EUA impuseram restrições ao VLS, revela Jayme Boscov

DEPOIMENTO

Fernanda Soares e Redação

“Só nos restou recorrer a Rússia e Índia, e fomos bem atendidos”, relatou ao Jornal do SindCT o engenheiro brasileiro que atuou no programa espacial francês por 7 anos e no desenvolvimento do foguete SONDA 3, bem como do programa VLS.

Entre os engenheiros que mais se destacaram na história de realizações aeroespaciais do Brasil, Jayme Boscov é dono de uma trajetória profissional bastante singular.

Formou-se no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), em 1959, mas após rápida passagem por seu primeiro emprego, numa “pequena companhia de aviação comercial no Rio de Janeiro”, ganhou uma bolsa de estudos do governo francês.

Sua chegada à França, em 1960, dava início a uma carreira marcante, na qual não faltaram lances inusitados. Em pleno auge da “Guerra Fria”, foi contratado por uma empresa que participava do desenvolvimento do programa de mísseis balísticos internacionais. Depois de sete anos ali, a amizade com um colega de trabalho que se tornou suspeito de espionagem em favor da então URSS lhe trouxe dissabores: exigiram que Boscov assumisse a cidadania francesa, para provar sua fidelidade. Ele se recusou e foi transferido de setor, para a produção do supersônico Concorde.

Em 1969 regressou ao Brasil, passando a trabalhar no então Centro Tecnológico da Aeronáutica (CTA), no projeto do foguete SONDA, que daria origem à Missão Espacial Completa Brasileira (MECB) e ao programa de veículos lançadores de satélites (VLS), cuja direção ele viria a assumir em 1980. “Relutei em aceitar redigir este trabalho [as respostas às questões encaminhadas pela reportagem] já que me encontro afastado de qualquer atividade espacial desde que me aposentei e realizei um trabalho para a AEB em 1997-98, intitulado ‘Veículos Lançadores’, em nível internacional e nacional”, explica Boscov.

“É bom lembrar, também, que exerci a gerência do VLS somente até janeiro de 1992, quando então ela passou a ser exercida diretamente pelo diretor do CTA e posteriormente pelo diretor do IAE”. Jornal do SindCT - Tendo se formado no ITA, como foi o início da sua carreira na França? Boscov - Formado em 1959 em Engenharia Aeronáutica, iniciei minha vida profissional em uma pequena companhia de aviação comercial no Rio de Janeiro. Contemplado com uma bolsa de estudo do governo francês, parti para a França em 28 de julho de 1960. Estagiei durante seis meses nas Indústrias Mecânicas e Aeronáuticas.

Após o término da bolsa, por motivo alheio à minha vontade (acidente com um familiar) vi-me obrigado a permanecer na França, quando então passei a procurar emprego. Após seis longos meses de procura, sempre com recusa por eu ser estrangeiro, dado que todas as empresas aeronáuticas eram ligadas a programas militares, finalmente consegui empregar-me numa empresa que participava do nascente programa de desenvolvimento dos mísseis balísticos intercontinentais, menina dos olhos do então presidente general Charles De Gaulle, quando o mundo se encontrava no âmago da “Guerra Fria”.

Isto só foi possível porque a maior autoridade em termodinâmica de reatores da França esteve no ITA para um seminário com os professores; ele deu o aval para que eu fosse contratado, garantindo que o ITA era uma escola de engenharia de alto nível.

Mesmo assim fui confirmado como engenheiro somente após três meses de experiência. Já com sete anos participando do programa espacial, por suspeita de envolvimento em espionagem em prol da Rússia de um colega de trabalho com quem mantinha relação de amizade, fui intimado a assumir a nacionalidade francesa, o que naquele tempo significava renegar a minha própria nacionalidade, para permanecer neste trabalho.

Recusei-me e fui transferido para o programa de desenvolvimento do avião supersônico Concorde, onde permaneci até meu regresso ao Brasil em 1º de julho de 1969.

 

Jornal do SindCT - Como foi o convite para voltar ao Brasil para trabalhar no CTA? Boscov - Tudo começou com um primeiro contato com o já falecido colega de turma Claudio Uzeda, que trabalhou na mesma empresa na França, mas na área de desenvolvimento de reatores de aviões. Ele já havia retornado ao Brasil e estava empregado no CTA. Ele me informou que havia uma nascente atividade espacial com o desenvolvimento do foguete de sondagem mono-estágio SONDA 2. Em dezembro 1967, vim ao Brasil e mantive contato com o INPE e o CTA, onde fiquei sabendo que o passo seguinte era o desenvolvimento do foguete bi-estágio SONDA 3, que se coadunava com minha experiência profissional adquirida na França. Voltei para a França e, paralelamente ao meu trabalho no desenvolvimento do Concorde, elaborei um diagrama PERT com todos os eventos e suas dependências para o desenvolvimento do SONDA 3, atendendo às performances esperadas do futuro foguete de sondagem. Apresentei o diagrama PERT ao adido da Aeronáutica em Paris em 1968. Finalmente, aceite o programa para o desenvolvimento do SONDA 3 de acordo com o diagrama PERT, entreguei-o para uma comitiva da Aeronáutica que se encontrava em Paris. Isto feito, entrei em contato com entidades espaciais da França para que dois especialistas viessem para o CTA para participar dos estudos preliminares do SONDA 3. Retornei ao Brasil em 1º de julho de 1969, integrando- me ao restrito grupo de não mais que 25 pesquisadores de uma das seções do Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento (IPD) do CTA, seção esta que posteriormente se transformou no Instituto de Atividades Espaciais (IAE).

