17 de abril: um dia para se lembrar e protestar

Em 17 de abril de 1996 acontecia o Massacre de Eldorado do Carajás, no Pará. Vinte e um trabalhadores rurais sem-terra foram brutalmente assassinados pela Polícia Militar, dez executados à queima roupa segundo laudo de legistas, durante uma marcha de protesto pela reforma agrária.

Os oficiais responsáveis pela operação foram condenados a 228 anos de prisão cada, mas estão albergados em apartamentos privativos em quartéis de Belém. Exatos vinte anos depois, na mesma data, aconteceu a votação da admissibilidade do processo de impedimento da presidente Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, em sessão marcada por discursos pueris, grotescos e preconceituosos, com direito inclusive a homenagem a um torturador que serviu à Ditadura Militar (p. 10).

Réu em sete processos no Supremo Tribunal Federal, o deputado Eduardo Cunha presidiu a sessão impassível às acusações de corrupção que lhe foram lançadas por muitos de seus pares. Ninguém tem respostas satisfatórias aos muitos questionamentos.

O viés político embaça a visão, apenas permitindo imaginar cenários, em que pese um desfecho ou outro. Exercendo a opinião de que “pior não fica”, o impedimento é tomado por muitos como a solução para o País, pouco importando se há conspiração do vice-presidente, aliado a candidatos presidenciais inconformados com sucessivas derrotas, nem que se mescle ao processo a Operação Lava Jato, ainda que a presidente não seja sequer citada nas delações premiadas realizadas no âmbito desta investigação, nem que seu nome não conste na lista que incrimina mais de 300 políticos de vários partidos (na maioria parlamentares que atuarão como julgadores no processo contra a presidente), beneficiados por propinas oriundas dos contratos entre Petrobras e Odebrecht.

Os otimistas esperam, com o impedimento, o fim da corrupção, o fortalecimento da democracia e consolidação das instituições, que o vice-presidente recupere o país, a economia e respeite os direitos da população. No momento em que se articula o governo interino, o programa de governo do PMDB, “Uma ponte para o futuro”, apresenta propostas no sentido contrário.

Ali se divisam claros ataques a direitos trabalhistas e sociais, arrocho do salário-mínimo, às aposentadorias e pensões; às liberdades democráticas, partidárias e sindicais; enfraquecimento do Estado e das empresas estatais; retomada das privatizações, em especial a do Pré-Sal, e alinhamento do Brasil aos Estados Unidos, em detrimento dos BRICS, do Mercosul e da Unasul. Muitos, no entanto, já se deram conta de que o combate à corrupção, sistêmica e institucionalizada, é luta diferente, mais complexa, necessita medidas dedicadas.

O que dizer de empresa que doa para todas as campanhas eleitorais, indistintamente da ideologia que representam? Enquanto o povo se digladia entre alcunhas de salgadinho e personagens de gibi, as empreiteiras loteiam o país e ganham de qualquer jeito, o povo sempre perde.

Ameaças

Neste contexto conturbado, outras ameaças afligem os servidores das carreiras de C&T. Não obstante a gravidade do momento e seus reflexos universais e coletivos, os servidores, legitimamente, se preocupam com os reajustes salariais, com a carreira e com os empregos. Há um movimento perigoso na formação de um eventual governo interino, de anexar o MCTI ao MEC, sob o mote de “otimizar” a máquina pública e diminuir o número de ministérios. Este é um cenário ruim que devemos combater ardorosamente. 

Só visualizamos retrocesso para a já tão desprestigiada atividade científica, marcada por institutos, autarquias e unidades de pesquisa depreciados, desfigurados em suas missões, próximos do caos por décadas de desprezo quanto à preservação de sua força de trabalho. Ainda nesta edição, uma matéria fornece algumas pistas sobre o programa de alguns dos candidatos à direção do INPE. Jogamos assim um pouco de luz no obscuro processo para escolha do próximo diretor, conduzido por um Comitê de Busca nada representativo, instituído pelo MCTI e do qual não faz parte nenhum membro da comunidade do instituto (p. 8-9).

Por outro lado, voltamos a comentar o anúncio oficial do fim do Projeto VLS-1, pelo IAE-DCTA e pela AEB. Milhares de trabalhadores dedicaram suas vidas (e 21 morreram na catástrofe de Alcântara) ao ainda tão almejado sonho de acesso autônomo ao espaço. É uma lástima que o VLS-1 tenha sido descontinuado sem pelo menos um lançamento exitoso, o que viraria esta página do desenvolvimento espacial brasileiro.

A retomada desta empreitada, em torno do VLM, também estará fadada ao fracasso se persistirem as condições deficitárias de gestão e a falta de uma política de Estado condizente com o desafio da atividade de pesquisa e desenvolvimento espacial. Esta é a luta que nos aguarda: reverter esta tendência (p. 6-7). Direção do SindCT

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