Unifesp quer ter 5 mil alunos até 2020

ENSINO SUPERIOR: Brasil tem 80% dos alunos na rede privada

Entrevista ao jornal do SindCT, do Diretor do campus, Armando Zeferino Milioni, Engenheiro mecânico aeronáutico. Formado no ITA, mestrado no ITA e Dr em Pesquisa Operacional em Chicago, fala sobre os planos de expansão do ensino superior no Brasil, as especificidade de São José, as prioridades de universidade e a parceria com o Inpe.

Por Fernanda Soares e
Claudia Santiago

Jornal do SindCT: No pós- Golpe de 64, através dos “Acordos MEC-USAID”, as portas à privatização do ensino foram abertas. Hoje, 86,2% dos estudantes universitários estão em instituições privadas. Qual a importância da Unifesp para o ensino, a pesquisa e a extensão?

Zeferino Milioni: Eu moro em São José dos Campos há 37 anos. Desde que cheguei aqui as vagas em ensino público superior são as mesmas. Nos últimos 40 anos o município multiplicou de tamanho. No estado de São Paulo, é o segundo município em exportações e o trigésimo em população. No entanto, não há vagas públicas em ensino superior. Encontrei apenas três municípios maiores em população e com menos vagas em ensino superior público do que São José. A população desses municípios faz uso das instalações universitárias da capital. Todos são colados com a capital do seu estado. A vaga pública mais próxima de São José dos Campos fica há 80 km, em Guaratinguetá ou São Paulo. A chegada da Unifesp atende a uma política do Governo Federal de expansão das universidades federais. O Brasil está na contramão do mundo desenvolvido em termos de vagas públicas. Nos EUA ou Europa, 80% dos alunos estudam na rede pública. No Brasil, é exatamente o contrário: 80% dos alunos aproximadamente estão na rede privada. Fiquei muito entusiasmado com a chegada da Unifesp. Será uma história de muito sucesso.

Jornal do SindCT: Como vai funcionar a Unifesp? A quantas pessoas atenderá direta e indiretamente?

Milioni: Por enquanto, a Unifesp é pequena. Atende a 650 alunos. Nosso plano é atender mais de 5.000 alunos e ter 1.500 alunos na pós-graduação.

Jornal do SindCT: Qual será a sua prioridade? Quais cursos serão abertos? Haverá pós-graduação?

Milioni: A universidade começou em 2007 com o curso de Ciência da Computação. Eram 50 vagas. Em 2009, foram abertas mais 50 vagas. Desta vez, em matemática computacional. Este ano, 2011, foram abertas mais 200 em Ciência e Tecnologia. C&T é um curso de três anos de duração. Com mais um ano o aluno pode concluir Engenharia de Materiais ou Engenharia Biomédica e, com mais dois anos Engenharia de Energia ou Engenharia de Automação e Controle. A gente quer ser diferente do Ita principalmente em tamanho, queremos ter 5.000 alunos até o final de 2020. A Unifesp em São José é só área de exatas. Em cada campus ela tem uma identidade. Em Diadema, tem cursos de química e meio ambiente. Em Guarulhos, Filosofia, História e Letras. Em São José, nós somos o Instituto de Ciência e Tecnologia da Unifesp.

Jornal do SindCT: Foram encontrados problemas para instalar a universidade pública em SJC? De que tipo? Como foram superados?

Milioni: Eu sou recente aqui, não tenho um ano, mas ouço histórias muito ruins. A universidade começou no Parque Tecnológico, com uma turma de 50 alunos no período noturno. Os alunos contam que lá em 2007 não tinha nada. Tinha um professor dando aula pra 50 alunos. Eles contam de ratos na sala de aula, computador sem acesso à internet, e faltava luz... isso que os alunos contam. E quando mudamos pra cá, atrás do prédio era um brejo, fi cava cheio de pernilongos. Eu não vi nada disso. Se teve algum problema burocrático para a instalação eu não soube, sempre ouvi falar que o relacionamento da prefeitura com o governo para a instalação da universidade é uma maravilha, tanto que a prefeitura doou o prédio que estamos hoje.

Jornal do SindCT: O ITA estabeleceu parcerias com algumas empresas. A Unifesp também faz parcerias?

Milioni: Eu estabeleci uma parceria com o INPE, que é o nosso melhor parceiro daqui. O INPE tem cinco programas de doutorado e um monte de bolsistas da CAPES que não têm onde cumprir o estágio docência. Quem tem bolsa de estágio da CAPES firma o compromisso de se dedicar em pelo menos um semestre a um estágio de docência. Onde os alunos do INPE poderiam fazer já que o INPE não tem curso de graduação? Eu fui lá e convidei para fazer aqui. É bom pra eles que tinham um problema nesse sentindo, e é bom pros meus alunos. Tem muita gente que diz: São José já tem muita ciência e tecnologia, falta arquitetura, história, medicina. Minha posição é a seguinte. São José não tem muita ciência e tecnologia, tem o ITA, que é muito pequenininho, e tem as privadas. Eu adoraria que viesse uma UNESP, USP e se instalasse do meu lado no Parque Tecnológico. Ali tem terreno sobrando. E a Unifesp já tinha escolhido os outros campi. Foi natural a Unifesp trazer pra São José aquilo que é o talento mais notável para a cidade que é a Ciência e Tecnologia. Tem gente que fala, “C&T tem muito, falta uma faculdade de medicina”. Eu que moro aqui também quero uma faculdade de medicina, mas pra Unifesp não é tão simples. A Unifesp tem um estatuto e lá diz que ela não duplica curso no estado de São Paulo. Ou seja, não pode haver o mesmo curso em dois municípios. Eu adoraria que alguém trouxesse cursos de outras áreas, mas não vai ser a Unifesp. Todos os cursos que estão sendo criados aqui não existem nas outras unidades da Unifesp. Vamos festejar o que a gente trouxe.

Jornal do SindCT: A Unifesp trabalha com sistema de cotas? Há alguma estimativa de quantos alunos são provenientes de escolas públicas, quantos são de São José?

Milioni: Aqui na Unifesp a política adotada pelo Conselho Universitário é de reserva de 10% das vagas para cotistas de escolas públicas e declarados negros ou índios. Fizemos um levantamento com os 300 novos alunos. 45% vieram de escolas particulares. 47% dos alunos são de São José. De outras cidades do Vale, 15%. De fora do estado, 2%.

Jornal do SindCT: No final do ano passado, em carta dirigida à sociedade brasileira os reitores das principais universidades do país reconhecem o Governo Lula como o período em que mais se investiu em educação pública. Desta maneira, o governo brasileiro atrapalhou o cumprimento das metas estabelecidas pelo Programa de Promoção da Reforma Educativa na América Latina - Preal), inspiradas ainda pelo Consenso de Washinghton?

Milioni: Não tenho conhecimento da América Latina então não posso falar sobre isso. Eu tenho 55 anos. Eu sou entusiasmado com a coragem do Governo Lula de fazer essa ampliação da educação. É claro que teria sido mais fácil fazer essa ampliação em 20 anos, mas o tamanho da dívida social do país requer essa agilidade. Nós não vamos resolver os problemas do país sem sacrifício. Daqui a 10 anos esses problemas terão sido resolvidos. Então sou absolutamente encantado com esse esforço em torno da educação.

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