Um balanço da gestão 2012/16 do INPE

ATIVIDADES-FIM CAMINHARAM BEM, MAS HÁ RECLAMAÇÕES QUANTO À CENTRALIZAÇÃO EXCESSIVA

Shirley Marciano

Depois do inesperado insucesso do CBERS-3, devido a uma falha do foguete Longa Marcha, o CBERS-4 tornouse a vitrine do INPE, só embaçada pelo atraso no comissionamento das imagens. Nos últimos quatro anos, as atividades- -fim do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) caminharam relativamente bem, mesmo com a redução dos recursos disponíveis para o Programa Espacial Brasileiro.

Este período, durante o qual o instituto foi dirigido por Leonel Perondi, foi marcado por dificuldades jurídicas, falta de recursos humanos e financeiros, interrupções em contratos, mas igualmente por avanços importantes nas atividades-fim do instituto, como o bem sucedido lançamento do satélite CBERS-4 e a participação de pesquisadores do INPE em atividades científicas internacionais, como o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática-IPCC e a Rede LIGO de observação de ondas gravitacionais.

Em 2012, surgiu a polêmica dos pequenos componentes de energia, os chamados conversores DC/DC. Eles foram comprados pelo INPE da empresa norte-americana Modular Device Incorporation (MDI), em 2009, para serem usados nos satélites sino-brasileiros CBERS-3 e 4. Após testes ambientais, na fase final de preparação do CBERS-3, os DC/DC passaram a apresentar problemas.

Que fazer? De um lado, a Agência Espacial Brasileira (AEB) e o então Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) pretendiam que os componentes fossem substituídos por outros do mesmo lote, de forma a não atrasar em demasia o cronograma original de lançamento do satélite.

De outro lado, os técnicos do INPE envolvidos na fabricação do satélite, e a própria direção do instituto, adotaram posição mais cautelosa, buscando uma solução confiável para o uso dos DC/DC que apresentaram falhas, por meio da remoção desses componentes dos equipamentos tidos como mais críticos para o satélite, e consequente substituição por outro tipo de componente, mais seguro.

Improvável

A atitude prudente da equipe gerou maior atraso no lançamento do satélite, mas ofereceu o nível de confiança recomendado. Em dezembro de 2013 o CBERS-3 estava pronto para ser finalmente lançado da base de Tayuan, na China. Porém, o improvável aconteceu: o foguete chinês Longa Marcha 4B falhou — e o satélite foi perdido por causa de sua reentrada na atmosfera. Mereceu destaque nas edições do Jornal do SindCT o lançamento do CBERS-4 apenas 12 meses após o fracasso no lançamento do satélite anterior.

A implementação das mudanças necessárias e a integração do satélite CBERS-4 dentro de um ano demonstrou uma importante capacidade de trabalho das equipes técnicas e gerenciais envolvidas. “O prazo era muito apertado, mas focamos no objetivo e lançamos dentro do prazo programado”, diz Perondi.

“Toda a equipe trabalhou muito e com muita dedicação”. Por outro lado, a demora na implantação do software responsável pelo processamento automático das imagens geradas pelo CBERS-4 foi um ponto negativo. O problema foi revelado na edição 34 do Jornal do SindCT, de fevereiro de 2015 (http://goo.gl/ Vvn7LE). Por problemas de ordem administrativa e jurídica, a renovação do contrato da empresa responsável pelo desenvolvimento do software atrasou, retardando o processamento das imagens do satélite por cerca de oito meses. “Apesar dos problemas que tivemos, hoje nos orgulhamos da qualidade dessas imagens.

Elas estão no mesmo nível das do satélite Landsat 8, da NASA”, comenta o diretor. Diversas áreas do INPE destacaram-se no período. “Os satélites CBERS 3 e 4 são realizações importantes. Mas seria injusto se não citasse as demais áreas, como a de Ciências Espaciais, que passou a emitir boletins diários sobre clima espacial — ionosfera; a equipe da Observação da Terra-OBT, que se dedica aos projetos Prodes e Deter, de monitoramento e alerta para o Bioma Amazônico; e muitas outras áreas e projetos igualmente relevantes”, lembra Perondi.

Concursos

Episódio digno de nota envolveu o Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climático (CPTEC), que por pouco não foi obrigado a interromper seus serviços. Em agosto de 2013, o INPE foi sentenciado pela Justiça Federal a anular 111 das 126 contratações temporárias realizadas em 2010, a maioria delas para o CPTEC. Um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) foi assinado em novembro de 2013 entre MPF, Advocacia Geral da União e o instituto, determinando a realização de um concurso em 2014 e outras medidas. O concurso realizado em 2012 preencheria 40 das 111 vagas questionadas. Restaram 71 para o concurso de 2014, das quais 52 para atuar no CPTEC.

O novo concurso foi realizado e as vagas preenchidas regularmente. Problemas administrativos, como a interrupção de serviços das empresas terceirizadas que atuam na limpeza e jardinagem, em função da dificuldade na renovação de contratos ou na realização de novas licitações, trouxeram transtornos ao INPE.

Perondi alega que a falta de servidores, principalmente da área de gestão, é o principal motivo das interrupções. Mas há reclamações quanto a atrasos excessivos na tramitação de processos internos; à centralização na tomada de decisões; e ao fato de que o Comitê Técnico-Científico (CTC) praticamente deixou de se reunir desde 2012. Por fim, em 2014 o instituto celebrou contrato de R$ 70 milhões com o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que prevê melhorias na recepção e distribuição de imagens de sensoriamento remoto para aprimoramento de programas destinados à região amazônica.

Em 2016, firmou parceria com a Fundação de Apoio à Pesquisa (Fapesp) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), que destina R$ 25 milhões para projetos empresariais inovadores que gerem produtos para aplicações espaciais.

A propósito...

Até o fechamento desta edição, o governo interino não havia anunciado o nome escolhido para dirigir o INPE no quadriênio 2016- 2020, entre os três elencados pelo Comitê de Busca.

Quase dois meses após a elaboração da lista tríplice, sua composição não foi anunciada oficialmente e continua em sigilo. Extraoficialmente, sabe-se que o Comitê selecionou César Celeste Ghizoni, Ricardo Osório Galvão e Thelma Krug, mas se desconhece a ordem dos nomes na lista.

 

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