A polêmica parceria sino-argentina

CHINESES CONSTRÓEM UMA BASE DE OBSERVAÇÃO NA PATAGÔNIA

Antonio Biondi e
Daniel Merli

Parte de um tratado de cooperação anunciado em 2015, a base de Paraje de Quintuco vinculase ao objetivo dos chineses de rastrear suas missões na órbita da Terra e na direção da Lua e Marte. Em parceria com a Argentina, o governo chinês trabalha para inaugurar no final deste ano sua base de observação interplanetária em Paraje de Quintuco, na província de Neuquén, na Patagônia argentina.

É a terceira unidade chinesa do tipo, mas a primeira fora de seu território, o que desperta a atenção de outros países. Parte de um tratado de cooperação Argentina-China anunciado em 2015, a base de Paraje de Quintuco vincula- -se ao objetivo dos chineses de rastrear suas missões na órbita da Terra e na direção da Lua e Marte.

O acordo foi alvo de críticas por parte da mídia conservadora da Argentina, como o jornal La Nación. O periódico — que, recentemente, chegou a defender em editorial que Mauricio Macri anule penas decretadas contra agentes da Ditadura Militar (1976-1983) — propôs que o novo presidente anule trechos do acordo com a China, celebrado por sua antecessora Cristina Kirchner.

Tanto o La Nación como alguns analistas adotaram uma linha de críticas ao acordo baseadas na possibilidade de uso militar chinês em território argentino. É o caso do analista político Rosendo Fraga, diretor da consultoria Nueva Mayoria, em entrevista à britânica BBC. Segundo ele, “para a China, o satélite é do Exército, não importa o uso que se dá a ele”, e “o uso militar desta informação, se existe, é incontrolável”.

A polêmica é desnecessária, se considerada a premissa do engenheiro espacial José Bezerra Pessoa Filho, pesquisador do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE). “Qualquer país que desenvolveu programas espaciais não o fez para gerar tecnologia de ponta ou emprego de qualidade, mas o fez por questões militares”, avalia.

Bezerra acredita que a Argentina possa enfrentar logo restrição de compra de produtos pelos Estados Unidos. Ele lembra que o governo norte-americano veta a venda de componentes para países que desenvolvem projetos em parcerias com seus concorrentes. “Nosso país já sofre com isso pelo desenvolvimento do satélite sino-brasileiro”, lembra.

De qualquer modo, não faz parte do acordo a cooperação para lançamento de foguetes ou produção de satélites, mas apenas a observação espacial. Ainda assim, a cooperação sino-argentina representa mais um passo importante do país vizinho no setor, em uma década na qual vem registrando importantes avanços.

Em outubro de 2015, lançou o satélite Arsat- 2, menos de um ano depois do pioneiro Arsat-1, que atingiu sua posição orbital em 2014. Ambos desenvolvidos com tecnologia própria. Em um cenário de eleições presidenciais e de inúmeros avanços na corrida espacial, a então presidente Cristina Kirchner optou por consolidá-los na legislação. Preocupada com possíveis mudanças no programa em caso de derrota do seu candidato, Cristina enviou ao Congresso a Lei de Desenvolvimento da Indústria Satelital.

A legislação, que visa manter seu legado na área, foi sancionada no dia 4 de novembro de 2015, pouco mais de um mês antes de Mauricio Macri tomar posse como novo presidente da Argentina. A Lei de Desenvolvimento da Indústria Satelital contém, por exemplo, alguns dispositivos para blindar o trabalho da estatal Arsat.

Um deles é a reserva preferencial das frequências de 3G e 4G para a estatal, bem como a necessidade de dois terços de votos no Congresso Nacional para aprovar a venda de ações do Estado na empresa ou a liquidação de algum patrimônio da estatal. A lei define que o desenvolvimento da indústria de satélites é uma área de interesse público da Argentina e que um Plano Satelital Geoestacionário será implementado pela Arsat entre 2015 e 2035.

Para se ter uma ideia da dimensão e alcance da proposta, ela prevê a fabricação e lançamento de oito novos satélites nos próximos 20 anos. Exemplo? Em paralelo ao processo argentino, o Brasil segue em compasso de espera na mesma área. Em 2015, o país encerrou sua controversa parceria com a Ucrânia, consumada na Alcantara Cyclone Space (ACS). O fim do acordo é avaliado negativamente por Paolo Gessini, professor de Engenharia da Universidade de Brasília (UnB).

“Era uma oportunidade de recuperarmos terreno perdido”, acredita Gessini. Segundo ele, os ucranianos possuíam uma “tecnologia robusta”, advinda da experiência de décadas de produção durante a existência da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). “É uma parceria que tinha tudo para dar certo: a Ucrânia tem tecnologia, mas não tem dinheiro nem posicionamento geográfico. Já o Brasil tinha interesse em investir e uma base aeroespacial”, afirma. Gessini considera pouco provável que o Brasil encontre outro parceiro estratégico para seu programa aeroespacial.

“Os Estados Unidos? Nunca, eles não transferem tecnologia. Europa, Rússia, China? Por que eles precisariam de parceria com o Brasil?”. Na visão do professor da UnB, a parceria com a Ucrânia era, portanto, uma oportunidade única. Já Bezerra não vê sentido na parceria Brasil- -Ucrânia e avalia que os responsáveis pelo projeto deveriam ser responsabilizados pelos investimentos que agora podem se transformar em desperdício pesado de dinheiro público. “Não era só a Ucrânia que queria fazer acordo conosco, outros países queriam”, afirma ele, destacando nesse sentido a atrativa localização de Alcântara.

Numa coisa, Bezerra e Gessini concordam: independentemente de estabelecer parceria ou não, o Brasil precisa de investimento maciço e continuado se quiser desenvolver seu programa aeroespacial. “Se o Brasil quer de verdade fazer o programa espacial que diz almejar, precisa de muito mais investimento — ou não vai a lugar nenhum”, afirma Gessini. “Ou nós encaramos isso de frente ou desistimos. E minha avaliação é que, nós, como país, já desistimos, mas mantemos a retórica”, afirma Bezerra.

Gessini, por sua vez, aponta o desenvolvimento de pequenos satélites como uma das possibilidades para o Brasil. “Seria necessário fazer uma análise de mercado em outros países, mas hoje não são mais imprescindíveis os satélites de uma tonelada ou mais. Há satélites de até 100 quilos ou menos, que fazem operações importantes, como a observação da Terra, e podem representar um novo mercado para o Brasil”. Ponto de vista, ao que parece, compartilhado pelas autoridades que decidiram priorizar o Veículo Lançador de Microssatélites (VLM) em vez do VLS.

Correção necessária: Cemaden
O nome correto do pesquisador entrevistado na reportagem “Região serrana do Rio de Janeiro impõe novos desafios ao Cemaden” (Jornal do SindCT, edição 45, p. 8) é Márcio Andrade, e não Márcio “Almeida”, como erroneamente publicado nos exemplares impressos da publicação.
O erro foi corrigido na versão digital disponível em nosso portal online. Pedimos desculpas ao Márcio!

 

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