Vida e Trabalho

MIGRANTE VOADOR

A Europa “afundava”e Zé Kovács deixou a Hungria. Sorte da aviação brasileira

 

Radicado no Brasil há quase 70 anos, projetista de aeronaves conhecido mundialmente, ainda trabalhando aos 88 anos, Joseph Kovács recebeu o Jornal do SindCT para contar sua história e como projetou (só ou em equipe) 57 aviões e planadores

 

 

Fernanda Soares

 

Kovács József Gábor foi o nome que ganhou ao nascer, em 1926, na distante Hungria. Ao chegar ao Brasil em 1948, tornou-se Joseph Kovács, mas logo receberia o apelido de “Zé Kovács”.

Hoje mundialmente conhecido como projetista de aeronaves, ainda trabalhando aos 88 anos, Zé Kovács recebeu o Jornal do SindCT para conversar sobre sua vida e sobre alguns dos 57 aviões e planadores que ele projetou ou ajudou a projetar.

“Exageradamente apaixonado por aviação”, como ele mesmo se define, nunca se imaginou trabalhando em outra área.

Desde criança praticava aeromodelismo e aguardava, ansiosamente, completar 16 anos para obter permissão para pilotar. Kovács veio para o Brasil, onde chegou após diversas peripécias, porque não conseguia enxergar na Europa uma perspectiva para a aviação no período pós-guerra. “Ficar na Europa naquele tempo era como ficar num navio afundando”, diz ele.

Ao chegar, foi trabalhar em São Paulo, no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), na seção de aeronáutica.

Foi no IPT que projetou o primeiro planador popular do Brasil, conhecido como Periquito, já em 1949.

Com a instalação do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) em São José dos Campos e a criação do Centro Tenológico Aeroespacial, CTA (hoje Departamento de Ciência e Tecnologia da Aeronáutica, DCTA), o imigrante recém- -chegado viu ali o futuro da aviação: “Tudo que seria importante para avião, viria para cá”. Estava certo.

Tanto que também se mudou para a cidade. Kovács chegou em São José dos Campos em 1951, “quando a rodovia Presidente Dutra ainda possuía apenas uma pista”, ele gosta de ressaltar.

No CTA, foi o braço direito de Henrich Focke (fundador da fábrica de aviões Focke Wulf Flugzeugbau Gmb).

Durante dez anos, trabalharam com uma pequena equipe no projeto do Convertiplano, uma aeronave que seria capaz de decolar na posição vertical, como um helicóptero.

O repasse de verbas para o projeto começou a sofrer atrasos e o governo federal acabou desistindo do Convertiplano, um projeto que consumiu recursos avaliados em cerca de US$ 8 milhões.

Neiva e Embraer

“Focke, com Kovács e equipe, só não fizeram no Brasil o primeiro avião de decolagem vertical do mundo, 30 anos antes dos EUA, porque a Inglaterra roeu a corda e não forneceu a turbina prometida para o Convertiplano — avião com duas hélices na cauda e duas nas asas, que na decolagem giravam na horizontal, como a do helicóptero, e lá em cima mudavam para a vertical”, relatou José Roberto de Alencar em reportagem de capa da Gazeta Mercantil intitulada “Zé Kovács, o fazedor de aviões” (25/3/1998).

Em 1960, Kovács passou a trabalhar na Sociedade Construtura Aeronáutica Neiva, sediada em Botucatu.

Devido à dificuldade de se encontrarem profissionais para trabalhar naquela cidade, ele permaneceu em São José dos Campos, chefiando a divisão de projetos. Na Neiva, projetou as aeronaves T-25 Universal e Regente.

A T-25 Universal é utilizada até os dias de hoje para aulas de pilotagem.

“Fui num evento e havia vários brigadeiros. Todos eles aprenderam a pilotar num T-25. Quando souberam que eu havia projetado, todos quiseram tirar foto comigo”, conta.

Para onde ia a inovação na aviação, ia também nosso projetista. Por isso, em 1973, ele começa a trabalhar na Embraer, onde foi responsável pelo projeto e desenvolvimento do EMB- 312, conhecido como Tucano.

No início dos 17 anos em que atuaria na Embraer, Kovács apresentou à empresa um projeto de aeronave tão inovador que só foi aceito após 16 anos, às vésperas de sua aposentadoria, que ocorreu em 1990.

Há alguns anos, começou a escrever sobre aviação e já possui 427 páginas digitadas.

Também é um possuidor de conhecimentos de tipo enciclopédico.

Começou a anotar, em 1963, todos os acontecimentos importantes, diariamente.

E guarda todos os volumes desses diários...

Atualmente ele atua como consultor e tem contribuído com a Novaer Craft no projeto e desenvolvimento do T-CX.

 

 

A aeronave da Novaer Craft terá duas categorias: a versão treinador e a versão utilitária.

É uma iniciativa pioneira por se tratar de uma aeronave projetada e produzida no Brasil com estruturas primárias e secundárias inteiramente em fibra de carbono, o material compósito mais avançado para produção aeronáutica.

Mais uma criação que conta com o toque de Zé Kovács.

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