Atos opostos, em defesa do governo e contra, reúnem centenas de milhares de pessoas

POLARIZAÇÃO SOCIAL E POLÍTICA

Antonio Biondi

Manifestações de 13/3, lideradas pela CUT e outras centrais sindicais, rejeitaram o golpismo e proposta de impeachment de Dilma e deram ênfase à defesa da Petrobras. Os atos de 15/3 contra Dilma, por sua vez, tiveram claro apoio da TV Globo. Uma enorme manifestação com dezenas de milhares de pessoas —mais de 100 mil, nas cálculos de uma das principais organizadoras, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) — ocupou totalmente a Avenida Paulista no dia 13 de março, em defesa da democracia, da Petrobras, por direitos e pela reforma política.

Organizado por diversas centrais e sindicatos, movimentos sociais, entidades e partidos, o ato se colocou contra as pretensões golpistas travestidas de impeachment e contra o risco de outros retrocessos sociais, econômicos e políticos no país.

O ato em São Paulo integrou uma mobilização de caráter nacional, com manifestações em 24 capitais e inúmeras outras cidades.

As feições qualitativas e quantitativas da mobilização surpreenderam, servindo, ainda, para colocar uma pressão à esquerda sobre o governo. No caso de a presidenta Dilma Rousseff optar por seguir uma trilha mais alinhada às expectativas desse segmento, as ruas de 13 de março ajudaram a mostrar que ela conta com base e apoio.

No entanto, as centrais sindicais deixaram claro seu repúdio a medidas como os projetos de lei originados nas medidas provisórias 664 e 665, que reduzem direitos dos trabalhadores como o auxílio-desemprego, o auxílio- defeso e outros. Dois dias depois, a Avenida Paulista foi tomada por outra enorme massa, dessa vez porém em claro protesto contra Dilma. Ao contrário dos atos realizados em 13/3, as manifestações do dia 15/3 (um domingo) contaram com a clara simpatia da TV Globo, que as transformou numa “superprodução”, com direito a tomadas aéreas, transmissão ao vivo e mudança da grade de programação da emissora. Assim, a quantidade de manifestantes no domingo em São Paulo, em torno do “Fora, Dilma!” e pelo impeachment, foi estimada pela TV Globo em “580 mil” por volta das 16 horas e, apenas meia hora depois, em “1 milhão”, tendo como fonte a Polícia Militar. Mas não há indicação concreta de que essa manifestação tenha sido mais numerosa que a do dia 13.

 

Não vai ter golpe!”

O ato de 13 de março na capital paulista foi marcado por uma forte presença das entidades dos trabalhadores e trabalhadoras, bem como por uma intensa chuva em boa parte da atividade, que transcorreu pacífica do começo ao fim. Os participantes em momento algum esmoreceram com o aguaceiro.

“Não mexa nos meus direitos” e “Direito não se reduz, se amplia”, diziam as faixas vermelhas levadas por integrantes da CUT. A derrubada dos projetos que mudam o seguro-desemprego, a pensão por morte e outros direitos também foi pautada, assim como a taxação das grandes fortunas.

Já encharcados na descida da Consolação, os manifestantes cantaram firmemente que “Não vai ter golpe!”, além de afirmar que “Pode chover/ pode molhar/só não pode/ privatizar!”. Levando faixas com os dizeres de que “A Petrobras é do povo brasileiro”, os trabalhadores petroleiros enfatizaram a defesa da empresa, reafirmada em diversas falas nos carros de som. João Antonio de Moraes, diretor da Federação Única dos Petroleiros (FUP), ressaltou a importância da Petrobras para o país. Moraes declarou ao site da CUT que os casos de corrupção não podem ser usados distorcidamente para inviabilizar a estatal. Ele defende a punição de quem tenha cometido irregularidades, após a comprovação do ilícito.

“São cerca de 1,5 milhão de empregos que giram em torno da indústria do petróleo. Entregar o Pré-Sal é um crime. O povo não permitirá que isso aconteça”, afirmou. Entre outras conquistas, ele ressaltou que em 2014 “a Petrobras se tornou a maior produtora de petróleo com capital aberto do mundo, recebeu pela terceira vez o prêmio Nobel da indústria do petróleo e bateu recordes no refino”. João Paulo Rodrigues, da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), relembrou que a defesa da Petrobras é uma bandeira histórica dos movimentos, agora pautada unificadamente em todo país.

 

Defesa do Pré-Sal

O presidente nacional da CUT, Vagner Freitas, destacou a capacidade de mobilização dos movimentos e, em especial, da entidade. Segundo ele, “a Central deu o recado de que agora precisa acabar o processo de terceiro turno para que a presidenta Dilma possa governar. Mas que governe ouvindo o povo, colocando em prática a agenda que ganhou as eleições”.

Freitas defendeu a adoção de uma política econômica que fortaleça o Estado e o crescimento do país. No ato de 13 de março, ao qual compareceram diversos grupos e movimentos sociais de todo o Estado, as pautas também se multiplicaram. A mídia foi criticada em cartazes como “Fora mídia golpista”, “Não deixe a mídia roubar o seu Pré-Sal” e outros.

“Corrupção se combate com reforma política”, preconizava uma das faixas mais fortes. “Respeita que aqui é povão”, dizia cartaz empunhado por um popular. Um outro lembrava que a corrupção está longe de ser o principal problema: “Tolerância zero para a sonegação”. A crise no abastecimento de água em São Paulo não foi esquecida, adesivos perguntavam “Geraldo, cadê a água?” e um cartaz clamava contra “o desperdício nas piscinas particulares”.

Até o controverso bordão que postulava “FHC e FMI fora já daqui” reencontrou seu lugar, com novos personagens: Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, e Joaquim Levy, ministro da Fazenda. Sônia Coelho, coordenadora da Marcha Mundial das Mulheres, avisou que o movimento é contrário ao ajuste fiscal comandado por Levy: “Queremos um caminho que avance nos direitos trabalhistas, das mulheres e na reforma política”.

Thiago Pará, da coordenação nacional do Levante Popular da Juventude, afirmou que o ato também é uma crítica ao governo, pela esquerda, “mostrando que não queremos esse ajuste: queremos reforma política, Constituinte e avanços políticos”. E destacou: “O caminho que desejamos é o oposto ao neoliberal e à volta da Ditadura”.

 

 

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