Quem acredita que o Pré-Sal é um mico?

MÍDIA ESCONDE ÓTIMOS RESULTADOS DA PETROBRAS

Antonio Biondi*

Uma das maiores companhias de petróleo do mundo é retratada pela mídia brasileira como massa falida. Mas os poços do Pré-Sal já respondem por quase um terço da produção nacional de petróleo.

A quem interessa fragilizar a Petrobras? Achei 10 centavos, já posso comprar a Petrobras”. A frase de autoria desconhecida, pescada na internet, capta bem o espírito geral da sociedade brasileira após meses de cobertura enviesada das investigações da Operação Lava Jato e de uma sequência de quedas nas ações da Petrobras no mercado financeiro.

Mas estaria a maior empresa brasileira condenada ao fracasso pelo caso de corrupção descoberto, que envolve alguns ex-funcionários graduados, bem como empreiteiras e partidos políticos?

E a exploração do Pré-Sal estaria inviabilizada pelos baixos preços do barril de petróleo no mercado internacional? Seria uma conclusão lógica a partir de uma análise superficial da cobertura dos grandes veículos sobre o tema nos últimos meses. Mas está longe de representar a verdade.

Basta ver a vigorosa alta das ações da Petrobras na Bolsa de Valores de São Paulo, na segunda quinzena de abril. Desde antes de a Operação Lava Jato cair como uma bomba no cenário político nacional, a imprensa já vinha questionando a capacidade da Petrobras de explorar o Pré-Sal, devido à queda nos preços internacionais do petróleo. Em novembro, a revista Época trouxe reportagem questionando se os projetos da Petrobras ainda eram viáveis: “Até onde esse preço pode cair sem inviabilizar a exploração do Pré-Sal?”.

Na mesma época, o historiador gaúcho Apolinário Ternes vaticinou no conglomerado gaúcho de mídia RBS: “O Pré- -Sal está ficando inviável com a queda do preço do barril. E o dólar pode inviabilizar ou transferir a rentabilidade do Pré-Sal para daqui a mil anos”. Vida real, Shell e BG

Na vida real, os números são bem diferentes.

O Pré-Sal não está esperando o ano de 3015 para sair do fundo do oceano. Já responderá, em 2015, por cerca de um terço de nossa produção de petróleo. A produtividade média das camadas abaixo do nível do sal era estimada em 15 mil barris diários.

Mas está rendendo 25 mil barris por dia, em cada um dos 17 poços perfurados em dois campos que já são explorados: Lula e Sapinhoá. Para se ter uma ideia do que isso representa, é interessante comparar com outras explorações marítimas. No Mar do Norte, entre a Noruega e a Inglaterra, a produção é de 15 mil barris por dia, enquanto no Golfo do México é de 10 mil barris dia.

Ou seja, um poço em Sapinhoá produz, sozinho, o mesmo que um do Mar do Norte e do Golfo do México juntos. O tempo de perfuração também está menor que o previsto inicialmente, o que comprova que a Petrobras domina bem a tecnologia de exploração do Pré-Sal, desenvolvida pela empresa, e que pode ser aplicada em outros campos marítimos situados em águas profundas pelo mundo afora. A maior negociação mundial deste ano, anunciada no início de abril, jogou luzes sobre o Pré- -Sal, o que ajuda a entender o tamanho dos negócios que estão em jogo: a megapetrolífera holandesa Shell pagou US$ 70 bilhões (cerca de R$ 218 bilhões, à cotação de 8 de abril) pelo controle da British Gas Group (BG).

No comunicado ao mercado, as empresas informaram estimar que a atual produção da Shell no Brasil salte de 52 mil barris diários, em 2014, para 550 mil barris diários no fim da década. Ou seja, a estimativa da própria empresa é que a produção de petróleo no Brasil do Pré- -Sal seja multiplicada por dez em cinco anos.

Mercado financeiro

A expectativa é de que o grupo combinado formado por Shell e BG no Brasil se torne o principal parceiro da Petrobras na exploração em águas profundas. Algo que decorrerá, em boa parte, da experiência adquirida pela Shell na parceria com a Petrobras no campo de Libra, que deu à empresa holandesa “um alto grau de confiança na lucratividade e no potencial de crescimento” desse segmento de exploração.

O executivo- -chefe da Shell, Ben van Beurden, foi bem claro: “O Brasil é o país mais excitante para o mercado de petróleo no mundo”. Essa excitação já vem se refletindo no mercado acionário. Sabemos que as ações não podem ser a única medida para se avaliar o sucesso da empresa.

Elas variam muito de acordo com os “humores” desse mercado, expectativas de ganho ou perda. E não necessariamente de acordo com a produtividade das companhias. Porém, mesmo nesse ambiente volátil, a expectativa sobre a Petrobras já voltou a crescer. Suas ações PETR4, que já bateram o piso de R$ 8,04 em 6 de janeiro, aproximavam-se de R$ 13 no final de abril.

Na Bolsa de Nova York, suas ações ADR só se valorizaram menos que as da British Petroleum (11,52% contra 12,05%), subindo muito mais do que as da Shell (-2,81%), da Total (5,96%), da Conoco- Philips (3,85%), da Chevron (0,56%) ou da Exxon (-5,5%). Durante a baixa das ações, a Associação dos Engenheiros da Petrobras (Aepet) chegou a propor que o governo recomprasse as ações. “Já que os estrangeiros querem vender, o governo deveria aproveitar as ações em baixa para recuperar o máximo possível da maior empresa do País para o controle do povo brasileiro”, sugeriu a Aepet em comunicado.