Jornal do SindCT - Quais foram os planos iniciais no Brasil?

Boscov - Durante todo o mês de agosto de 1969, realização dos estudos preliminares do foguete SONDA 3 com a participação dos especialistas franceses. Foram analisadas todas as áreas concernentes ao projeto: Estruturas, Aerodinâmica, Propulsão, Rede Elétrica, Trajetografia e Sistema de Segurança, finalizando com um documento englobando todos os estudos. A partir daí, controle rigoroso das atividades técnicas e de gerenciamento, sem dar espaço para “jeitinhos” e “gambiarras” tão difundidos em nossa cultura.

Jornal do SindCT - Qual era a motivação das pessoas na área espacial? Boscov - Entusiasmo! Dedicação! Inovação! Mentes abertas para uma nova atividade profissional fora das áreas convencionais. Pioneirismo! Eram apenas 25 pesquisadores para tratar de todas as áreas aqui mencionadas. A partir daí, contratações de engenheiros e técnicos, já que havia um programa com continuidade. Jornal do SindCT - Como foi a dinâmica de trabalho no CTA naquela época?

Boscov - Não gostaria de citar nomes, seriam muitos e muitos! Mas não posso deixar de citar aquele que foi o grande incentivador para a sedimentação das pesquisas e realizações no campo espacial no CTA: o saudoso tenente-brigadeiro do ar Paulo Victor da Silva. Eu particularmente tive uma rica experiência de trabalho com ele, desde que assumi meu posto de coordenador dos projetos de desenvolvimento de veículos lançadores, a partir de agosto de 1969. Ele não fazia nenhuma diferenciação entre militares e civis. O que contava para ele eram a competência e responsabilidade nas ações de trabalho. Foi uma época de realizações com apoio irrestrito às inovações. Foi uma época áurea! É bom lembrar também do desenvolvimento do avião Bandeirante, que deu origem à Embraer. A dinâmica era de muito trabalho, dedicação, esforço, entendimento e companheirismo de todos, civis e militares, era a mola mestre de todas as atividades.

Jornal do SindCT - Como foi concebida a MECB?

Boscov - Foi consequente dos resultados do desenvolvimento dos foguetes SONDA: S2, S3, S4, demonstrativos de competência e savoir- -faire, permitindo assim objetivar o desenvolvimento ambicioso de um Veículo Lançador de Satélites (VLS), bem mais complexo. A MECB era um programa de governo gerenciado pela Comissão Brasileira de Atividades Espaciais (COBAE) ligada ao Estado Maior das Forças Armadas (EMFA). Tinha como objetivo assegurar os recursos financeiros para o desenvolvimento dos três segmentos: o VLS e o Campo de Lançamentos de Alcântara, pelo CTA; e o Satélite de Coleta de Dados, pelo INPE, do Ministério da Ciência e Tecnologia.

Jornal do SindCT - Por que não prosseguimos no mesmo ritmo?

Boscov - Esta questão é bastante delicada, envolve a mudança do regime de exceção para o regime democrático. A partir de 1985, o programa espacial, que era estratégico, foi caminhando para uma perigosa situação de anacronismo. Deixou de ser prioritário no próprio CTA. Em meados de 1994, a Direção do CTA convocou uma reunião com todos os dirigentes do IAE, quando então fomos informados que toda a força de trabalho (drive force) do CTA era para atender como primeira prioridade às necessidades da Força Aérea Brasileira (FAB). Prioridade esta que não era o VLS, deixou também de ser de cunho governamental. Independentemente de qualquer conotação ideológica, deve-se reconhecer que durante o regime de exceção havia uma política espacial ao nível de Presidência, sem restrições financeiras. O programa de desenvolvimento do VLS já era de cunho internacional com intercâmbio com vários países (principalmente França, Alemanha, Estados Unidos) objetivando a formação de pessoal, aquisição de componentes, desenvolvimento de alguns subsistemas do VLS. Chegou a ficar nos holofotes do Departamento de Estado dos EUA, que impuseram restrições a qualquer fornecimento de materiais e serviços que pudessem ajudar o desenvolvimento do VLS; tanto nos EUA como na França, Alemanha e Inglaterra. Só nos restou recorrer à Rússia e Índia, e fomos bem atendidos. Infelizmente, diletantismo e anacronismo perduram até hoje no segmento VLS sob a responsabilidade da Agência Espacial Brasileira (AEB).

 

 

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