Futebol nos tempos do Condor

Pedro Pomar

 

A TV brasileira, e particularmente a cobertura de esportes, têm sido território fértil para um gênero de conteúdo que degrada o jornalismo: o infoteinement, mistura bastarda de informação com entretenimento. Como resultado das concepções que geraram o infoteinement, celebridades e atletas são transformados em repórteres esportivos, jogadores são convidados a oferecer músicas ao final das partidas, e as questões econômicas e políticas relacionadas ao esporte — como o poder de decisão da TV Globo relativamente à transmissão e aos horários das partidas de futebol, ou a corrupção na CBF e na FIFA — raramente são abordadas.

 

Tudo é festa, happening. O entretenimento (nem sempre de boa qualidade, por sinal) prevalece sobre a informação. Por isso, surpreende a alta qualidade do documentário Memórias do Chumbo – O Futebol nos Tempos do Condor, produzido em 2012 pela ESPN Brasil e dirigido por Lúcio de Castro.

 

São quatro episódios, que abordam de modo consistente a relação que as ditaduras militares instaladas no Brasil, na Argentina, no Uruguai e Chile construíram com o futebol. O trabalho recebeu o Prêmio Gabriel García Márquez de Jornalismo, mantido pela Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano (FNPI), na categoria “Cobertura noticiosa”. Os “tempos do Condor” são uma alusão à Operação Condor, uma organização secreta criada por essas ditaduras para exterminar os grupos que lhes faziam oposição.

 

O documentário recorre a inúmeras fontes testemunhais e documentos e fornece um extenso painel das atrocidades cometidas pelos governos militares desses países, desde os respectivos golpes de Estado. No seu depoimento, o jornalista argentino Ezequiel Moore explica que a junta militar liderada pelo general Jorge Videla, ao assumir o poder em 1976, emitiu imediatamente dezenas de proibições, até chegar ao ponto que tratava da Seleção Argentina: “‘Proíbe-se’ reuniões nas ruas, ‘proíbe-se’ fazer greve... e no comunicado número 23, dizia-se: ‘autoriza- se’.

 

E o que se autorizava? Autorizava-se a transmissão da partida de futebol da seleção argentina, que jogava nesse dia contra a Polônia. Neste momento ficou claro que a ditadura sabia muito bem do que se tratava o futebol”.

Propaganda

No episódio dedicado ao Brasil, é lembrado o fato de que, durante a Ditadura Militar, o futebol “não é visto apenas como algo a ser controlado: com imenso potencial de propaganda, a modalidade é mais do que nunca trazida para perto do governo”.

 

Em 1966, “primeira Copa do Mundo do regime militar, a seleção brasileira se transforma em um circo mambembe”. O documentário registra o momento em que o ditador Castello Branco e assessores (como o general Ernesto Geisel) recebem os jogadores da seleção e... João Havelange, já então dirigente da CBD (Confederação Brasileira de Desportos, predecessora da CBF).

 

“O regime militar confiscou os símbolos nacionais, ele se apropriou dos símbolos nacionais”, explica no documentário o historiador Carlos Eduardo Sarmento. Na sua opinião, o regime buscou fazer da seleção de futebol um instrumento de propaganda interna. Surge daí a ideia delirante de montar quatro selecionados, que passaram a percorrer o país em itinerários diferentes.

 

A preparação, caótica, resulta em fracasso na Copa. A partir da edição do Ato Institucional número 5, em 1968, aumenta a repressão, “os clubes de futebol passam a submeter ao governo o nome de qualquer postulante a cargo de dirigente”, e “nas principais federações de futebol, o controle era de amigos do regime”.

 

Além disso, “personagens do futebol passam a merecer atenta vigilância e relatórios periódicos sobre suas ações”. João Saldanha, militante histórico do Partido Comunista, foi um deles.

 

Na Copa do Mundo de 1970, após montar um time formidável, Saldanha foi destituído do cargo de técnico da seleção, por intervenção direta dos militares. Os episódios estão disponíveis no You Tube: http://goo.gl/GiMjpi (Brasil), http://goo.gl/7f69XL (Argentina), http://goo.gl/ NdiFnC (Uruguai), http:// goo.gl/WBflC e (Chile). Vale a pena conferir.

 

 

 

Biografia: Ho Chi Minh

Pedro Pomar

 

No Brasil pouco sabemos do Vietnã, o país que infligiu derrotas militares históricas a dois impérios, França e Estados Unidos. A principal liderança vietnamita, Ho Chi Minh, ainda nos dias de hoje é um gigante desconhecido.

 

Ho Chi Minh, de autoria do diplomata brasileiro João de Mendonça Lima Neto (São Paulo: Publisher Brasil, 2012), é um livro despretensioso que, contudo, muito ajuda na compreensão das principais facetas do herói vietnamita e das circunstâncias históricas em que ele se forjou e atuou. Nguyen Ai Quoc, ou Ho Chi Minh, ou “Tio Ho”, dirigiu o processo de libertação do povo vietnamita e de criação da República Democrática do Vietnã (1946) tendo que, a cada momento, esquivar-se das pressões e “armadilhas” postas no caminho ora por grandes potências do campo imperialista (inicialmente a França, depois Japão e Estados Unidos), ora pelas do campo socialista (China e URSS).

 

Ho Chi Minh (“Aquele que ilumina”) usou inúmeros nomes falsos, para escapar à repressão dos colonizadores. Seu aprendizado político iniciou-se em Paris, onde se tornou cofundador do Partido Comunista Francês (1920).

 

Como agente da Internacional Comunista (Comintern), fundou os partidos comunistas da Tailândia — onde atuou disfarçado de monge budista — e da Malásia, ambos em 1930. Posteriormente, fundaria o PC do Vietnã, para desagrado do Comintern, que determinara a criação de um PC da Indochina, abrangendo o Vietnã e os outros países da região (e assim atropelando as questões nacionais).

 

“Ho passou anos de sua vida sendo perseguido pelos franceses, sendo por eles condenado à morte, in absentia; foi preso pelos ingleses em Hong Kong (1931) e pelos nacionalistas chineses em Cantão (1943 a 1944)”, diz o autor. “Não seria um exagero colocar Ho no mesmo patamar histórico de Lênin, Gandhi, Mandela ou Fidel”, sustenta Lima Neto, que serviu quatro anos na Embaixada do Brasil em Hanói, ocasião em que pode empreender essa importante pesquisa. Ele teve acesso a documentos, bibliografia, e contou com a colaboração dos filhos de um dos principais camaradas de Ho, o general Nguyen Giap — professor de história que se tornou grande estrategista militar, responsável pela derrota dos franceses e, depois, dos americanos.

 

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