Militância garantiu a reeleição de Dilma

SEGUNDO TURNO

Antonio Biondi

Certos analistas alegam que, como Aécio venceu no Sul, Sudeste e Centro- Oeste, e Dilma no Norte e Nordeste, o país está “dividido”. Mas Dilma saiuse vitoriosa em MG e RJ e obteve expressiva votação no RS e no ES No segundo turno da eleição para a Presidência da República mais acirrada desde 1989, realizado em 26 de outubro, Dilma Rousseff (PT) reelegeu-se ao conquistar 54,5 milhões de votos (51,64% dos votos válidos), contra 51 milhões de votos (48,36% dos votos válidos) obtidos por Aécio Neves (PSDB).

Os movimentos sociais e a militância dos partidos de esquerda saíram às ruas para dar um segundo mandato a Dilma e barrar o retorno dos tucanos ao governo central. A mobilização dos militantes de esquerda deu-se como reação ao apoio que Aécio recebeu dos setores mais conservadores da sociedade: o agronegócio; o Clube Militar saudoso da Ditadura; os grupos religiosos identificados com a homofobia e a negação dos direitos das mulheres; a mídia, à frente os grupos Globo e Abril; e, principalmente, o capital financeiro e a política recessiva neoliberal, personificados por Armínio Fraga (que o candidato do PSDB “nomeou” como provável ministro da Fazenda) e pelo ex-presidente FHC. Terminada a eleição, proclamado o resultado pelo Tribunal Superior Eleitoral, e mesmo após Aécio reconhecer a derrota e fazer os cumprimentos protocolares a Dilma, setores da oposição não se dão por satisfeitos e chegam a falar em impeachment da presidenta, iniciativa que no contexto atual tem indisfarçável fisionomia golpista.

O ódio aos apoiadores da candidatura petista e os preconceitos (contra os nordestinos, contra os pobres) manifestados por setores da oposição ao longo da campanha persistem, sinalizando que a disputa de projetos será ferrenha ao longo do segundo mandato de Dilma.

Sudeste = Nordeste

Certos analistas da mídia, como os ligados à TV Globo, alegam que, como Aécio venceu no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, e Dilma no Norte e Nordeste, o país está “dividido”. Mas Dilma sagrou-se amplamente vitoriosa em MG e RJ e obteve expressiva votação no RS e no ES.

A tese do Brasil “dividido”, que tenta questionar a legitimidade do mandato conquistado por Dilma, serve para bravatas no Facebook, mas é no mínimo tendenciosa. Pode-se demonstrar também que os votos obtidos por Dilma vieram de todo o país, pois foram quase idênticos os percentuais que ela conquistou no Sudeste e no Nordeste: respectivamente 36,5% e 37% da sua votação total. Em número absolutos, Dilma recebeu 19,9 milhões de votos nos Estados do Sudeste; e outros 20,2 milhões de votos nos Estados do Nordeste.

O Sul respondeu por 12,5%; o Norte, por 8,1%; o Centro- -Oeste, por 5,9%. Não fosse por essa votação espalhada por todo o Brasil, não teria vencido. Brasileiros de todos os pontos cardeais garantiram o segundo mandato dela, quarto consecutivo do PT.

O Brasil não está dividido, mas em disputa. Projetos políticos distintos se colocaram para o povo brasileiro: uns mais à esquerda, outros mais à direita, outros ainda ao “centro”. A polarização PT-PSDB, contudo, se reafirmou na disputa pela Presidência da República, com a sexta eleição consecutiva decidida entre ambos. Mais uma vez, a maioria do eleitorado deu seu aval ao projeto neodesenvolvimentista, voltado à criação de empregos, ao combate à pobreza, à soberania nacional e à integração latinoamericana.

Nos seus pronunciamentos após a reeleição, Dilma vem enfatizando sua disposição para o diálogo, bem como a necessidade de união dos brasileiros. Reiterou a importância de responder ao sentimento de mudança, representado, no seu entender, pela reforma política e pela melhoria da vida das pessoas e dos serviços públicos.

A presidente mencionou, ainda, a premência de avanços na economia e do combate à corrupção.

Governos estaduais

Na correlação de forças entre partidos e campos políticos, um fator importante são os governos estaduais, além da presença de cada legenda no Congresso Nacional.

Os quatro partidos mais fortes no tabuleiro dos Estados continuam a ser PMDB, PT, PSDB e PSB. O PMDB elegeu sete governadores (eram cinco): venceu no Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Sergipe, Alagoas, Rondônia e Tocantins. O PT não conseguiu reconduzir Agnelo Queiroz, no Distrito Federal, e Tarso Genro, no Rio Grande do Sul; reelegeu-se na Bahia e no Acre; retornou ao governo do Piauí e conquistou, pela primeira vez, os governos do Ceará e de Minas Gerais.

O PSDB caiu de oito para cinco governadores: manteve São Paulo, Paraná, Goiás e Pará; conquistou Mato Grosso do Sul; mas sofreu avassaladora derrota em Minas Gerais, reduto de Aécio. O PSB caiu de seis para três, elegendo, desta vez, os governadores de Pernambuco, da Paraíba (ambos reconduzidos) e do Distrito Federal. Congresso Nacional No Senado, PMDB, PT e PSDB seguem com as três maiores bancadas (19, 13 e 10 senadores), respondendo juntos por mais de 50% das cadeiras. Ao todo, as 81 vagas são distribuídas por 16 partidos. Na Câmara, as duas maiores legendas perderam espaço. O PT ainda tem a maior bancada, com 70 deputados federais (eram 88 em 2010), seguido pelo PMDB, com 66 (eram 79) e PSDB, com 54 (eram 53).

A maior vitória dos tucanos ocorreu em São Paulo, onde Geraldo Alckmin conseguiu reeleger- -se já no primeiro turno, apesar da desastrosa gestão do abastecimento de água, dos escândalos do Metrô e CPTM, do aumento vertiginoso da criminalidade.

O PSDB voltou a eleger a maior bancada da Assembleia Legislativa (Alesp), com 22 deputados, ao passo que o PT encolheu de 24 para 14. O DEM reelegeu seus oito, e a bancada governista aumentou de tamanho. Dos 70 candidatos com reduto eleitoral no Vale do Paraíba, Litoral Norte e região bragantina, três foram eleitos para a Alesp: Edmir Chedid (DEM), de Bragança Paulista, sexto mandato; Hélio Nishimoto (PSDB), de São José dos Campos (terceiro); e Padre Afonso Lobato (PV), de Taubaté (quarto).

Entre 52 candidatos à Câmara dos Deputados, dois elegeram-se: Eduardo Cury (PSDB, ex-prefeito de São José dos Campos) e o Missionário Flavinho (PSB, morador de São José dos Campos, nascido em Guaratinguetá).

 

Compartilhe
Share this

testando