Crise política contamina C&T

EMBORA HÁBIL, MINISTRO INTERINO KASSAB PARECE “ESTRANHO NO NINHO”

Antonio Biondi*
 

A equivocada “fusão” do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação com o das Comunicações transformou a pasta de C&T em “puxadinho”da outra e contribuiu para um esvaziamento ainda maior do setor. grave crise política e econômica que afeta o Brasil acertou em cheio o setor de ciência e tecnologia do país, assim como as pesquisas em geral —algo ainda mais danoso para um setor como o aeroespacial, que já vinha sendo sufocado pela inconstância do financiamento.

A equivocada “fusão” do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação com o Ministério das Comunicações, que transformou a pasta de C&T em um “puxadinho” da sua congênere, contribuiu para um esvaziamento ainda maior do setor, que sofre com a perda de visibilidade, de recursos e com a nomeação de um político profissional (e com zero histórico na área) como ministro.

Márcia Cristina Bernardes Barbosa, diretora da Academia Brasileira de Ciências (ABC), ressalta que no caso de um país emergente como o Brasil, a importância da C&T para o desenvolvimento não é algo óbvio nem para a população nem para o setor político. “Com a fusão dos dois ministérios, isso se perdeu”, explica Márcia, que é também diretora do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A fusão, a seu ver, “gera um grande impacto, com uma mensagem muito ruim a esse respeito”. Para ela, “a pior questão” nem é misturar os recursos: “É a perda de visibilidade. É a mistura de estratégias de áreas que possuem formas muito diferentes de se operar”.

A diretora da ABC registra que alguns políticos advogam que ciência básica é um luxo. Com a fusão, “a mensagem que chega à população, portanto, é de que se está economizando com um luxo”. Com isso, perde-se a noção de que o setor gera desenvolvimento e riqueza. “C&T passou à segunda divisão. Deixou de ser uma questão de Estado”, afirma, destacando que o setor não pode ser tratado como mera questão de governo. Ela destaca, nesse sentido, a realização das conferências para a área de C&T que permitiram que a política da área fosse formada de baixo para cima e a partir dessa visão de que é uma política de Estado.

José Humberto Sobral, pesquisador-sênior do INPE, afirma que “é uma temeridade para um país enorme e com uma produção sofisticada como o Brasil não contar com um Ministério da Ciência e Tecnologia”. Há 49 anos no Instituto e trabalhando com pesquisa espacial desde 1967, Sobral ressalta um segundo aspecto bem óbvio: “Ambos ministérios são importantes e exigem bastante atenção. Agora, as atenções ficarão divididas, em disputa”. “Para ocupar qualquer ministério, antes de tudo a pessoa precisa ter condições ético-morais. Antes de tudo”, defende Sobral.

“Não adianta ser Nobel se ele for safado. Não adianta só olhar a política. Antes de tudo tem que ter condições ético-morais”. Em segundo lugar, prossegue, o titular de uma pasta precisa de um bom assessoramento. “E, em terceiro lugar, a pessoa precisa ter ouvidos para tudo”. Sobral entende que um ministro “não necessariamente precisa ser do ramo”, mas, se não for, “vai ser muito difícil de compreender as questões e saber no que focar”. Não sendo da área, “o assessoramento pode se tornar muito perigoso, dar espaço a tráfico de influência, politicagem etc.”. O pesquisador do INPE faz questão de destacar que pouco conhece do atual ministro, Gilberto Kassab. “Tenho até boa impressão. Agora, caso ele se cerque de oportunistas, será um desastre”.

“Pessoas da casa”

A diretora da ABC, por seu turno, destaca que o novo ministro tem dito que foi a pasta de Ciência e Tecnologia que absorveu a de Comunicações, e não o contrário. “Ora, das cinco secretarias do novo ministério, ‘3,5’ ficaram com as comunicações, e ‘1,5’ com C&T”. Ela fundamenta os números quebrados no fato de a Secretaria de Inovação ter ficado “meio a meio”, e somente a de Ciência e Tecnologia “ter sido efetivamente mantida como secretaria da área”.

A professora da UFRGS acrescenta que “a economia que a fusão das pastas vai gerar é muito discutível”, ainda mais considerando os recursos que deixarão de ser gerados. Ela pondera, por outro lado, que foram colocadas pessoas “da casa” nas secretarias de Inovação e de C&T. “Isso foi um acerto. E se há uma coisa inteligente que ele fez foi procurar a comunidade científica para saber quais as prioridades e demandas mais importantes que temos”.

Não obstante, a nomeação de um ministro com histórico político e que não tende a pensar as questões de C&T estrategicamente preocupa a diretora da ABC. “A área das comunicações é uma área que sofre muitas pressões, sujeita a questões de curto prazo, que vai ter influência e impacto das eleições municipais deste ano... Já a área de C&T não funciona a curto prazo”, pondera. “Ele vai fazer como? Vai pensar politicamente em alguns dias da semana e estrategicamente nos demais?

Não tem como funcionar”. Márcio Martins, secretário- geral do Sindicato dos Trabalhadores em Pesquisa, Ciência e Tecnologia-SP (SintPq) considera que a junção das pastas foi “péssima”. Martins, que é também diretor de telecomunicações da Fitratelp (antiga Fittel, a federação dos trabalhadores no setor) ressalta o avesso da atual discussão: na sua opinião, “a área de Comunicações deixou de ser um ministério para se tornar uma secretaria”, “tínhamos acesso ao ministério antes, com portas abertas para dialogar, agora vai ser muito difícil nesse sentido”.

Na leitura do sindicalista, “foi a área de C&T que incorporou a das Comunicações”, mas o que mais importa é que, na prática, “ficou tudo um pouco sem rumo, não se sabe o que vai acontecer efetivamente”. Ele acredita que as definições dependerão “inclusive de o governo interino, que não reconhecemos, continuar ou não. Se a presidenta Dilma retornar, acreditamos que os dois ministérios devam voltar a existir”.

*colaboraram Caio Ramos e Napoleão Almeida

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