Escândalo das contas do HSBC implica figurões e donos da mídia brasileira

CASO SWISSLEAKS

Antonio Biondi

Filial suiça desse banco abrigou US$ 100 bilhões em contas secretas de 106 mil clientes de 203 países. Dessas contas, 6.606 eram mantidas por 8.667 clientes brasileiros e somavam US$ 7 bilhões.

O escândalo que eclodiu no mês de fevereiro no mundo todo, relativo a contas secretas reveladas na filial suíça do banco britânico HSBC, possui todos os ingredientes para se consagrar como uma das maiores agendas políticas e jornalísticas do Brasil em 2015. Conhecido como SwissLeaks, o caso revelou que o HSBC na Suíça abrigou mais de 100 bilhões de dólares em contas secretas pertencentes a 106 mil clientes de 203 países.

Os dados, que se referem aos anos de 2006 e/ou 2007, indicam que 6.606 dessas contas bancárias pertencem a 8.667 clientes de nacionalidade brasileira e envolvem cerca de 7 bilhões de dólares — mais de 20 bilhões de reais. Por desvendar o modus operandi de sonegação e evasão de receitas praticada por grupos que integram a elite brasileira, implicando corruptos e corruptores, o caso deveria ser uma chance de ouro para a mídia do Brasil atender ao interesse público e mostrar para onde vai parte das riquezas produzidas no país. Porém, embora o escândalo tenha obtido grande espaço e repercussão no exterior, no Brasil os principais jornais e emissoras de TV falaram quase nada sobre ele.

Logo se soube as razões desse silêncio: é que proprietários dos grupos empresariais de mídia estão entre os donos das contas do HSBC na Suiça. Foi o que se leu em matéria publicada pelo jornal O Globo: “Na lista dos 8.667 brasileiros [...] aparecem donos, diretores e herdeiros de veículos de comunicação, além de jornalistas. Um levantamento feito pelo Globo, em parceria com o UOL, com base nos documentos oficiais que foram vazados por um ex- -funcionário da instituição financeira, indica que há ao menos 22 empresários e sete jornalistas brasileiros entre os correntistas do HSBC suíço.

Nos documentos, constam os nomes de proprietários do Grupo Folha, ao qual pertence o UOL”.

Ainda segundo O Globo: “Quatro integrantes da família Saad, dona da Rede Bandeirantes, também tinham contas no HSBC na época em que os arquivos foram vazados. Constam entre os correntistas os nomes do fundador da Bandeirantes, João Jorge Saad (1919-1999), da empresária Maria Helena Saad Barros (1928- 1996) e de Ricardo Saad e Silvia Saad Jafet, filho e sobrinha de João Jorge. Lily de Carvalho, viúva de dois jornalistas e donos de jornais, Horácio de Carvalho (1908-1983) e Roberto Marinho (1904-2003), aparece na lista. [...] Roberto Marinho foi dono das Organizações Globo, hoje Grupo Globo, ao qual pertence O Globo”.

Entre vários outros nomes de proprietários de mídia de diversos pontos do país citados na matéria figuram o de Carlos Roberto Massa (Ratinho), dono da “Rede Massa”, afiliada ao SBT no Paraná, que possuía, em conta conjunta com a esposa, 12,5 milhões de dólares; e Aloysio de Andrade Faria, do Grupo Alfa (Rede Transamérica), que tinha em conta US$ 120,6 milhões.

 

Dinheiro obscuro”

O caso traz em si, portanto, potenciais ameaças ao direito à informação dos brasileiros e brasileiras. É o que afirmam jornalistas ouvidas pelo Jornal do SindCT, para as quais o escândalo das contas secretas do HSBC merece uma divulgação muito mais ampla do que vem tendo até agora.

Basta ver que o próprio texto do jornal O Globo trata do assunto de modo discreto, protocolar, numa linha de “redução de danos”. Natalia Viana, jornalista da Agência Pública, explica que sua equipe está solicitando acesso aos documentos. “Morro de vontade que eles cheguem a nós”.

No seu entender, é possível até que a apuração das informações seja exaurida pelo grupo de jornalistas que atualmente já tem acesso à lista, capitaneado pelo jornalista Fernando Rodrigues e por outros profissionais do Portal UOL e do jornal O Globo, “mas queremos acessá-la também”.

Ela defende que a definição do que é jornalismo não deve se dar a partir do que um profissional esconde, e sim em função do que ele revela. A solicitação da Pública se destina ao Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (cuja sigla em inglês é ICIJ), que organizou a divulgação dos dados em âmbito mundial.

Em 8 de fevereiro, Rodrigues, um premiado repórter (autor da reportagem sobre a compra de votos no Congresso que garantiu a reeleição de FHC), informava em seu blogue: “Equipe de jornalistas de 45 países revela contas bancárias secretas mantidas por criminosos, traficantes, sonegadores fiscais, políticos e celebridades” e “HSBC abrigou dinheiro obscuro ligado a ditadores e traficantes de armas”. Alguns dias depois, o blogue do jornalista explicaria que “só serão publicados dados que tenham interesse público”, apresentando cifras impressionantes.

