Crise do VLS desnuda AEB

As dificuldades do nosso país são proporcionais ao seu tamanho. Requerem o que o brasileiro tem de melhor, capacidade criativa; e de pior, amadorismo e improvisação. Ainda não temos planejamento estratégico de país e isto nos tem consagrado como um reles mercado de aporte da tecnologias de massificação. Tudo está por construir: infraestrutura básica de portos, aeroportos, comunicação. Somos tratados pelo que somos: um grande mercado consumidor, ávido por todo o tipo de novidades.

Esta edição lança um olhar sobre as incongruências do Programa Espacial Brasileiro (PEB), sob a coordenação da fraca e equivocada Agência Espacial Brasileira (AEB), que não consegue promover as atividades do setor. Faz tempo que o VLS, mais especificamente o VSisnav, foguete de certificação do sistema de navegação do VLS, está enroscado no emaranhado jurídico em que se tornaram os contratos de fornecimento das redes elétricas de potência do foguete. A Mectron-Odebrecht já recebeu pelo produto contratado, mas não conseguiu entregar nenhuma placa de circuito integrado sequer.

Como o parque industrial aeroespacial é parco, o Satélite Amazônia/Plataforma Multimissão (PMM/AMZ-1) também enroscou na mesma empresa. A contratante é a AEB, a quem cabe acompanhar, fiscalizar e adotar sanções no caso de eventuais desvios contratuais. Quais serão as consequências, quais os impactos financeiros e atrasos impostos a estes programas? Quem é do ramo sabe que alguns programas são hipersensíveis à extrapolação do seu ciclo de desenvolvimento. Nas tecnologias sofisticadas a obsolescência mata os projetos: não dá para remendar, tem que (re)começar do zero.

Estes dois casos mostram a fragilidade do desenvolvimento tecnológico espacial brasileiro. A AEB nem tinha corpo técnico próprio à época destas contratações: sua força de trabalho era integralmente formada por cargos comissionados. Nestas condições, sua atuação como principal contratante pode ser entendida como intervenção, cuja ação “mediadora” mais atrapalha do que ajuda a implementação dos programas.

 

Telecomunicações

Mudando para a Telebras: ficou o nome e a marca, trata-se de outra empresa estatal, inteiramente nova, constituída da capacidade criativa e laboriosa do trabalhador brasileiro. Depois de precarizadas, as teles brasileiras foram todas privatizadas.

Em seu lugar amargamos hoje empresas privadas predadoras e ineficientes, supostamente monitoradas por uma Anatel desprovida de instrumentos coercitivos que possam debelar afrontas às regulamentações. Sofremos com péssimos e caros serviços, que tendem agora ao oligopólio. Não seria de se esperar tal resultado, de uma política de constante desvalorização do serviço público e dos servidores?

A Telebras, felizmente, parece apontar agora para outra direção: fortalecimento de uma empresa estatal fundamental no setor das telecomunicações, com o intuito de oferecer serviços públicos de qualidade para a população, na (boa) contramão do perverso processo de privatização. O melhor dos cenários seria o dos serviços públicos eficientes, voltados a atender às necessidades do povo e não à ótica excludente da economia de mercado.

A falta de uma visão de Estado nos levou a adquirir satélites que já deveríamos saber produzir. Assim também o VLS, pelo bem do Brasil, precisa ser página virada do processo de construção da autonomia de acesso do país ao espaço, mesmo que tenha sido sucateado pelo atraso no seu ciclo de projeto. Por fim: sabe aquela ponte que liga o nada a lugar algum, que às vezes aparece nos noticiários? É exatamente este tipo de troféu à insensatez que se produzirá com a interligação das bacias dos rios Atibainha e Jaguari. Será o casamento de duas bacias falidas, acometidas pela mesma sede de água ao custo de quase 1 bilhão de reais! Boa leitura!

 

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