Epidemia de dengue atinge em cheio o Vale

ENTRE JANEIRO E MARÇO, SÃO PAULO TEVE MAIS DE 257 MIL CASOS E MAIS DE 120 MORTES

Antonio Biondi

A situação mais crítica da região está em São José: 4.105 casos até abril, contra 835 no ano passado inteiro. Jacareí tinha 471 casos até abril (em 2014 todo foram 237). No litoral, Caraguatatuba decretou calamidade pública: até 23 de abril a cidade teve 2.915 casos O início de 2015 vem sendo marcado por um grave crescimento dos casos de dengue no Brasil, que atinge em cheio o Estado de São Paulo e o Vale do Paraíba. Entre janeiro e março (até dia 28), o Ministério da Saúde contabilizou 460 mil casos de dengue no país. Um aumento de 240% em relação ao mesmo período de 2014, quando foram registrados 135 mil casos da doença.

Proporcionalmente, São Paulo é o terceiro Estado com mais casos de dengue, com 585,5 casos a cada 100 mil habitantes. O Acre é o Estado que apresenta a maior incidência de dengue em relação à população, com 882,5 casos para cada 100 mil habitantes. E Goiás vem em segundo lugar, com 702,4 casos por 100 mil habitantes. Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), órgão das Nações Unidas, as regiões que apresentam mais de 300 casos da doença por 100 mil habitantes enfrentam uma epidemia, o que coloca o Estado paulista nessa situação — classificação contestada pelo governo de Geraldo Alckmin (PSDB).

Em relação ao total de casos, São Paulo lidera o quadro nacional, com 257.809 ocorrências. Goiás vem em seguida, com 45.819. Dois dos Estados com maior população no país, Minas Gerais e Rio de Janeiro, apresentavam um número de casos bastante inferior até 28 de março: 30.153 e 13.181 respectivamente.

Um dos problemas centrais na expansão da dengue no Estado de São Paulo “é que o governo estadual vem se eximindo desse combate, deixando-o a cargo essencialmente dos municípios”, avalia Thiago Henrique dos Santos Silva, médico de família e mestrando da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.

Em material enviado por e-mail à reportagem do Jornal do SindCT, a Secretaria de Estado da Saúde destacou que “dos 645 municípios paulistas, 410 não apresentaram quadro de epidemia neste ano” e que “conforme preconiza o Sistema Único de Saúde (SUS), o trabalho de campo no combate à dengue, a exemplo de controle de criadouros e investigação dos casos suspeitos, é realizado pelos municípios”.

Por seu turno, a Secretaria “garante a realização de todos os exames de sorologia de casos suspeitos por intermédio de sua rede de laboratórios”.

Municipalização

O diretor regional do Sindsaúde-SP na subsede do Vale do Paraiba, Litoral Norte e Serra da Mantiqueira, Victor Coque, considera que a região “enfrenta uma situação bastante grave”, destacando que “todos os 39 municípios da nossa Regional enfrentam problemas, maiores ou menores”.

Para ele, a difícil situação enfrentada por São Paulo se deve ao gradativo esvaziamento da Superintendência de Controle de Endemias (Sucen), órgão do governo estadual que historicamente lidava com o problema.

“Na prática, o governo do Estado municipalizou a questão da dengue, e os municípios não estavam e nem estão preparados para enfrentar a questão”. No Vale do Paraíba, a situação é mais crítica em São José dos Campos, com 4.105 casos (e três mortes), contra 835 casos em 2014.

Lorena também teve um crescimento acentuado, com 427 casos até o momento, contra apenas 66 registros em 2014. Jacareí já tem quase o dobro de todos os casos de 2014 (471 contra 237). Taubaté, que chegou a astronômicos 9.402 casos no ano passado, conseguiu uma redução drástica em 2015, com 982 casos confirmados até 18 de abril. Para atingir tal feito, a Prefeitura de Taubaté organizou um Plano de Comunicação e Mobilização para o Controle da Dengue.

A campanha passa pelo treinamento de agentes comunitários ligados ao programa de Saúde da Família, pela prevenção e eliminação de criadouros do mosquito, pelo conhecimento da doença e pela organização do sistema de saúde local com vistas a otimizar o atendimento aos pacientes com dengue.

O plano também conta com ações de mídia, como a campanha “Xô Dengue” em rádio, TV e redes sociais. Por fim, o município vai adquirir em breve o equipamento UBV (ultra baixo volume) de grande porte, considerado mais eficiente, com menor custo e maior segurança na aplicação do que a tradicional termonebulizacao. De acordo com a Prefeitura, o UBV pode cobrir áreas grandes como parques e margens de córregos. “O vírus possui um comportamento cíclico.

E possui quatro subtipos. Cada um deles possui um período em que pode vir a causar uma epidemia, de um, dois, três anos. Quando coincide esse comportamento de dois ou mais subtipos, o problema se torna ainda mais complexo”, explica Tereza Cardozo, coordenadora da Vigilância Epidemiológica da Prefeitura de São José dos Campos.

“Por exemplo, em 2014 não houve esse quadro epidêmico no país, mas 2013 havia sido bastante problemático. Esse crescimento verificado de 2014 para 2015 não é somente em São José dos Campos, mas em todo o Estado. E, pela posição do município, local de circulação de muitas pessoas, vindo de (e indo para) muitas regiões, isso acaba ampliando o problema”.

Tereza informa que a Prefeitura desenvolve um trabalho permanente, todos os anos, a partir de um planejamento já consolidado pelo município e sempre de acordo com as orientações do Ministério da Saúde. Neste momento de maior complexidade, busca-se intensificar ações com vistas a eliminar os criadouros, combater os focos de mosquitos, realizar “arrastões” nos bairros.

“Além disso, na última semana de abril a estrutura de atendimento na rede pública será ampliada. Vai haver também a contratação de médicos em caráter emergencial e temporário”. No Litoral Norte, Caraguatatuba segue em Estado de Emergência e Calamidade Pública, decretado pelo governo municipal devido à doença. Até 23 de abril de 2015, a cidade teve 2.915 casos confirmados.

O município promove a campanha “Todos Contra a Dengue”. Um exemplo que mostra que o trabalho conjunto de município, Estado e governo federal pode dar resultado vem do Rio de Janeiro, que passou de assombrosos 130.412 casos em 2012, para 66.278 em 2013 e 2.649 em 2014, de acordo com a Prefeitura. Nos primeiros meses de 2015 houve pouco mais de 1.000 casos.

NA PÁGINA 9 VOCÊ ENCONTRA MAIS INFORMAÇÕES SOBRE A DENGUE

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