Jorge Bittar, novo presidente da Telebras, apresenta planos para a empresa até 2018

ESTATAL FOI ESVAZIADA E QUASE EXTINTA POR FHC

Antonio Biondi

“A reconstituição da Telebras completa 4 anos, partindo do zero. A companhia teve que reconstituir seu corpo técnico. Partiu do zero na implantação da sua rede de banda larga. Chegamos a 2015 com 21 mil km de infovias no Brasil”. Jorge Bittar, engenheiro formado pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), assumiu em maio de 2015 a presidência da Telebras.

Esvaziada durante o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC), a Telebras foi reativada no segundo governo do presidente Lula, em 2010, por meio do decreto 7.175, que instituiu o Programa Nacional de Banda Larga (PNBL). Hoje a empresa atende a 608 municípios, que somados representam cerca de 91 milhões de habitantes.

Bittar, que trabalhou por mais de vinte anos na antiga Embratel (antes de sua privatização), foi deputado federal pelo PT-RJ por quatro legislaturas, atuando sobretudo na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara. Neste depoimento exclusivo ao Jornal do SindCT, ele fala a respeito do Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações (SGDC) e das novas perspectivas para a Internet banda larga no país.

A rede da Telebras possui hoje 21 mil km, e a empresa pretende ativar outros 8 mil km até 2016. “Temos uma rede de última geração, e muito segura, constituída dominantemente por equipamentos fornecidos pela indústria brasileira. São equipamentos que não obedecem às regras dos EUA de constituição de portas de acesso que facilitem a invasão de redes e, portanto, a obtenção ilegal e imoral de dados.

Isso assegura que, na prestação de serviços, sejam eles de governo ou serviços privados, a nossa rede seja de qualidade muito superior à das operadoras privadas”, disse Bittar ao Jornal do SindCT. “Isso tem representado um impulso muito grande ao desenvolvimento de tecnologia nacional e da indústria nacional do setor — que desde a privatização ficou em estado semiparalisado e até retrocedeu em muitos aspectos”. Confira a seguir os principais trechos do depoimento do presidente da Telebras, organizados por tópicos.

 

SGDC e INPE

Estamos implantando um satélite de última geração. Será destinado à banda larga, por meio da banda Ka, e destinará a banda X às Forças Armadas — uma banda apropriada para serviços de alta segurança. Esse satélite será construído por uma parceria com a Embraer, por meio da Visiona.

A Telebras será a operadora e comercializadora dos serviços do satélite, que deve ser lançado no último trimestre de 2016 e entrar em operação no 1º trimestre de 2017. Iremos adquirir uma grande capilaridade. O nosso satélite terá cobertura em todo o território brasileiro, e ainda nas 200 milhas da plataforma marítima.

irá permitir o oferecimento de serviços importantes, como levar banda larga às escolas públicas, aos serviços de saúde, a áreas importantes de operação do Pré-Sal. O SGDC também garantirá que todas as empresas públicas, como Correios e Dataprev (que presta serviços para as agências da Previdência Social), possam ter acesso à Internet pública de qualidade. E ampliar a oferta desses serviços à população, em parceria com os pequenos e médios provedores. Consta de nossos planos o lançamento de ao menos mais um satélite, para que tenhamos segurança e diversidade nas operações dessa natureza.

Pretendemos que ele incorpore ainda mais a tecnologia nacional e a capacidade brasileira de integração de sistemas de grande complexidade, como é o do satélite. A ideia é que o INPE e a Agência Espacial Brasileira possam estar sempre em sintonia fina com esse processo de desenvolvimento de conteúdo nacional, de transferência de tecnologia, para que nós possamos desenvolver novos artefatos, novos sistemas espaciais.

E que possamos cada vez mais adquirir conhecimento tecnológico e autonomia nessa importante área que são as atividades espaciais brasileiras. Continuamos ampliando e criando condições adequadas para que nossas infovias tenham segurança e cobertura em todo território brasileiro. O fato de termos um satélite não exclui a necessidade de termos uma rede terrestre de infovias de alta capacidade e de alta segurança.

 

Privatização das teles

A Telebras era a holding do sistema de telecomunicações público-estatal brasileiro. A principio, ela seria extinta em 1998, quando o sistema foi privatizado. Mas o governo precisava dos quadros da Telebras para a agência reguladora e fiscalizadora, a Anatel. Então, a Telebras foi mantida, apenas juridicamente, com o intuito de ceder seus quadros técnicos para a Anatel.

Por volta de 2010, o governo federal, observando a necessidade de se prover serviços de Internet em banda larga à população brasileira, entendeu que seria importante ter uma empresa pública ao lado das operadoras privadas. Isso para chegar às regiões do país e a segmentos da população não atendidos ou insuficientemente atendidos pelas empresas privadas, mesmo nos grandes centros urbanos.

Decidiu-se, então, pela reativação da Telebras. A reconstituição da Telebras completa cerca de quatro anos, partindo do zero. A companhia teve que reconstituir seu corpo técnico, fez concursos públicos. Ela partiu do zero na implantação da sua rede de banda larga, em um processo complexo de realização de investimentos próprios e de constituição de parcerias com outras empresas operadoras de banda larga. Por exemplo, as empresas de energia elétrica, que detêm grandes infovias no país, e a Rede Nacional de Pesquisa, a RNP, que também possui uma importante rede nacional.