Ainda de acordo com o blogue, “a imensa maioria dos nomes contidos na listagem brasileira do HSBC da Suíça é desconhecida do grande público”. De todo modo, haveria “uma minoria de pessoas conhecidas”, a saber: “empresários, banqueiros, artistas, esportistas, intelectuais”.

Ele divulgou, então, nomes e contas de pessoas citadas na Operação Lava Jato, bem como de outras envolvidas nos casos de corrupção que envolvem o Metrô de São Paulo e a empresa Alstom, Operação Vampiro, máfia do INSS e outras. Atualmente, o trabalho de investigação de Rodrigues e sua equipe é complementado por uma parceria com o jornal O Globo na apuração e divulgação dos resultados.

Concentração no setor

“Seria fundamental que um caso como esse fosse tratado com a devida relevância jornalística, que ele não está tendo até o momento, por parte da grande mídia como um todo”, avalia a jornalista Beatriz Barbosa, integrante do Coletivo Intervozes e da Comissão Nacional de Ética da Federação Nacional dos Jornalistas.

“No cenário vivenciado no Brasil, de grande concentração no setor, a ausência de pluralidade que verificamos nos meios pode fazer com que o direito à informação da sociedade seja em parte negado neste caso”.

Beatriz destaca que a descoberta, em março, de “parte da explicação sobre por que isso está acontecendo — temos donos e empresários dos meios de comunicação entre as pessoas com recursos milionários nas contas do HSBC”, acabou por mostrar “outra faceta, econômica e política, pela qual os meios acabam não dando a devida importância a essa denúncia”.

Ela pondera que faz parte do trabalho da imprensa buscar enfoques, filtros e ênfases, mas, “se você tem um mesmo filtro sobre a questão, ou um único filtro, é grande a chance de parte dos casos e fatos que integram a notícia não chegarem ao conhecimento da sociedade”.

Tal situação decorre, conclui Beatriz, não somente das relações do HSBC com a mídia enquanto grande banco e anunciante, mas sim “dos interesses diretos dos grupos, relativos aos recursos que eles possuem nessas contas e a como, quando e por que remeteram esse dinheiro para o exterior”.

Adverte que “serão esses mesmos interesses que acabarão determinando até onde as investigações e consequências delas poderão chegar — tendo os próprios donos e sócios dos veículos como investigados”.

Pluralidade de visões Natalia Viana conta que, quando participou do grupo responsável pela divulgação dos documentos relativos ao Wikileaks, em 2010, havia desde o início a premissa de que todo o material seria publicado na íntegra ao final.

Além disso, houve quatro meios e momentos diferentes de divulgação, com visões bastante distintas: “Com essas diferentes visões, acredito que se fique mais próximo de atingir o dito interesse público”.

Para Natalia, quanto mais jornalistas tiverem acesso à documentação, “maior será a pluralidade de visões e a riqueza com que o tema chega à sociedade”. No caso do HSBC- -Swissleaks, a partir do momento que a equipe de O Globo se somou à do UOL, opina ela, “ampliou-se o olhar sobre os documentos, e muito mais nomes passaram a ser divulgados”.

A jornalista conta que o ICIJ, responsável pela divulgação do Swissleaks no exterior, defende a política utilizada afirmando que é um processo que envolve jornalistas, e não “vazadores”. Para Natalia, a crítica representa uma ameaça ao trabalho realizado primeiramente por Julian Assange e depois por Edward Snowden.

“Negar a importância do que foi feito é uma ameaça até mesmo a essas pessoas, que já foram presas, exiladas, etc. Ao se privilegiar os ‘jornalistas com J maiúsculo’, paira uma ameaça sobre os demais que se dedicam a trazer informações para a sociedade”.

 

Ponta do iceberg

Os dados revelados pelo escândalo são estarrecedores, mas podem representar apenas o início de um debate do qual o Brasil não pode fugir mais, que diz respeito às riquezas perdidas pelo país em função dos crimes de sonegação e evasão fiscal.

De acordo com informações do jornalista Miguel do Rosário em seu blogue O Cafezinho, o Brasil encontra- se em quarto lugar no ranking dos países cujos cidadãos possuem mais dinheiro guardado ilegalmente em paraísos fiscais, com nada mais nada menos do que 1 trilhão de reais.

O Brasil é ainda o segundo país com maior taxa de evasão fiscal do mundo, tanto em termos percentuais quanto absolutos. Ao passo que a Rússia deixa de arrecadar o equivalente a 14,2% do Produto Interno Bruto (PIB) devido à evasão, no Brasil a taxa é de 13,4%. A Rússia assiste a uma evasão anual da ordem de 211 bilhões de dólares, frente a um total de 280 bilhões de dólares no Brasil, número inferior apenas ao verificado nos EUA, de 337 bilhões de dólares, mas que corresponde a meros 2,3% do PIB estadunidense.

Disposto a apreciar essa temática, o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) buscava em meados de março 2015 instalar uma CPI sobre o caso HSBC-Swissleaks no Congresso Nacional.

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