Prefeitura zera a fila de atendimento e internação de dependentes de drogas

DESAFIO É RESSOCIALIZAR AS PESSOAS

 

Shirley Marciano

Ação de equipe que reúne médicos, assistentes sociais e psicólogas tem sido eficiente ao convencer usuários de crack a fazer tratamento nas unidades públicas de saúde. Índice de desistências teria baixado para 35%. O crack (“pedra”), uma das formas da cocaína, é uma das drogas que mais tem recebido atenção das autoridades, por ter se tornado um grave problema de saúde pública.

 

Entre os danos à saúde física e psíquica que provoca nos seus usuários, apontados pela médica Andrea Domanico, encontram-se problemas respiratórios; perda de apetite; falta de sono e agitação motora, desnutrição, desidratação e gastrite; rachaduras nos lábios, cortes e queimaduras nos dedos das mão causados pelo uso do cachimbo para fumar a droga; paranóia, depressão, baixa estima; tuberculose, hepatites virais. Pode, eventualmente, levar à morte por parada cardíaca.

 

Evasão escolar, perda dos vínculos familiares, exclusão social são os danos sociais associados ao crack. Os dependentes ou “nóias” terminam por agregar- se em redutos, as “cracolândias”. Nestes locais, mesmo que concentrem número reduzido de usuários, costuma haver tráfico de drogas e também prostituição (como meio de arrecadar recursos para comprar as pedras de crack).

 

A Prefeitura de São José dos Campos vem tomando iniciativas para equacionar o problema, tendo como prioridade a ressocialização dos dependentes. “Um dos pontos principais para que seja alcançado algum objetivo é, em primeiro lugar, a conscientização dos jovens e adultos, de modo a nunca experimentarem nenhum tipo de droga. Porém, uma vez que o indivíduo já esteja viciado, seja no álcool, crack e/ou em outros, o que pode ser feito é um tratamento do dependente e de sua família, e reinseri-lo na sociedade por meio de cursos de aperfeiçoamento profissional e encaminhamento para um emprego.

 

É exatamente o que temos feito”, explica Sílvia Satto, secretária de Promoção da Cidadania, pasta que coordena o programa “VemSer” de ações antidrogas da Prefeitura. Sílvia Mansano, proprietária de uma empresa de eventos e de equipamentos, situada nas proximidades do Banhado, na região central de São José dos Campos, diz que convive pacificamente com os dependentes que ficam próximos ao seu estabelecimento.

 

“Já cheguei a dar bolachas e café para eles, e nunca fizeram nada de mal contra a gente, apesar de eu manter as portas trancadas o dia todo”, explica. Ela conta ainda que no local não existem mais tantos dependentes como há alguns anos, porque vizinhos colocaram câmera e isso acabou afastando-os, passando a se aglomerarem numa outra rua.

 

“Eram sempre as mesmas pessoas, mas com a retirada do pessoal do Pinheirinho, em 2012, passamos a ter frequentadores diferentes e um pouco hostis”, relembra. Rômulo Braga, que tem consultório de Psicopedagogia nesta mesma rua, tem entendimento diferente. A seu ver os dependentes deveriam sair da região imediatamente, pois ele os entende como ameaça em potencial a todos. “Para mim, alguns vizinhos os tratam com caridade ou bondade por medo. É como quem tem Síndrome de Estocolmo, que se afeiçoa pelo seu sequestrador”.

 

A secretária de Promoção da Cidadania relata que os agentes de saúde estão sendo preparados para que atendam sem qualquer preconceito os dependentes que estejam sob os efeitos da droga. De acordo com ela, isto tem aumentado o número de pessoas que desejam se internar voluntariamente.

 

A Prefeitura não trabalha com a internação compulsória, aquela sem o consentimento do dependente, rejeitada por muitos especialistas e por grupos de direitos humanos. Caso o fizesse, explica Sílvia Satto, o índice de desistência, que já é naturalmente alto, aumentaria ainda mais.

 

“Hoje, há uma equipe multidisciplinar que vai às cracolândias. Assim, um médico presta um tratamento básico na rua mesmo e as assistentes sociais e psicólogas, que são treinadas para esse trabalho, conversam com os usuários com intuito de convencê-los a ir fazer tratamento nas unidades da Prefeitura e conveniadas.

 

Essa ação reduziu o número de desistências de 50% para 35%”. Ela garante que não há uma pessoa sequer na fila de espera na cidade, havendo vagas para todos que precisarem. A reportagem do Jornal do SindCT entrou em contato com a unidade SAMA (Serviço Ambulatorial Especializado no Tratamento da Dependência Química em Mulheres e Adolescentes) e com a UPA-Saúde Mental, nas quais constatou que uma internação feminina ocorre no mesmo dia e a masculina é de no máximo um dia de espera. Em ambos os casos o atendimento preliminar é imediato.

 

Após ou paralelamente ao tratamento, há investimento em cursos para reinserção dessas pessoas no mercado de trabalho, como forma de ressocializá-las. Ainda de acordo com a Prefeitura, há hoje um forte trabalho de prevenção nas escolas, com o intuito de que digam “não às drogas”, como ressalta a secretária. Outra frente de combate ao uso de entorpecentes são ações que visam coibir a comercialização ilegal de drogas lícitas, como álcool e medicamentos controlados; garantir segurança preventiva e a ocupação de espaços públicos, como formas de prevenção ao uso e abuso de drogas. A Prefeitura diz que estabeleceu parcerias com a Polícia Civil e Polícia Militar para que trabalhem de forma integrada.

 

Onde solicitar ajuda

CAPS/AD - Centro de Atenção Psicossocial Álcool

e Drogas (atendimento exclusivo para homens), na Rua Sebastião Humel, 785 (Centro). Telefones: (12) 3913-5519 / (12) 3913-5198

SAMA, na Rua Santa Clara, 873 (Vila Addy Ana). Tel.: (12) 3944-5450

UPA Saúde Mental (24 horas). Pronto atendimento para urgências e emergências em saúde mental, na Rua Pituba, 100 (Jardim Satélite). Tel.: (12) 3931-4211 / (12) 3931-9437

Em todos esses locais o atendimento é inteiramente gratuito.

 

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