 

Rede muito segura

Chegamos a 2015 com uma rede superior a 21 mil km de infovias no Brasil, um grande backbone, com bom nível de redundância para garantir segurança e confiabilidade. Temos uma rede de última geração, e muito segura, constituída dominantemente por equipamentos fornecidos pela indústria brasileira.

São equipamentos que não obedecem às regras dos EUA de constituição de portas de acesso que facilitem a invasão de redes e, portanto, a obtenção ilegal e imoral de dados. Isso assegura que, na prestação de serviços, sejam eles de governo ou serviços privados, a nossa rede seja de qualidade muito superior à das operadoras privadas. Isso tem representado um impulso muito grande ao desenvolvimento de tecnologia nacional e da indústria nacional do setor — que desde a privatização ficou em estado semiparalisado e até retrocedeu em muitos aspectos. Neste momento, estamos buscando ampliar a capilaridade de nossa rede pelos investimentos nas redes metropolitanas. A palavra- -chave para as redes de fibra óptica é compartilhamento.

O investimento nessas redes é relativamente alto, e elas possuem enorme capacidade. Faz parte de nossa estratégia, portanto, a constituição de parcerias, a exemplo da estabelecida recentemente com a Prefeitura de São Paulo. Iremos melhorar, ainda, o acesso em banda larga às escolas, unidades de saúde e outros órgãos da administração pública.

 

Parcerias e TICs

Estamos celebrando parcerias estratégicas com órgãos importantes do governo federal, como Serpro e Dataprev. Nessa parceria, a Telebras deve figurar como a operadora das redes, e os órgãos como provedores de serviços de tecnologia da informação (TICs).

A ideia é que possamos desenvolver soluções integradas de TICs para todos os órgãos públicos federais, com foco no nosso principal cliente, que são os cidadãos. Pretendemos criar serviços de qualidade cada vez mais elevada, seguros, e com interfaces extremamente amigáveis para os cidadãos. Também estamos desenvolvendo parcerias com a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), a fim de reunir todos os canais públicos, com o oferecimento da infraestrutura pela Telebras, [e] com os Correios.

 

Provedores

Pretendemos estreitar a cooperação entre a Telebras e os pequenos e médios provedores. O Ministério das Comunicações, o BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social], a Telebras e outros órgãos do governo federal estão desenvolvendo a constituição de um fundo garantidor para acesso a financiamento por parte dos pequenos provedores.

Com o financiamento, o provedor poderá ampliar e melhorar a qualidade da sua rede, e acessar as nossas estações de transmissão para que possamos desenvolver serviços de forma cooperada. Por fim, estamos em diálogo com o Sebrae [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas] e a Abrint, que é uma das associações dos pequenos e médios provedores, visando oferecer aos pequenos e médios provedores mais acesso a cursos de capacitação de gestão e de capacitação técnica.

Com todas essas medidas, a Telebras se constituirá num pilar importante da nova etapa do PNBL, que é o “Banda Larga para Todos”. Um plano mais ousado e que busca efetivamente caminhar na direção da universalização da banda larga de qualidade no Brasil.

 

Aldo Weber Vieira da Rosa (1917-2015)

Um personagem lendário da engenharia aeronáutica e do Programa Espacial Brasileiro, brilhante, difícil de definir em poucas linhas. Estamos falando do engenheiro, pesquisador e brigadeiro da reserva Aldo Weber Vieira da Rosa, falecido em 8/6/2015 em Palo Alto (EUA). Aldo Rosa presidiu o Grupo de Organização da Comissão Nacional de Atividades Espaciais (Gocnae, criado em 1961) e dois anos depois a Comissão Nacional de Atividades Espaciais (CNAE), embrião do Instituto de Pesquisas Espaciais (criado em 1971), posteriormente denominado Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Nascido em 15/11/1917 em Florianópolis (SC), Aldo Rosa graduou-se na Escola Militar do Realengo e na Escola Brasileira de Aeronáutica, ambas no Rio de Janeiro.

Enviado para um intercâmbio militar nos Estados Unidos em 1941, continuou seus estudos nas universidades de Stanford, onde recebeu o título de Ph.D. em Engenharia Elétrica, e Harvard. Em 1966, após reformar- se na Aeronáutica como brigadeiro do ar, tornou-se research associate, depois professor e professor emérito de Stanford. De 1952 a 1953, foi professor associado de eletrônica do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Em 1954, fundou o Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento (IPD), e em 1956 tornou-se presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Aldo Rosa possuia também uma forte faceta de esportista. Foi um dos precursores do voo a vela no Brasil, ao lado de colegas alemães do CTA (atual Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial-DCTA).

Na década de 1950, sobreviveu a um grave acidente de paraglider quando disputava um torneio internacional na França. Assim, não espanta saber que foi piloto de teste do mítico helicóptero brasileiro “Beija Flor”, desenvolvido no CTA pelo pesquisador alemão Henrich Focke, também criador do convertiplano. Autor de livros consagrados, como Fundamentals of Renewable Energy Processes e Fundamentals of Electronics, era detentor de uma patente nos EUA sobre o processo de fabricação de amônia. No governo Lula foi agraciado com a Grande Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico, prêmio máximo do país para a área.

Em 2007, Aldo Rosa concedeu uma longa e imperdível entrevista ao SindCT, disponível em http://goo.gl/HoiiD9.

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