Sonho do VLS-1 virou pesadelo?

CONTROLE MILITAR E INÉPCIA DA AEB SUFOCAM PROJETO

Diretoria do SindCT

Doze anos após a tragédia de Alcântara, os planos de lançar um foguete próprio parecem ter se dissipado. Não é adequado desenvolver projeto de tamanha complexidade no meio militar, onde a patente vale mais que o conhecimento. Em 22 de agosto de 2003 a ignição intempestiva de um dos propulsores do primeiro estágio do VLS-1 ceifou a vida de 21 civis brasileiros que trabalhavam na Torre Móvel de Integração (TMI), no Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão. Passados doze anos, o sonho brasileiro de conquistar acesso ao espaço parece ter se dissipado com a fumaça do acidente.

As autoridades do Comando da Aeronáutica, responsável pelo projeto, preveem que o lançamento ocorrerá daqui a dois anos. Os fatos, porém, sugerem que o sonho virou pesadelo e o VLS-1 jamais sairá do chão. Uma Comissão de Investigação do acidente apontou problemas de ordem organizacional e técnica, incluindo a equivocada decisão gerencial de remover o Dispositivo Mecânico de Segurança (DMS).

Se não tivesse sido removido, o DMS teria evitado o acidente de 2003. De acordo com José Oliveira, que fez parte da Comissão de Investigação, “não foi indicada uma causa específica, mas um conjunto de negligências que tinha como pano de fundo a falta de verba para o projeto, aliada à vaidade militar em conduzir o VLS de forma improvisada, sem os recursos necessários”.

Em 2004 foi iniciada a Revisão Crítica do Projeto VLS-1, que contou com o auxílio de técnicos russos. Um dos resultados foi a proposta de realização de um voo experimental para testar a parte baixa do VLS-1.

Somente os motores do primeiro e segundo estágios desse VLS-1 experimental seriam acionados, enquanto os motores do terceiro e quarto estágios seriam carregados com propelente inerte (esse voo experimental não transportaria a energia necessária para colocar um satélite em órbita da Terra, mas permitiria validar a parte baixa do foguete: motores do primeiro e segundo estágio).

Vale lembrar: em 1997 um dos propulsores do primeiro estágio não acendeu; em 1999, o propulsor do segundo estágio explodiu, quando acionado; em 2003, um dos propulsores do primeiro estágio sofreu ignição intempestiva. Em 2005 foi aberta concorrência para a construção da nova TMI, para substituir a torre destruída em 2003.

Após disputas judiciais envolvendo empresas concorrentes, a TMI foi finalmente entregue em 2011. Desde então, sua manutenção tem ficado a cargo de civis e militares e de empresas contratadas. O ambiente em Alcântara é agressivo em termos de umidade, salinidade e temperatura, o que exige contínuo esforço para manutenção da operacionalidade da TMI, estrutura em aço com um sofisticado sistema eletrônico.

Contudo, para que a TMI pudesse mostrar a que veio, faltava um pequeno detalhe: o foguete! Para testar a funcionalidade da torre, foi necessário realizar a integração de uma maquete do VLS-1 à TMI. Essa maquete era semelhante ao VLS-1, com exceção dos propulsores, carregados com propelente inerte. O teste foi realizado em junho de 2012, mas a maquete estava desprovida de redes elétricas, vitais à realização de testes. Portanto, só a integração mecânica do veículo à TMI foi realizada. Mas... e as redes elétricas?

O Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), organização responsável pelo Projeto VLS-1, havia contratado as redes elétricas à Mectron, empresa pertencente ao Grupo Odebrecht. Após alguns anos e muitos milhões de reais gastos, o IAE constatou que a Mectron não tinha capacidade de entregá- -las. Não ficou claro se o contrato em questão foi amigavelmente rescindido ou se a pendência foi entregue ao Poder Judiciário (sobre a Mectron, ver também p. 4).

 

Mudança a cada 2 anos

Diante do imbroglio, o IAE, que no passado alegara não ter pessoal técnico suficiente para construir as redes elétricas do VLS-1, decidiu, em 2014, levar a cabo sua construção por meios próprios, com conclusão prevista para 2016. Desde o acidente em 2003, o Projeto VLS-1 mudou sua gerência não menos do que seis vezes, o mesmo ocorrendo com a direção do IAE e com quase todas as divisões técnicas do instituto (chefiadas por militares).

Ou seja: a cada dois anos, tudo muda, menos a previsão para conclusão do VLS-1, que, coincidentemente, é de dois anos. O discurso da Aeronáutica de que o problema é a falta de recursos financeiros e de pessoal esconde a real questão, já diagnosticada por uma consultoria da Universidade de Campinas (Unicamp) contratada pelo Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) após o acidente com o VLS-1: é inadequado desenvolver um projeto de tamanha complexidade no contexto institucional militar, onde a patente hierárquica vale mais que o conhecimento técnico. Além dos 21 civis que morreram na explosão de Alcântara, outras dezenas de civis deixaram as fileiras do IAE desde então, a grande maioria por aposentadoria. Portanto, a capacidade técnica existente hoje no IAE é muito inferior à existente em 1997 e mesmo em 2003.

De acordo com técnicos experientes ouvidos pelo Jornal do SindCT, as autoridades civis e militares responsáveis pelo Projeto VLS-1 não têm ideia da complexidade de se desenvolver um Veículo Lançador de Satélites. Todavia, não seria honesto atribuir apenas à questão militar os descaminhos do VLS-1. No governo federal, cabe à Agência Espacial Brasileira (AEB) formular e coordenar a política espacial brasileira, expressa no Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE), edição 2012-2021.

O PNAE atual previa lançamentos do VLS-1 em 2013, 2014, 2015, bem como dos seguintes veículos lançadores de satélites: VLM (2015), VLS-Alfa (2018) e VLS (2020), todos a cargo do IAE. Previa ainda o lançamento do foguete Cyclone-4 (2014), a cargo da binacional Alcantara Cyclone Space (ACS).

Até o momento, nenhum dos lançamentos previstos no PNAE foi cumprido. Enquanto o Programa Espacial Brasileiro (PEB) encontra-se quase parado, o presidente da AEB, José Raimundo Braga Coelho, acumula milhas aéreas em viagens por China, Rússia e EUA. Numa de suas breves paradas em Brasília, Coelho decidiu levar adiante o delirante projeto do primeiro espaçonauta brasileiro, que, de acordo com a AEB, fará um voo suborbital a bordo de espaçonave estrangeira... Com a caneta o sr. ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação.

 

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