Esquecimentos que aparecem com a idade

 

João Batista

Alves de Oliveira*

 

A Doença de Alzheimer tornou-se muito comentada na mídia. Mas não há razão para maiores preocupações diante de esquecimentos, antes dos 60 anos. Depois dessa idade, recomenda-se avaliação médica criteriosa.

 

Todos nós nos esquecemos de várias coisas e de forma repetida em várias etapas da vida, sem que isso possa significar algo grave (e nem chega mesmo a nos preocupar). Porém, a partir de certa idade, especialmente 60 anos, talvez isso mereça uma atenção especial. Graças à força dos meios de comunicação, à difusão de informações pela Internet, às campanhas de saúde etc.

 

A Doença de Alzheimer (ou Mal de Alzheimer) passou a ser um temor das pessoas, as quais se desesperam ao menor esquecimento ou ato falho. A finalidade deste artigo é mostrar que não há razão para preocupações excessivas e infundadas diante de esquecimentos antes dos 60 anos, e que a partir daí deve haver uma avaliação médica criteriosa, para diferenciar os casos de Alzheimer, que necessitam realmente de tratamento, daqueles que não necessitam de tratamento algum.

 

Esquecimentos ocorrem por fatores diversos sem que signifiquem doença, como por nossa falta de atenção na execução de tarefas ou na conversa com outros, por nosso sono irregular, pelos automatismos da vida. Ou melhor: não é que esquecemos, é que não memorizamos.

 

Ansiedade

Podemos elencar, como causas não patológicas que provocam esquecimentos, as seguintes: 1. Sono inadequado, principalmente porque levará a um déficit de atenção no dia seguinte, pelo cansaço, o que prejudica a memorização; 2. Os automatismos da vida: tempos atrás sabíamos os números de telefone de muitas pessoas, “de cabeça”; hoje, com o celular, usamos sua memória para fazer as chamadas e com isso não exercitamos a nossa e não memorizamos mais os telefones. Por vezes nem o nosso número lembramos; 3. Alterações emocionais que comprometem interações entre pessoas, a realização de atividades.

 

Vemos então que o problema não é falha de memória: não estamos nos esquecendo e sim estamos deixando de memorizar. Às vezes as pessoas chegam ao consultório médico reclamando de esquecimentos, de falta de memória importante, porém incrivelmente lembram com detalhes de todos os esquecimentos que dizem ter, o que prova que a causa não é memória, mas alterações emocionais, como ansiedade.

 

Há que se preocupar com os esquecimentos quando são constantes, progressivos e comprometem as atividades da vida diária, especialmente a partir dos 60 anos de idade. Avaliação médica Deve haver atenção e avaliação médica caso a pessoa: - apresente esquecimentos de fatos recentes; - realize perguntas repetidas; - conte a mesma história várias vezes; - tenha dificuldade com datas ou dias da semana; - tenha dificuldade com horas, período do dia; - tenha dificuldade em localizar cômodos da casa; - esconda comida; - esconda objetos; - acuse outros de roubarem suas coisas; - apresente dificuldade para atender telefone e transmitir um recado; - apresente dificuldade para lidar com dinheiro; - tenha dificuldade para reconhecer familiares ou amigos; - tenha dificuldade para, por exemplo, ir à padaria comprar algo: - sinta-se perdido em uma loja, ou saia de casa e tenha dificuldade para voltar; - ache que a casa em que mora não é sua; - não reconheça sua imagem no espelho; - apresente alterações de personalidade, torne-se desconfiado, confuso ou medroso; - tenha dificuldade com pensamento abstrato: por exemplo, confunda representações artísticas da TV com a realidade; - apresente dificuldade com a linguagem, esquecendo palavras ou as substituindo por outras inadequadas para o momento.

 

A Doença de Alzheimer não tem cura, porém o tratamento precoce retarda sua evolução, fazendo com que o paciente tenha a maior autonomia possível. Caso seu familiar comece a ter problemas de memória não se deve nem banalizar o fato, acreditando que pode ser conseqüência natural do envelhecimento, nem se desesperar concluindo que é portador de Alzheimer. Na presença dos sinais de alerta acima citados a pessoa deve ser levada a um médico para uma avaliação adequada.

 

*O médico João Batista Alves de Oliveira (doctor- -jb@hotmail.com) é clínico geral, especialista pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica, e mestre em Gerontologia pela PUC-SP. Atua em Cuidados Paliativos

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