrada no rio, que passou a ser chamada de ‘Santa Perna’.

Assim, como é tradição, foi criada uma capelinha, ali mesmo próximo ao Jaguari, para que os devotos pudessem registrar os milagres ou pedir uma graça.” Essa história é relatada pelo diretora do Museu do Folclore, Angela Savastano, pioneira no estudo e difusão do tema no Vale do Paraíba. Ela explica que o folclore usualmente é muito relacionado à religiosidade, mas essa tendência pode variar conforme a região. “A capela da Santa Perna existe até hoje e recebe muitas visitas de devotos. Ela é um exemplo do quanto um costume pode passar de geração para geração, e tudo isso comprova que nós somos o produto da cultura histórica”, diz ela.

Tecelagem

Instalado na antiga Tecelagem Paraíba, o Museu do Folclore de São José dos Campos é um espaço da Fundação Cultural Cassiano Ricardo (FCCR, órgão da Prefeitura), e funciona sob a gestão do Centro de Estudos da Cultura Popular (CECP), mediante convênio firmado entre as partes. “A missão do Museu é a divulgação e a formação. Tem o objetivo de valorizar o folclore da região de São José do Campos, Vale do Paraíba e Litoral Norte, com vistas a contribuir para o fortalecimento da identidade cultural e a formação da cidadania”, ressalta Angela.

Ela esclarece como são adquiridas as peças: “Tudo começa com uma pesquisa de campo. A gente vai até as comunidades, observa e ouve as pessoas. Dali é adquirido algum objeto: fotos, manuscritos, imagens etc. E assim vão-se juntando os elementos e, ao fim, os disponibilizamos sob um contexto”. O folclore (do inglês folk, povo, e lore, conhecimento) é a tradição de um povo, constituída por crenças e superstições, lendas, contos, provérbios, canções, danças, artesanato, jogos, religiosidade, brincadeiras infantis, mitos, idiomas e dialetos característicos, adivinhações, festas e outras atividades culturais que nasceram e se desenvolveram com o povo.

Existem tradições e costumes muito antigos, às vezes milenares. O estudo do folclore é relativamente recente e surgiu no início do século XIX na Europa. Ele nasce com viés de um contra movimento para valorizar o que é regional e popular e se opor à cultura erudita. “No nosso espaço, levamos muito em consideração a arte das figureiras, porque é muito forte na região”, exemplifica a diretora do museu. “Elas modelam figuras com as mãos, utilizando argila, mas temos várias outras manifestações expostas”, explica. O tema da exposição atual é “Patrimônio Imaterial, Folclore e Identidade Regional”. Anteriores a este foram “Traços de Cultura” e “Ciclos da Vida”.

Dinamicidade

Apesar da busca pela preservação das tradições, o folclore também possui uma característica peculiar, que é a dinamicidade. Ou seja: com o passar do tempo, devido às influências de imigrações, conflitos, ou de outro fatos históricos, as manifestações culturais podem ser alteradas. Nas palavras da gestora do museu: “O folclore é vivo”.

Hoje em dia, com a “globalização” e o advento da Internet, as pessoas trocam mais experiências. Por isso mesmo, é importante entender e valorizar o conhecimento regional, até mesmo para evitar que ele seja descaracterizado ou suplantado por outros costumes e hábitos.

A cultura de massas, por exemplo, veiculada por meios de comunicação como as publicações impressas de grande tiragem, e sobretudo a TV, o rádio e a Internet que chegam a dezenas de milhões de pessoas, quase sempre têm o objetivo de criar desejos de consumo para vender mercadorias, e para isso induzem padrões comportamentais, como a associação da felicidade plena por meio da obtenção de um determinado status, o qual é supostamente conquistado através da compra de objetos de grife: roupas, sapatos, celulares e outros. Esse fenômeno tão contemporâneo tem influenciado fortemente a sociedade. “Temos que valorizar o que nasce do povo, porque é lá que está a nossa identidade cultural. Por isso, convido a todos para conhecer o Museu do Folclore”, finaliza Angela.

Breve histórico

1986 – Criação da Comissão Municipal de Folclore da FCCR, formada por pesquisadores, educadores, agentes culturais e interessados nos estudos do folclore.

1987 – Por sugestão da Comissão Municipal de Folclore, a FCCR cria o Museu do Folclore de São José dos Campos.

1992 – Instalação provisória do Museu na Igreja São Benedito, com acervo de 203 peças.

1997 – O Museu ganha instalação definitiva no Parque da Cidade “Roberto Burle Marx”, por meio da Lei de Incentivos Fiscais (LIF) à Cultura.

Compartilhe
Share this

testando