Lei da Partilha

Se mesmo com o barril de petróleo batendo o menor preço da história, a Petrobras está explorando o Pré-Sal e há gigantes se digladiando por ele, por que pintar um cenário tão trágico? Independentemente dos números, há uma disputa de fundo. Ela tem um componente ideológico, mas também financeiro.

Um grupo de acadêmicos e empresários estrangeiros e de políticos brasileiros sustenta que o modelo de exclusividade da Petrobras na exploração do Pré-Sal (Lei da Partilha) é errado. “A Petrobras deveria ter sido mantida em um regime competitivo. Em vez disso, o governo incentivou o monopólio no Pré-Sal, exigiu conteúdo nacional”, queixa-se o economista venezuelano Ricardo Hausmann, professor da Universidade Harvard, em entrevista recente à revista Veja. Para ele, o monopólio da Petrobras e a lei que obriga a compra de componentes nacionais na exploração do Pré-Sal configuram uma “política pouco inteligente para desenvolver a indústria do petróleo”, que seria “estilo anos 60”.

“A indústria de petróleo vai conseguir combater a lei do Pré-Sal?”. O questionamento é o título de um telegrama do consulado norte-americano no Rio de Janeiro para Washington, em 2 de dezembro de 2012. O telegrama repassava conversa com Patrícia Padral, diretora de desenvolvimento de negócios e relações com o governo da petroleira norte-americana Chevron, e foi vazado pelo Wikileaks. Em outro telegrama, o consulado norte-americano informa a Washington que o então candidato a presidente José Serra (PSDB) havia se comprometido com a mesma executiva da Chevron a mudar as regras do Pré-Sal caso fosse eleito em 2010.

“Deixa esses caras [do governo federal] fazerem o que eles quiserem. As rodadas de licitações não vão acontecer, e aí nós vamos mostrar a todos que o modelo antigo funcionava... E nós mudaremos de volta”, disse Serra a Patricia Pradal. Na eleição seguinte, o novo candidato tucano, Aécio Neves, voltou a defender a mudança do modelo. E o agora senador Serra segue atacando, no Congresso Nacional, o monopólio da Petrobras. Acontece que, como verbaliza o coordenador- -geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP), José Maria Rangel, “essa riqueza que o povo brasileiro foi agraciado não pode ser entregue” da forma como defendem Aécio e Serra.

Rangel refuta, por sinal, a alegação oportunista de que a corrupção encontrada na Petrobras seria motivo para retirar a empresa do Pré-Sal.

Controle estatal

“Para nós, todo aquele que praticou um malfeito tem que ser punido, desde que se apure e se confirmem as denúncias contra a pessoa”, afirmou o dirigente sindical petroleiro. “Tem que fazer apuração rigorosa e as pessoas que forem culpadas têm que pagar. Agora, não dá para, neste balaio todo, as pessoas quererem misturar malfeito com a gestão da Petrobras. Quem faz isso é porque não se conforma com a Petrobrás ser operadora única do Pré-Sal”.

O coordenador-geral da FUP lembra que 77% das reservas de petróleo do planeta estão sob controle de empresas estatais. Esse é o tema que novamente está em jogo no Brasil, também para o presidente da Aepet, Felipe Coutinho.

“A Petrobrás e o petróleo brasileiro da camada do Pré-Sal estão no centro desta disputa. Os oportunistas e históricos entreguistas não descansam. Ao mesmo tempo em que a companhia é lesada e vilipendiada por agentes externos e internos, é ainda atacada pela mídia empresarial na sua condição de operadora única do Pré-Sal.

Fomentam a desinformação na busca pelo petróleo brasileiro, em favor das multinacionais que esgotaram suas reservas”. Na mesma linha, indaga o respeitado geólogo Guilherme Estrella, ex-diretor da Petrobras e principal descobridor do Pré-Sal: “Qual crise pode abalar uma empresa petrolífera que detém mais de 30 bilhões de barris de reservas de petróleo e gás natural, possui conhecimento, tecnologia e excelência operacional para produzi-los em grandes e crescentes volumes com excepcional lucratividade — mesmo aos atuais preços internacionais?”

E continua Estrella, na entrevista concedida ao Jornal dos Economistas (mantido pelo Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro), edição 309, de abril de 2015: “Acrescentem-se a isto 11 refinarias (mais uma em construção), três terminais de GNL [Gás Natural Liquefeito], duas fábricas de fertilizantes e certamente o mais importante ativo estratégico a garantir a sua sustentabilidade a longo prazo, que é sua posição hegemônica num mercado praticamente cativo de um dos mais importantes países do mundo, em todos os sentidos, e com gigantescas oportunidades de permanente e contínuo crescimento econômico e social, como já vem acontecendo”.

Na opinião do geólogo, há uma clara manipulação em curso: “Esta ‘crise’, isso mesmo, entre aspas, é uma tentativa de desconstrução não só da Petrobras, mas do

Brasil. Os extraordinários resultados empresariais da Petrobras na última década, como de resto ao longo de seus mais de 60 anos, desmascaram e põem a nu os reais objetivos desta campanha lesa-pátria em que insistem os poderosos defensores de interesses não brasileiros na tentativa de desestabilizar a Petrobras e o Brasil”.

*Colaborou Daniel Merli

 

Compartilhe
Share this

testando