Brasil - III

GOLPE NUNCA MAIS

São José das Greves

 

Apesar da repressão policial e até do uso de tropas da Aeronáutica, os trabalhadores de São José dos Campos realizaram diversos e fortes movimentos paredistas entre 1979 e 1985

 

Fernanda Soares

Sob a vigilância do regime militar, a sociedade tentava se articular da melhor forma possível.

O Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região, o maior do Vale do Paraíba, era comandado por José Antônio Domingues Sobrinho. Ary Russo, que já havia sido preso e torturado por sua participação no movimento estudantil em Belo Horizonte, chegou em São José dos Campos e começou a trabalhar na Ericksson.

Lá, começou a sindicalizar seus companheiros, até que conseguiu montar uma chapa de oposição e vencer as eleições no Sindicato, derrubando o que ele chama de “25 anos de peleguismo”.

Conquistado por lideranças combativas, o Sindicato dos Metalúrgicos organizou um grande comando de greve e, em 1979, conseguiu paralisar as fábricas da cidade por uma semana.

José Dias Campos, ex- -motorista da Viação São Bento que se tornaria presidente do Sindicato dos Condutores, conta que, dentre tantas mobilizações das décadas de 1970 e 1980, por melhores condições de trabalho e contra o aumento do custo de vida, a categoria realizou “uma greve pelo direito de ir ao banheiro e não pagar pelos assaltos aos veículos das empresas em que trabalhávamos”. Por conta disso, relata ele, “sofremos intervenção no Sindicato”.

Na época, o Sindicato dos Condutores foi um dos primeiros do Vale do Paraíba a sofrer intervenção direta do Ministério do Trabalho, com todos os membros da diretoria afastados.

Em 1982, a Aeronáutica mobilizou seus contingentes de infantaria para reprimir uma greve realizada na Embraer.

Mil soldados armados de fuzis se posicionaram nos portões da empresa. Mesmo temendo a repressão, os trabalhadores entraram na fábrica, bateram os cartões, e se dirigiram de volta à entrada, para participar da mobilização.

Na GM: 1982 e 1985 No mesmo ano, a General Motors (GM) demitiu cerca de 600 funcionários numa terça-feira e, dois dias depois, convocou os trabalhadores que permaneceram para fazer hora-extra no sábado.

O Sindicato dos Metalúrgicos convocou, então, uma assembleia em frente à GM, com a presença maciça dos trabalhadores do primeiro turno. Após a assembleia, os dirigentes se reuniram uma padaria do bairro Vila Industrial. “Foi aí que começou o processo que me enquadrou na Lei de Segurança Nacional”, conta o sindicalista Russo.

Enquanto permaneceram na padaria, um jornalista conversou com eles e perguntou o que o sindicato faria a partir de então.

Russo respondeu: “Nossa grande preocupação é que já temos 25 mil desempregados na cidade e não queremos ver aqui o que tem acontecido em regiões de São Paulo e do Nordeste, que é o saque aos mercados”. No dia seguinte, o jornal da região estampava a manchete: “Russo apoia saques a mercados”.

Em 1985, a GM viveu uma grande greve, talvez a mais dura de que se tenha registro. A maior reivindicação era a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais. A greve era pacífica e a adesão dos trabalhadores quase total.

Uma passeata da GM até o centro da cidade reuniu 10 mil trabalhadores.

Quando a empresa se deu conta do tamanho da mobilização, perseguições começaram e 93 funcionários foram demitidos. Eram cipeiros, membros de comissão de fábrica e sindicalistas.

 

“Lista negra”

José Luiz Gonçalves, ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, relata o autoritarismo da GM: “O comando de segurança da empresa era totalmente militarizado, não podíamos entrar na fábrica com qualquer tipo de jornal. Mesmo assim, fazíamos isso de forma clandestina”.

João Silvério, que começou a trabalhar na GM em 1969, foi um dos cortados. “Fui demitido e nunca mais consegui arrumar emprego. Meu nome constava numa ‘lista negra’ e, até hoje, com 70 anos, trabalho como pedreiro para me sustentar”.

Após as demissões, uma assembleia foi realizada e os trabalhadores decidiram que ninguém mais sairia da fábrica até que a situação dos demitidos fosse resolvida.

Depois de 15 dias de greve, a direção da empresa começou a infiltrar policiais e pessoas de empresas de segurança para tentar desmanchar o movimento. Mais de dois mil policiais armados foram para a porta da GM, com apoio de helicópteros e cachorros, com a intenção de desocupar a fábrica.

Por parte dos trabalhadores, houve ameaças de incendiar carros, caso a polícia invadisse a fábrica. Após muita negociação, a PM se retirou e os trabalhadores decidiram encerrar a greve em assembleia. A greve terminou em 27 de abril, mas a GM só retomou as atividades no dia 9 de maio.

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