“Tendência do INPE é entrar em decadência”, adverte Fernando de Mendonça

Entrevista

Fernanda Soares

Engenheiro eletrônico, PhD em Radiociências em Stanford, fundador e primeiro diretor do INPE e ex representante do Brasil na NASA, ele diz que não há reposição de pessoal no instituto e critica o CBERS Ele foi diretor científico do Grupo de Organização da Comissão Nacional de Atividades Espaciais (GOCNAE), criado em 1961 pelo presidente Jânio Quadros e considerado o embrião do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

Representou o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) junto à NASA, a agência espacial norte- -americana, posto que lhe permitiu manter contatos fundamentais, nos Estados Unidos, para o desenvolvimento do Programa Espacial Brasileiro e para a futura fundação do INPE. Tais credenciais fizeram do engenheiro eletrônico Fernando de Mendonça um dos fundadores do INPE — e seu primeiro diretor. Em 1977, após deixar o instituto, Mendonça foi diretor- executivo da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), até 1982.

Apaixonado por castelos medievais, esse PhD em Radiociências pela Universidade de Stanford construiu dois em São José dos Campos, e foi numa torre que recebeu a reportagem do Jornal do SindCT para esta entrevista. Aos 90 anos, Mendonça sustenta que o segredo da longevidade e juventude é nunca parar de trabalhar, nem de sonhar. “E tem que sonhar grande, porque o sonho pequeno e o sonho grande têm o mesmo preço, então não vamos perder tempo sonhando pequeno”.

O sr. foi um dos fundadores do INPE e veio a se tornar o primeiro diretor da instituição. Como começou sua história com a área espacial?

Quando eu terminei o ITA, meu trabalho era uma estação para recepção de sinais de satélite que ainda ia existir, não tinha programa espacial no mundo. A União Soviética, em 1952, declarou que ia colocar um satélite em órbita. Os americanos, ainda antes de criação da NASA, também anunciaram um programa para colocar um satélite em órbita. Então fiz contato com o projeto, que era da Marinha americana, e fiz a estação para coletar os sinais. Fui surpreendido pela União Soviética, que lançou o satélite Sputnik em 1957, antes de os americanos lançarem o Explorer 1, em 1948. Tive que readequar a estação para receber os sinais do Sputnik. Acabei me envolvendo com o assunto. Depois fui fazer doutoramento em Stanford e me envolvi com a NASA para realização de um trabalho que duraria em torno de dois anos. Por esse motivo fui indicado pelo professor Aldo Vieira da Rosa para formular um programa de pesquisas espaciais para o Brasil. O presidente Jânio Quadros criou o Grupo de Organização da Comissão Nacional de Atividades Espaciais (GOCNAE) e eu me tornei o representante do Brasil junto à NASA. Quando terminei o trabalho para a NASA, solicitei a doação do equipamento de pesquisa que utilizava e o pedido foi aceito. Na volta ao Brasil, ainda não havia nada pronto para o INPE. Tinha apenas a doação de um terreno do DCTA e um prédio para escritórios. Fiquei decepcionado porque eu tinha apenas uma kombi velha, um telefone que não funcionava, um cabo e um praça que eram os ajudantes do GOCNAE. Então fui obrigado a batalhar, junto ao Ministério do Planejamento na época, recursos para formatar o INPE.

Se ainda hoje, após 53 anos, o instituto sofre para resolver sua carência de recursos humanos, como foi reunir os primeiros técnicos e engenheiros para atuarem em atividades tão específicas como a área espacial no início da década de 1960?

Eu tive que montar o INPE com pesquisa a nível internacional, porque não existe ciência subdesenvolvida. Qualquer país, por mais subdesenvolvido que seja, se fizer ciência, tem que ser algo de fronteira, de desenvolvimento, de criatividade. Então visitei cerca de 10 universidades brasileiras e solicitei aos professores indicação dos melhores alunos que estivessem terminando seus cursos de engenharia. Todo ano eu contratava entre 50 e 60 formandos, eliminava metade depois de alguns meses, e contratava os melhores. Destes, os melhores eu enviava para fazer doutoramento com bolsas da NASA. A bolsa cobria os estudos e o transporte nos EUA, o restante era uma bolsa auxílio que eu enviava através do INPE. A cada mês de recebimento da bolsa, o aluno assinava uma nota promissória que seria paga no retorno. Para cada mês trabalhado no INPE, ele recebia o salário e o cancelamento de uma nota. Se quisesse sair do INPE, teria que pagar as notas promissórias. Dessa forma, eu garantia que o aluno que ficou quatro anos se especializando fora do país ficaria, no mínimo, quatro anos trabalhando no INPE. Esse sistema funcionou, só um funcionário saiu, tendo as notas pagas pela empresa que quis contratá-lo. Enquanto eu esperava esse pessoal se formar, eu precisava de mão de obra qualificada para atuar. Como não tinha muita verba disponível, procurei um programa estabelecido na Índia, de doutoramento na Inglaterra e EUA para 5 mil indianos por ano. De lá eu trouxe 26 famílias. Era um programa de dois anos que poderia ser renovado. Alguns ficaram até hoje. E há também filhos desses indianos trabalhando atualmente no INPE. 

