Brasil desenvolve tecnologia que torna aviões militares “invisíveis” aos radares

MIRABEL REZENDE E O PROJETO MARE

Shirley Marciano

“Material Absorvedor de Radiação Eletromagnética” (MARE) converte a energia eletromagnética emitida por radares inimigos em energia térmica, impede a reflexão de sinais e assim retarda a identificação dos aviões.

 

Embora concebido com fins militares, o MARE tem diversas aplicações civis. Invisibilidade de aeronaves parece assunto de filmes de ficção científica. Mas, se aplicarmos o termo “invisibilidade” apenas em relação aos radares, veremos que já é realidade para países mais desenvolvidos na área militar. O Brasil trabalha para, em breve, também dominar essa tecnologia, e vem conseguindo avanços significativos, graças ao projeto “Material Absorvedor de Radiação Eletromagnética” (MARE).

 

Utilizado na pintura dos aviões militares ou na própria estrutura, esse material tem a capacidade de absorver a energia eletromagnética emitida pelos radares inimigos, transformando-a em energia térmica, facilmente dissipada, impedindo assim a reflexão de sinais e, como consequência, retardando a identificação da aeronave. No Brasil, essa frente de pesquisa, inicialmente pensada para uso militar, foi liderada pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), a pedido do Ministério da Defesa.

 

Sua coordenação esteve a cargo da química Mirabel Cerqueira Rezende, doutora em Engenharia Química pela USP e pesquisadora da Divisão de Materiais, à época. Hoje, é professora do Instituto de Tecnologia da Aeronáutica (ITA) e do Instituto de Ciência e Tecnologia de São José dos Campos, da Unifesp.

 

Para um radar identificar um avião no ar, ele envia energia eletromagnética na faixa de micro-ondas. As ondas colidem com o objeto e retornam ao radar com a informação do contorno da aeronave, que é automaticamente cruzada com um banco de dados de modelos de aeronaves, que indicará qual o avião, a que país pertence, se é civil ou militar e outros dados. Porém, quando a aeronave é pintada com o MARE, o radar tem dificuldade de identificar o alvo por alguns segundos. Por exemplo, um avião, ao invés de ser detectado a uma distância de 30 km, será identificado somente quando estiver a 8 km do radar.

 

É justamente nesse intervalo de tempo que o avião pode cumprir sua missão de ataque, mapeamento de regiões e rastreamento de atividades suspeitas. “Mesmo tendo uma Constituição não expansionista e, portanto, mais pacífica, essas tecnologias trazem soberania ao país por tornar mais eficaz a plataforma de defesa, e junto a outras ações podem contribuir para proteger nosso país de algum ataque”, diz a professora Mirabel.

 

Aplicações civis

Embora tenha sido idealizado para objetivos militares, o “Material Absorvedor de Radiação Eletromagnética” permite aplicações com uma grande gama de utilidades também para as necessidades civis.

 

O produto pode ser aplicado na parte interna de aviões civis, no isolamento dos cabos elétricos, evitando interferências nos comandos, que podem ser provocadas por aparelhos celulares. As antenas de radiotransmissão podem receber anéis absorvedores para eliminar ondas eletromagnéticas indesejáveis que interferem nos sistemas de comunicação.

 

Antenas de transmissão e recepção e os próprios aparelhos de telefonia celular também podem ser revestidos com esse material absorvedor de energia eletromagnética.

 

Outros exemplos de uso do MARE são os revestimentos internos dos fornos de micro-ondas, com o objetivo de impedir a saída de radiação, ou a blindagem eletromagnética de marca- -passos, destinada a eliminar qualquer interferência eletromagnética externa, que pode vir até mesmo de um aparelho de celular e provocar uma arritmia na pessoa. Também é útil nas pesquisas científicas e nas indústrias para o isolamento de câmaras anecoicas, usadas, por exemplo, para testar a reflexão de ondas eletromagnéticas.

 

Dependendo de sua aplicação, o MARE pode ser desenvolvido em forma de tinta, borracha ou espumas, que recebem a adição de centros absorvedores com grande capacidade de atenuar micro- -ondas, como ferritas, materiais carbonosos (negro de fumo, grafite, nanotubos de carbono, folhas de grafeno) e polímeros condutores de micro-ondas. No caso dos aviões com finalidade militar, tem-se pesquisado, mais recentemente, revestimentos absorvedores à base de polímeros condutores e nanopartículas de carbono, de modo que fiquem mais leves.

 

Mirabel, que se aposentou no IAE em 2013, explica que desenvolver essas pesquisas foi um desafio devido aos poucos recursos e à descontinuidade das verbas destinadas a este fim. Ela conta que o financiamento de órgãos públicos de fomento à pesquisa (Finep, Fapesp, CNPq) foi o divisor de águas para decidir pela sua continuidade, pois esses recursos e a dedicação dos pesquisadores do IAE e dos bolsistas de mestrado e doutorado é que tornaram possível o desenvolvimento dos trabalhos.

 

“As diversas parcerias com universidades rendem bons frutos até hoje. Aqui mesmo na Unifesp temos um aluno de doutorado na área com apoio do ITA e do INPE [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais]. O ITA tem duas alunas de doutorado, que estão finalizando suas teses na área com o apoio do Laboratório de Guerra Eletrônica, que tem se dedicado bastante ao apoio aos trabalhos que envolvem o MARE”, explica. Além disso, acrescenta, a Finep foi fundamental para o desenvolvimento das pesquisas, porque financiou a reforma do Laboratório de Processamento e Caracterização Eletromagnética do DCTA. O projeto envolveu ao todo 30 pessoas: 10 funcionários do IAE e 20 bolsistas de pós-graduação.

 

 

Compartilhe
Share this

testando