Argentina amplia investimentos e colhe êxitos no Programa Espacial

Antonio Biondi

Lançamento do satélite geoestacionário ArSat-1, primeiro da Argentina e da América Latina, comprova os acertos do programa espacial. Entre 2008 e 2013, investimento estatal saltou de US$ 100 milhões para US$ 1,2 bilhão anuais. No final de 2014, a Argentina lançou com sucesso seu primeiro satélite geoestacionário próprio.

O ArSat-1 foi colocado em órbita em 16 de outubro, afirmando-se não somente como o primeiro satélite geoestacionário feito pela Argentina, mas também o primeiro na América Latina.

A conquista representou mais um êxito do país vizinho na área, colhido com a ampliação de investimentos e priorização da soberania e desenvolvimento nacionais no setor aeroespacial. No livro El sector espacial argentino - Instituciones, empresas y desafíos, pode-se ter uma noção do aumento exponencial dos investimentos do país no setor espacial nos últimos anos. Em 2013, as dotações orçamentárias da Comissão Nacional de Atividades Espaciais (Conae) e da ArSat SA, empresa estatal do setor, ultrapassaram, somadas, a casa do 1 bilhão de dólares pela primeira vez.

A título de comparação, em 2014 o orçamento da Agência Espacial Brasileira (AEB) foi de cerca de 300 milhões de reais, o equivalente a 130 milhões de dólares pelo câmbio da época. Se o leitor considerar o tamanho do Produto Interno Bruto dos dois países, a diferença se torna ainda mais evidente: ao passo que o PIB do Brasil situava- -se acima de 2,2 trilhões de dólares em 2013, o da Argentina era de apenas 475 bilhões de dólares, segundo dados do Fundo Monetário Internacional.

O crescimento anual do montante investido pela Argentina na Conae e ArSat é impressionante. Entre 2005 e 2008, o valor sempre se encontrou abaixo de 100 milhões de dólares, grandeza ultrapassada pela primeira vez em 2009. Em 2010, o valor já salta para montante próximo a 500 milhões de dólares, marca superada no ano seguinte.

Em 2012 o orçamento das duas instituições experimenta novo salto, para a faixa de 700 milhões de dólares. E em 2013 chega a 1,2 bilhão de dólares.

 

Decisões estratégicas

O sucesso no lançamento do satélite ArSat-1 em outubro passado é resultado, contudo, não somente dos investimentos, mas antes de tudo de decisões estratégicas dos governos capitaneados por Néstor Kirchner e Cristina Kirchner.

Por exemplo: a decisão da Argentina de projetar e fabricar seu próprio satélite geoestacionário ganhou corpo em 2007, quando o governo decidiu estatizar a empresa NahuelSat, fundindo-a com a estatal ArSat S.A.

Desde sua criação, em 1991, a Conae já logrou a colocação em órbita de quatro satélites de observação da Terra desenhados e construídos na Argentina: SAC-A, SAC-B, SAC- -C e SAC-D/Aquarius. Atualmente, encontram-se em construção os satélites com característica de radares SAOCOM 1A e SAOCOM 1B, além do desenvolvimento dos satélites de estrutura segmentada da série SARE.

E, no âmbito regional, Brasil e Argentina trabalham juntos na missão intitulada SABIA Mar. Os programas espaciais do Brasil e Argentina começaram praticamente juntos, nos idos da década de 1960. Hoje, o Brasil eventualmente importa equipamentos argentinos, num cenário de intercâmbio entre os dois países.

Nos últimos anos, a Argentina investiu cerca de 200 milhões de dólares em seu Centro de Ensaios de Alta Tecnologia (CEATSA). Mas, antes da inauguração do CEATSA, as provas mais elaboradas dos equipamentos espaciais fabricados na Argentina se davam no Laboratório de Integração e Testes (LIT) do INPE.

O Plano Espacial Nacional argentino se encontra estruturado em diversos órgãos, que se inter-relacionam. A estrutura encontra- -se descentralizada por boa parte do país, com as principais bases em Córdoba (onde se localiza o Centro Espacial Teófilo Tabanera, coração do sistema), Buenos Aires, Mendoza e Bariloche.

Além disso, a Conae conta com escritórios em Roma, São Paulo, Los Angeles e Washington. Conforme destacado pelo site da Conae, o Plano Espacial conta ainda com a colaboração de diversos órgãos, universidades e empresas nacionais, como a Invap, principal fornecedora das missões satelitais, e a VENG, fornecedora central na área de acesso ao espaço.

As iniciativas da Argentina no setor contam com apoio da NASA e das agências espaciais de Itália, França, Canadá, China e Dinamarca, entre outros. O Brasil também continua contribuindo, especialmente por meio do INPE. No caso do ArSat-1, subsistemas importantes como a carga útil, o controle de atitude, o computador de bordo e o painel solar foram adquiridos de empresas estrangeiras.

 

Política de Estado

O Plano Espacial Nacional argentino teve sua primeira versão aprovada pelo Congresso Nacional em 1994 e trabalha com um horizonte de 11 anos. Considerado “política de Estado” em função de seus objetivos, conteúdo e continuidade, é revisado periodicamente — atualmente, encontra-se em vigor a revisão 2004-2015 do Plano. Uma faceta interessante do programa é a formação de quadros.

Em breve, o Centro Espacial Teófilo Tabanera passará a oferecer três novos cursos de mestrado no setor: Tecnologia Satelital, Instrumentos Satelitais e Desenvolvimento em Informática para Aplicação Espacial. O centro já conta com um mestrado em Aplicações Espaciais de Alerta e Resposta Imediata a Emergências e com os novos cursos pretende consolidar sua “oferta de formação superior especializada de alto nível acadêmico, orientada a satisfazer às necessidades concretas da atividade espacial no país e na região”.

A reportagem do Jornal do SindCT contatou a Conae e a estatal ArSat para entrevistas. Os órgãos argentinos se comprometeram a responder às perguntas enviadas, mas isso não havia acontecido até o fechamento desta edição.

 

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