Quais as principais dificuldades enfrentadas na época?

O INPE era subordinado ao Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq, mais tarde Conselho de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Os presidentes desse Conselho eram sempre ou um general ou professor de universidade sem base suficiente para desenvolver o plano de pesquisas que a gente idealizava. Mas o Brasil era mais simples. Um bom exemplo foi a base do sensoriamento remoto. Eu falei ao presidente do CNPq que precisaria de US$ 5 milhões para construir a base. Ele negou, pois não conseguia nem para o próprio CNPq uma verba tão alta. Solicitei permissão para falar diretamente com o ministro do Planejamento e recebi de imediato, pois ele não acreditou que o ministro pudesse conceder. Mas consegui convencer o ministro e realizar a construção da base.

E os principais projetos desenvolvidos?

O Brasil era um país pobre. Eu tinha que escolher programas científicos que dessem nascimento a tecnologias e serviços. Os programas estabelecidos eram modelados pela NASA, mas tinham aplicabilidade ao crescimento econômico do Brasil. Tínhamos o Projeto SACI, a educação via satélite, com 150 pessoas (50 estrangeiros especializados na área) e foi realizado no interior do Rio Grande do Norte, na época, a região mais pobre do Brasil. Ajudou a diminuir a taxa de evasão e repetência. Foi uma revolução. Outro projeto foi o levantamento de recursos naturais. O Brasil não tinha nem mapas adequados, então foi criado o projeto SERE, de sensoriamento remoto. Os projetos do INPE, hoje, são derivados desses programas.

Hoje, qual o principal problema que a instituição enfrenta?

O INPE é uma instituição de pesquisa, não de serviços. E está virando um instituto de serviços. É serviço sobre queimadas, desmatamento... O INPE era para ser um órgão de altíssimo nível em pesquisa científica.

Que futuro espera para o instituto?

Acho que a tendência do INPE é entrar em decadência. A mão de obra era muito qualificada. Esse pessoal se aposentou e a reposição não foi no mesmo nível. E os concursos públicos, normalmente, não admitem os elementos necessários para a função que se precisa. É muito difícil o concurso selecionar exatamente o que é necessário. Infelizmente, a qualidade do pesquisador do INPE tende a decair. Outro ponto é a falta de recursos, parecem altos, mas não são. Temos também, a meu ver, programas inúteis como o CBERS. O CBERS é um programa chinês e o chinês não nos dá acesso à tecnologia. O governo gasta mais com o CBERS do que com o orçamento anual do INPE. Isso não faz sentido pra mim.

Desde 2007 o governo já investiu mais de meio bilhão de reais para capitalizar a ACS. No mesmo período, investiu pouco mais de R$100 milhões no desenvolvimento do Veículo Lançador de Satélites (VLS). Como o sr. vê a criação da ACS? É um empreendimento viável economicamente?

Alcântara é um certificado de incompetência. Gastaram em Alcântara, somado ao VLS, quase US$ 500 milhões e continua na estaca zero. Houve aquele acidente com o VLS e o Brasil se associa com a Ucrânia, que está falida. A ACS não é economicamente favorável ao Brasil e não oferece transferência de tecnologia.

O governo criou também a Visiona, empresa integradora responsável pela aquisição do satélite geoestacionário SGDC. Só neste satélite o governo irá investir cerca de R$ 700 milhões. Enquanto isso, passados 53 anos, o INPE nunca desenvolveu seu próprio satélite geoestacionário. Como o sr. vê a criação da Visiona e o papel dela no setor espacial brasileiro?

É certo criar a empresa. Mas a primeira coisa que eu penso é: prepararam recursos humanos para isso? Os japoneses e os chineses enviaram várias pessoas para trabalharem nos EUA em empresas da área. Depois de três anos, voltavam com conhecimento necessário para desenvolver a tecnologia em seus países.

O INPE, assim como o DCTA, serviu como indutor da florescente indústria aeroespacial do país. Muitos ex-servidores destas instituições acabaram por criar suas próprias empresas e passaram a fornecer equipamentos e serviços de alto valor agregado e elevado nível tecnológico para os programas de satélites e foguetes do país. Na sua opinião, qual deveria ser a relação dessas empresas com os institutos públicos de pesquisa?

Não há o risco de essas empresas acabarem se apropriando da maioria dos projetos, esvaziando as atribuições do INPE e DCTA? Eu acho que não. Instituto de pesquisa não é indústria. Criar indústrias não esvazia as instituições, pelo contrário, as instituições podem crescer se houver mais indústrias no setor.

 

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