Ciência, Tecnologia & Inovação

REFORMA MINISTERIAL

Sai Raupp, entra Campolina. Mais do mesmo?

Ao assumir a pasta, Clélio Campolina afirma que vai dar continuidade à gestão de Marco A. Raupp. Mas a SBPC critica Dilma por trocar ministros a nove meses do final do mandato

 

Shirley Marciano e Pedro Pomar

 

Depois de tantos boatos de que o ministro Marco Antonio Raupp deixaria a pasta, até mesmo para ser substituído por algum representante do insípido PSD de Gilberto Kassab, a notícia da nomeação de Clélio Campolina Diniz, reitor da Universidade de Minas Gerais (UFMG), como novo ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, em 17 de março, surpreendeu por sua origem e por não possuir filiação partidária.

 

Raupp, por sua vez, sempre foi ligado ao PMDB. Campolina é engenheiro mecânico e possui mestrado e doutorado em economia pela Unicamp. Presidiu o Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BHTEC) e a Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig).

 

Deixou a Reitoria da UFMG no final de seu mandato (iniciado em 2010), que ocorreu no dia seguinte à posse no governo.

 

A escolha da presidenta Dilma Rousseff teria motivações políticas, ou eleitorais, que estariam relacionadas à candidatura de Fernando Pimentel (PT) ao governo de Minas Gerais.

 

A presença de Campolina no ministério somaria forças para Pimentel. Contudo, o novo ministro talvez não disponha do mesmo trânsito na comunidade científica que seu antecessor.

 

Raupp era bem relacionado no meio, por haver dirigido importantes órgãos públicos — INPE, Agência Espacial Brasileira — bem como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Entendia-se bem com o maior parceiro do Brasil na área espacial: “Raupp, na China, junto aos técnicos e engenheiros de lá, comportava-se com se estivesse em casa.

 

Ele é muito bem recebido pelos chineses”, observou a jornalista Tânia Caliari, que cobriu o lançamento do satélite CBERS-3 em 2013. A troca no MCTI foi duramente criticada por Helena Nader, presidenta da SBPC. Na sua opinião, a comunidade científica está “decepcionada e surpreendida” com a queda do ministro.

 

A saída de Raupp e sua equipe, num ano atípico (com Copa do Mundo e eleições gerais), pode atrapalhar o andamento dos programas da pasta, diz Helena, já que o novo ministro não está inteirado de todos eles. “Essa é uma mudança dramática”, acredita. Ela não questiona os méritos de Campolina (http://goo.gl/8J1ccT). Dever cumprido “Estou certo de ter cumprido o meu dever, tanto na perspectiva pessoal, como cientista e cidadão, quanto institucional”, disse Raupp ao despedir- -se do cargo.

 

Entre os destaques da sua gestão, elencou editais lançados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para a infraestrutura de pesquisa e universal, que tiveram valores recordes nos últimos anos, e um novo edital para o programa RHAE, que aloca jovens pesquisadores nas empresas. Outro avanço teria sido a continuidade do programa Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT). “Em 2013 o orçamento executado pelo CNPq, que é responsável por esses programas, atingiu pela primeira vez a casa dos R$ 3 bilhões, o maior da história do CNPq”, comentou.

 

De acordo com o MCTI, ele ressaltou também os investimentos realizados no âmbito da Finep, que contratou R$ 6,7 bilhões em operações de crédito a empresas consideradas inovadoras. Outros R$ 11 bilhões estão em fase de contratação (http://goo.gl/sGf4E9). Campolina, por seu turno, foi orientado a fazer o discurso da continuidade. “Quero dar continuidade ao trabalho que está sendo feito e ampliá-lo”, declarou, segundo o site da Finep. “Essa é a delegação que recebi da Presidência da República, para colocar o Brasil no padrão das fronteiras científicas e tecnológicas mundiais dentro de médio prazo”.

 

Ele anunciou que pretende iniciar seu mandato com uma ampla consulta, que inclui a equipe do MCTI, a comunidade científica (inclusive a SBPC), o “conjunto dos reitores brasileiros e outras pessoas que militam nas instituições de pesquisa”. Nem Raupp, nem Campolina mencionaram o setor aeroespacial nos seus respectivos discursos.

 

Produtivismo? Em reportagem de Maurício Tuffani, Campolina define sua própria formação como “heterodoxa, estruturalista, cepalina e marxista” (http:// goo.gl/0ZgpbL). Contudo, uma avaliação da sua trajetória recente sugere que as concepções e as ênfases de política científica defendidas pelo ministro são de matriz neoliberal, muito próximas das esposadas por seu antecessor.

 

Campolina foi um dos expositores do Seminário “Internacionalização das Universidades Federais”, realizado em março de 2013. Entre os problemas que ele enxerga nas universidades públicas estão os “entraves burocráticos” e a “baixa integração das instituições e comunidades científicas com as atividades produtivas de bens e serviços”.

 

Tal crítica coincide com a visão daquela parcela da comunidade científica que defende, em maior ou menor grau, a privatização das instituições públicas de ensino superior e de pesquisa. As soluções apontadas por ele para que as universidades alcancem “internacionalização com excelência” são as mesmas praticadas pelos setores que controlam a Coordenação de Aperfeiçoamento de Ensino Superior (Capes): “reestruturação das carreiras docente e de técnicos e administrativos”; “autonomia para contratações, importações e compras”; “implantação da avaliação institucional internacional”. Com uma aparente novidade: “Política de captação de ‘cérebros’ estrangeiros: professores, pesquisadores e alunos” (http:// goo.gl/zUc8AY).

 

“Estamos em uma sociedade capitalista, onde o agente inovador é predominantemente a empresa privada. Precisamos buscar formas e meios de estimular as empresas a ampliar seus investimentos em ciência e tecnologia, e, em especial, as empresas estrangeiras a internalizarem seus esforços em pesquisa e inovação com o foco no desenvolvimento de novas tecnologias importantes para o Brasil”, discursou Campolina ao tomar posse no MCTI.

 

Pelo visto, não há que esperar grandes mudanças no ministério.

Compartilhe
Share this

testando