DCTA: trabalhadores estão preocupados com futuro do Programa Espacial Brasileiro

ONTEM, SONHO PROMISSOR: Hoje, incerteza e desânimo

Uma geração inteira de engenheiros e técnicos aposenta-se nos próximos três anos. Não houve renovação. A preocupação com o futuro do DCTA gera nestes trabalhadores o sentimento de frustração e abandono.

Por Claudia Santiago

“A minha geração se aposenta toda no máximo em três anos e não houve renovação. Para quem vamos passar o conhecimento adquirido com a experiência?”, questiona a engenheira do DCTA e diretora do SindCT, Laís Maria Mallaco.

Ser um trabalhador civil dentro de um órgão militar que tem como características a disciplina, a hierarquia e a voz de comando criam algumas dificuldades.

Entrevistas realizadas na Prefeitura do DCTA e no IAE (Instituto de Aeronáutica e Espaço) revelam que a convivência não é muito simples.

O militar que não cumpre uma ordem por dela discordar pode ser punido com a cadeia. E o civil? Recebe uma descompostura. Reprimenda daquelas que fazem gente grande chorar. Choro de humilhação, de vergonha.

Casos como esses incomodam muito os servidores do DCTA.

Mas nada incomoda mais do que a não realização de concursos para a renovação de pessoal.

Embora vários fatores levem o trabalhador do DCTA a procurar o seu Sindicato, o SindCT, nada é tão desolador quanto a frustração de ver o órgão perder importância.

“Temos a sensação que o DCTA vai acabar”, diz comovido o pintor Emerson de Lacerda Carvalho, 38 anos, há 16 no órgão. “Faltam equipamentos, material, mão de obra. Não tem um planejamento”, afirma.

Descontinuidade dos projetos assusta

A opinião de Emerson é a mesma do soldador Carlos de Abreu, 59 anos. Ambos trabalham na Prefeitura. “Gostamos muito de trabalhar no DCTA. O problema é que não há renovação, e algumas funções estão sendo terceirizadas. A política do governo é o corte de verbas, é tirar do público e passar para o privado”, analisa.

A engenheira Laís não fala em frustração, mas em sensação de desamparo e da insegurança causada pela convivência diária com falta de recursos, falta de pessoal e incerteza na continuidade de projetos.

A mudança de prioridade nos projetos devido à rotatividade nas chefias também incomoda muita gente. É que os militares são transferidos de uma base para outra.

Durante dois anos estão em São José dos Campos, pode ser que nos próximos anos estejam em Manaus, ou em Salvador.

Então, mesmo cientes dos problemas acabam ficando impotentes para resolvê-los. Não dá tempo.

Para Laís, assim como para Carlos e Emerson, a rotatividade dos militares é um complicador para a continuidade dos projetos.

Um outro problema que anda tirando o sono e causando muita ansiedade nos trabalhadores é burocratização e a lentidão no encaminhamento dos pedidos de aposentadoria. “O processo é muito longo tanto para as aposentadorias como para os laudos de periculosidade”, relata a engenheira Laís Maria.

Orgulho de trabalhar no DCTA

Emerson e Carlos sentem muito orgulho da função do DTCA no país e de fazerem parte desta estrutura. “Nos orgulhamos e, ao mesmo tempo,nos sentimos frustrados por trabalharmos numa área tão importante, uma alavanca tecnológica e vermos que as autoridades não dão ao DCTA a sua devida importância”, diz Emerson.

“O carro movido a álcool foi desenvolvido aqui. O DCTA é importante para a tecnologia, para o avanço espacial, para as telecomunicações. O VLS está parado devido aos cortes de verba. Se o Centro não se desenvolve, ele vai envelhecendo até acabar”, completa Carlos.

O gosto pelo trabalho no DCTA é o mesmo dos auxiliares Carlos e Emerson e da engenheira Laís. “Eu me formei nisso, gosto de trabalhar nisso, gosto do meu local de trabalho”, diz.

Quando pergunto por que tanto amor pelo DCTA, ela não titubeia: “Trabalhar aqui é como se a gente estivesse defendendo o Brasil”, conclui Laís.

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