AEB enterra “Itasat” após gastar R$ 15 milhões no projeto

UM CASO TÍPICO DE DESCARACTERIZAÇÃO

Diretoria do SindCT

Sucesso dos satélites de pequeno porte não esconde ineficiência e descaso da Agência Espacial Brasileira na condução de parceria para fabricar um microssatélite com ITA, INPE, UFRN e mais quatro instituições brasileiras e uma alemã. A edição nº 219 da revista Pesquisa Fapesp (maio/2014) traz como matéria de capa uma interessante reportagem sobre os nanossatélites brasileiros.

 

Também conhecidos como cubesats, os nanossatélites são pequenos satélites artificiais na forma de cubo, com 10 cm de aresta (largura, altura e profundidade), pesando cerca de um quilo. Foram inventados em 1999 por dois professores de universidades americanas (Robert Twiggs, da Universidade de Stanford, e Jordi Puig-Suari, da Politécnica da Califórnia), tornando- se uma ferramenta educacional capaz de coletar dados espaciais a custos relativamente baratos quando comparados aos custos de satélites convencionais.

 

Desde então, cerca de 130 nanossatélites já foram colocados em órbita no mundo, sendo 65 deles em 2013. No Brasil, o programa de construção de satélites de pequeno porte teve início em 2003, por meio de técnicos do INPE, com apoio da Agência Espacial Brasileira (AEB). O primeiro nanossatélite brasileiro colocado em órbita foi o NanoSatC-BR1, desenvolvido pelo Centro Regional Sul do INPE em cooperação com a Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Ele foi lançado por um foguete russo em 19 de junho e desde então seus sinais vêm sendo captados por radioamadores em vários pontos do país.

 

Sua principal missão é o estudo de distúrbios na magnetosfera, principalmente nas regiões da chamada Anomalia Magnética do Atlântico Sul. Além do NanoSatC-BR1, há outros nanossatélites em desenvolvimento com o apoio da AEB, como Serpens, AESP-14 e Conasat. Mas engana-se quem pensa que a atuação da AEB — em especial do seu presidente, José Raimundo Coelho — no programa de satélites de pequeno porte contabiliza apenas sucessos. Há pelo menos um estrondoso fracasso.

 

Um exemplo disso é o que vem ocorrendo com o programa Itasat, de construção de um microssatélite (portanto, de maior porte que os nanossatélites), que tem o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), de São José dos Campos, como órgão executor e o INPE como provedor de assessoria técnica.

Especialistas

O Itasat é um projeto universitário e conta ainda com a participação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Escola de Engenharia de São Carlos (EESC-USP), Universidade Estadual de Londrina (UEL), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade de Brasília (UNB), e da Technical University of Berlin. Segundo a AEB, o Itasat tem como missão principal “a formação de especialistas na área de engenharia aeroespacial, com o desenvolvimento de novas tecnologias para o setor”. Para se ter uma ideia do tamanho do projeto, até 2009 o Itasat já havia envolvido em seu desenvolvimento 32 alunos de graduação, 23 de mestrado e cinco de doutorado.

 

O Itasat teve início em 2005 com a ideia de lançar- -se um satélite universitário que tivesse como carga útil principal um sistema experimental digital de coleta de dados que vinha sendo desenvolvido pela UFRN em conjunto com o Centro Regional do Nordeste (CRN), do INPE. O ITA seria o responsável pelos seguintes subsistemas: estrutura, controle térmico, suprimento de energia, controle de altitude e computador de bordo. Outras quatro cargas úteis secundárias estavam previstas: a) um estimador de posicionamento do satélite em desenvolvimento pela UEL; b) um teste de tubo de calor em desenvolvimento no INPE; c) um experimento de controle térmico do ITA; e d) um experimento de comunicação entre satélites da Universidade Técnica de Berlim.

 

Entretanto, o que era para ser um projeto de microssatélite de cerca de 80 kg, com dimensões de 60x60x60 cm, após várias revisões de projeto, longos atrasos de cronograma e uma expressiva soma de recursos públicos investida, aos poucos foi tendo seu escopo reduzido, a ponto de se transformar em um nanossatélite de dimensões 10 x 22 x 34 cm e cerca de seis quilos.

 

Pior: o que antes estava previsto para ser desenvolvido por alunos ou empresas nacionais agora será adquirido pronto, de “prateleira”, no exterior, para que seja montado como um lego, no país. Com esta decisão, a AEB enterra de vez um dos objetivos centrais do programa que era o desenvolvimento no país de novas tecnologias para o setor. Resumindo: o Itasat que em 2005 foi concebido para ter 80 kg e carregar cinco cargas úteis, aos poucos foi sendo reduzido até chegar em 2014 a um satélite de 6 kg. Com isso, após nove anos de projeto e depois de gastar cerca de R$ 15 milhões, a AEB finalmente decide que irá lançar não um microssatélite, mas um cubesat, adquirindo-o pronto no exterior (será apenas montado no país), ao preço de R$ 1,7 milhão. É ou não é um desrespeito aos estudantes e às instituições envolvidas, bem como ao uso eficiente dos recursos públicos? Com a palavra o sr. José Raimundo Coelho, presidente da AEB.

 

 

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