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ALCÂNTARA CYCLONE SPACE (ACS)

Crise na Ucrânia pode afetar parceria com Brasil

 

Instabilidade na Ucrânia e eventual guerra civil ou envolvimento em conflito armado com a Rússia lançam dúvidas sobre a ACS, “jointventure” formada com a finalidade de comercializar lançamentos de satélites comerciais

 

Da redação

Já sabemos que, em assuntos relativos ao setor aeroespacial, acontecimentos em distantes locais do planeta podem repercutir fortemente no Brasil.

Foi assim com o fracasso do lançamento do foguete “Longa Marcha” 4B, em dezembro de 2013, na China, impactando negativamente o programa CBERS.

Agora é a vez da Ucrânia: a crise financeira e política que vem estremecendo aquele país da ex-União Soviética desde fins do ano passado — e que resultou em conflitos armados nas ruas da capital Kiev e na deposição do presidente Yanukovich — pode afetar uma parceria comercial que tem implicações no Programa Espacial Brasileiro (PEB).

Brasil e Ucrânia são sócios na Alcântara Cyclone Space (ACS), uma joint- -venture binacional formada com a finalidade de comerciar lançamentos de satélites comerciais.

Essa parceria sempre foi muito controvertida, por implicar investimentos públicos brasileiros numa empreitada duvidosa e porque o Brasil abre mão de sua soberania na base de lançamentos de Alcântara: a Ucrânia tem absoluto controle da área.

A instabilidade política na Ucrânia, que pode desembocar numa eventual guerra civil ou em conflito armado com a Rússia, e a fragilidade financeira do país, que acaba de obter um empréstimo de emergência do Fundo Monetário Internacional (FMI), que pode chegar a US$ 18 bilhões, lançam dúvidas sobre a viabilidade prática da ACS.

Desenrolar da crise

Por possuir indústrias, rica agricultura (é um dos maiores exportadores de grãos do mundo), vasto território e população superior a 40 milhões de habitantes, a Ucrânia era o segundo país mais importante da antiga União Soviética, da qual fez parte por quase setenta anos (de 1919 a 1991).

A crise atual está relacionada à disputa travada entre a União Europeia, disposta a atrair o país para o bloco, e a Rússia, que sempre exerceu grande influência sobre a Ucrânia.

Em novembro de 2013, o presidente Viktor Yanukovich desistiu de assinar um acordo de livre-comércio com a União Europeia.

Um dos motivos da desistência teria sido a pressão de Moscou, que ameaçou cortar o fornecimento de gás e tomar medidas protecionistas contra o acesso de produtos ucranianos ao seu mercado. No mês seguinte, o governo ucraniano assinou um novo acordo com a Rússia para retirar as barreiras comerciais entre os dois países.

Ato contínuo, a Rússia investiu US$ 15 bilhões na Ucrânia. Contudo, a população da porção ocidental do país, favorável à aproximação com os europeus, iniciou uma onda de protestos.

O auge da violência se deu em fevereiro de 2014, com dezenas de mortos, policiais e opositores, muitos dos quais usaram armas de fogo. Ainda sob fortes protestos, Yanukovich assinou um acordo com líderes da oposição, determinando a realização de eleições antecipadas.

Após a assinatura do acordo, o presidente teria se refugiado em local desconhecido. Os deputados votaram então pela destituição de Yanukovich por abandono do cargo e marcaram eleições para 25 de maio.

O presidente deposto reapareceu na Rússia, onde declarou não reconhecer a legitimidade do governo interino.

Neonazistas

Várias organizações políticas atuaram nas mobilizações contra Yanukovich, entre elas grupos neonazistas.

A formação política conhecida como “Pravy Sektor” (Setor Direita) congrega vários grupos ultranacionalistas (fascistas ou neonazistas), incluindo o “Svoboda” (Liberdade), “Patriotas da Ucrânia” e outros.

Todos são visceralmente antijudeus e antirrussos.

Por outro lado, na região autônoma da Crimeia, de maioria russa, as manifestações favoráveis à Rússia se intensificaram.

Um referendo realizado em 17 de março aprovou com quase 97% dos votos a adesão da região à Federação Russa, imediatamente aceita pelo presidente russo, Vladimir Putin.

No dia 18, após discurso inflamado no qual disse que a Crimeia “sempre foi e sempre será parte da Rússia” e reconheceu os direitos da minoria tártara ucraniana, Putin assinou um decreto reconhecendo o resultado do referendo e incorporando a Crimeia.

Tropas russas regulares ou descaracterizadas passaram a expulsar os seus congêneres ucranianos das bases militares da Ucrânia na Crimeia.

O referendo, porém, não foi reconhecido nem pela Ucrânia, cujo governo interino o chamou de “farsa”, nem pela maior parte dos países ocidentais.

Os EUA e a União Europeia adotaram sanções contra a Rússia.

Alguns grandes empresários russos estão proibidos de viajar aos EUA e à Europa, e seus bens nesses países foram “congelados”.

A Rússia retaliou, determinando sanções contra parlamentares norte-americanos e assessores do presidente Barack Obama.

Parceria sob ameaça Alheios à crise, a ACS e o Instituto Von Karman (Bélgica) assinaram em janeiro deste ano um contrato de serviços de lançamento.

Assinado pelo diretor geral ucraniano da ACS, Oleksandr Serdyuk, e pelo diretor do Instituto Von Karman, Jean Muylaet, o contrato prevê o lançamento do Projeto QB50, co-financiado pela Comissão Europeia.

Enquanto prossegue a crise na Ucrânia, no Brasil as dúvidas crescem:

1) O governo brasileiro já investiu muito dinheiro na binacional Alcântara Cyclone Space, que agora possui futuro incerto. A Ucrânia, que precisou socorrer- se com o FMI, terá verba disponível para continuar investindo na ACS?

2) Mais de 100 empresas ucranianas estão participando do projeto Cyclone-4. Diante da crise na Ucrânia, quantas delas estarão em condição de continuar?

3) O Brasil continuará aplicando bilhões de reais numa binacional (com um país em crise) que não trará conhecimento tecnológico, nem retorno do dinheiro investido (muito menos lucro), em detrimento do seu próprio programa espacial?

 

Procurados pelo Jornal do SindCT, Agência Espacial Brasileira, Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, ACS e Embaixada da Ucrânia recusaram-se a comentar o assunto.

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