A capoeira pelos olhos de Mestre Lobão

BESOURO MANGANGÁ

Shirley Marciano

“A prática sempre foi marginalizada, por ter nascido da cultura dos negros escravizados. Mas em São José dos Campos sempre teve um diferencial positivo: na Semana da Asa do DCTA mestre Damião trazia apresentações de capoeira”.

 

É ao som de três berimbaus, dois pandeiros e um atabaque que vão se desenvolvendo a ginga, os chutes em rotação, as rasteiras, os floreios, os golpes com as mãos e tantos outros movimentos, que embalados pelas palmas, formam a roda de capoeira. “Podemos dizer que é uma mistura de arte marcial, esporte, cultura popular e música, e foi desenvolvida no Brasil pelos escravos vindos da África”, conta Everaldo Bispo de Souza, o Mestre Lobão. A capoeira surgiu nas senzalas, no período de escravidão negra no Brasil. Mas, diferente do que muitos possam imaginar, não foi criada ao acaso. A luta era disfarçada em música para enganar os feitores e assim evitar a proibição.

 

Naquele momento, a capoeira era uma esperança de liberdade e de sobrevivência para enfrentar, após uma fuga, a caça dos capitães do mato, que andavam armados e sobre cavalos. Uma das maiores resistências, que utilizou as técnicas de luta da capoeira, foi a de Quilombo dos Palmares, que chegou a ficar de pé por mais de 100 anos. Lobão, apelido que ganhou após o batismo na capoeira, começou a aprender os movimentos ainda na juventude, quando morava na Bahia.

 

Mas foi no período que chegou em São Paulo com os pais, aos 17 anos, que de fato aperfeiçoou as técnicas. Ele frequentava a Academia Cordão de Ouro, do grande Mestre Suassuna. Foi lá que conheceu o tenente Esdras Magalhães dos Santos, da Aeronáutica, conhecido como Mestre Damião. Ele também um grande capoeirista, que teve aulas na Bahia com o “mestre dos mestres”: Manoel dos Reis Machado, o Bimba.

 

Foi assim que Damião convidou o jovem Lobão para ir morar em São José dos Campos e montar uma academia em parceria com Esdras Filho, o filho mais velho de Damião. Desse modo, em 1971 foi inaugurada a primeira academia de capoeira do Vale do Paraíba, a “Besouro Mangangá”, administrada por Esdras Filho e Lobão. O nome da academia é uma homenagem a Manoel Henrique Pereira, grande capoeirista nascido no final do século XIX, na Bahia. Diz a lenda que, quando acuado por um grande número de inimigos, ele voava como um besouro mangangá e conseguia se livrar de todos eles.

 

Diferencial

“A prática da capoeira sempre foi vista como algo marginalizado, por ter nascido da cultura dos negros escravizados, apesar de já ter mudado bastante e ser muito reconhecida no Brasil e fora dele. Mas aqui em São José dos Campos sempre teve um diferencial positivo, porque antes de a gente inaugurar a academia, na Semana da Asa do DCTA, Damião trazia apresentações de capoeira”, conta Lobão.

 

A capoeira é uma arte brasileira que goza de prestígio fora do país, tanto que Lobão faz inúmeras viagens de encontros com capoeiristas e para apresentar a modalidade. Esteve no México, no Japão e em diversos outros países. Quando o entrevistamos ele estava prestes a viajar para 3 estados dos EUA: Connecticut, Califórnia e Arizona. “É importante que cada vez mais pessoas possam conhecer a capoeira”, ressalta. A capoeira trouxe bons frutos para o mestre Lobão. Ele participou de 3 filmes nos anos 1970.

 

O Dia em que o Santo Pecou é de 1975, dirigido por Cláudio Cunha e com roteiro de Benedito Ruy Barbosa. Kung Fu Contra as Bonecas, também de 1975, foi dirigido por Adriano Stuart, com roteiro de Walter Negrão. Jeca e o Seu Filho Preto, que tem como protagonista ninguém menos do que Mazzaropi, é de 1978, dirigido por Pio Zamuner e Berilo Faccio, com roteiro de Rajá de Aragão.

 

A Roda de Capoeira foi registrada como bem cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 2008, com base em inventário realizado nos estados da Bahia, de Pernambuco e do Rio de Janeiro, considerados berços desta expressão cultural. Em novembro de 2014, a Roda de Capoeira recebeu da Unesco o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

 

Perguntamos a Lobão se há alguma restrição de idade para jogar capoeira. Ele explica que pode-se começar a aprender com qualquer idade, e que independe do gênero. “E é uma terapia porque trabalha o corpo pelo movimento, o ritmo e a força também. Médicos recomendam para curar males como a depressão”.

 

Disposto a trabalhar em São Paulo como controlador de tráfego aéreo, Esdras Filho acabou por confiar a academia a Lobão. Por essa razão, Lobão continua com sua missão de ensinar a arte da capoeira na academia Besouro Mangangá. “Tenho orgulho do que faço. É minha vida”.

 

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