Pesquisa sugere tensão institucional

Algumas das notas obtidas na pesquisa da revista Você S/A podem refletir a centralização excessiva do processo decisório no instituto e processos não democráticos de indicação de chefias, bem como uma insatisfação com o atendimento de saúde.

 

O INPE é inquestionavelmente uma instituição de enorme prestígio junto à opinião pública brasileira, por seus inúmeros serviços prestados na área da previsão do tempo, medição de índices de desmatamento da Amazônia, estudo do clima espacial e tantas outras. É também reconhecido como um órgão de excelência na área da pesquisa espacial, por instituições científicas de renome internacional.

 

Esta percepção, no entanto, acaba camuflando vários problemas vividos pela instituição, que passam despercebidos aos olhos da população e mesmo do governo, mas são sentidos de perto por seus servidores e demais colaboradores.

 

Desde 2008, com o objetivo de aferir tais deficiências, o INPE vem participando da pesquisa de “clima organizacional” realizada pela revista Você S/A - Exame, da editora Abril e publicada no Guia Você S/A - As Melhores Instituições Públicas para Você Trabalhar. Ainda que esta pesquisa tenha surgido com objetivos mercantis (vender publicações e anúncios) e seus pressupostos sejam questionáveis, uma vez que parâmetros utilizados na avaliação de empresas não são necessariamente adequados para se avaliar instituições públicas, os resultados obtidos podem ser úteis como subsídio para se detectar pontos fortes e fracos de organizações como o INPE, um instituto de pesquisa ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

 

A pesquisa é feita por intermédio de um questionário, distribuído de forma estratificada a uma parcela dos servidores da instituição, os quais são incentivados, mas não obrigados a responder o questionário. Historicamente, o número de servidores que têm aceitado participar da pesquisa é bastante representativo, tendo atingido no ano de 2013 um índice superior a 70% dos questionários aplicados (há garantia de sigilo).

 

É esse alto percentual de participação que confere interesse aos resultados da pesquisa, com as devidas ressalvas pelo fato, já apontado, de não serem utilizados os parâmetros mais apropriados para instituições públicas.

Ambiente de trabalho

Para a composição do chamado Índice de Qualidade no Ambiente de Trabalho (IQAT), a pesquisa leva em conta quatro grandes tópicos: 1) Identidade, que mede o quanto os servidores se identificam com a missão e objetivos da instituição; 2) Satisfação e motivação, em itens como salário, o trabalho em si, ambiente físico e perspectivas de “crescimento”; 3) Aprendizado e desenvolvimento; e, por último, 4) Liderança, que mede a percepção dos servidores sobre seus chefes quanto à habilidade de comunicação, o quanto eles estimulam o time, se são confiáveis, justos e coerentes em seus discursos e atitudes. A nota obtida pelo INPE pode ser comparada tanto com a média das cinco melhores instituições públicas que tomaram parte na pesquisa, quanto por tipo de instituição (se da administração direta ou indireta), tamanho (número de servidores) e esfera de atuação (se municipal, estadual ou federal).

 

A tabela a seguir traz o índice IQAT obtido pelo INPE e sua comparação com outras instituições, bem como as notas obtidas para cada um dos tópicos que compõem o índice. Os números mostram que, quando comparado a instituições públicas similares, ou seja, de mesmo porte, pertencentes à Administração Direta e à esfera federal, as notas obtidas pelo INPE são ligeiramente superiores às demais instituições nos quesitos “identidade com a empresa”, “satisfação e motivação de seus funcionários” e “oportunidade de desenvolvimento pessoal”.

 

Entretanto, quando o quesito refere-se à “aprovação de seus líderes”, o INPE obteve a menor nota dentre todas as categorias de empresas pesquisadas (56,9 contra 66,0, 63,3 e 64,0). No índice geral de IQAT, a nota do INPE ficou ligeiramente superior às notas obtidas pelas demais instituições da mesma categoria (63,4 contra 61,3, 61,9 e 61,2). Por outro lado, quando comparado ao desempenho das cinco melhores instituições públicas pesquisadas, pertencentes a diferentes categorias, as notas do INPE encontram-se bem abaixo da média das notas obtidas por elas para cada um dos tópicos pesquisados (índice 63,4 contra 71,4 das cinco melhores instituições).

 

Resultados preocupantes

No entanto, é ao analisar- se isoladamente as respostas a algumas das perguntas que compuseram o questionário que se observam certos resultados preocupantes do INPE. É o caso de notas baixas a afirmações do tipo “Participo das decisões que afetam a mim e ao meu trabalho” (respondida positivamente apenas por 48% dos servidores pesquisados), “A instituição atende adequadamente às minhas necessidades na área de saúde e em outros benefícios” (55%), “Esta instituição ouve e coloca em prática as sugestões de seus funcionários” (37%), “Periodicamente recebo de meu chefe avaliações sinceras sobre meu desempenho” (46%), “Nesta instituição os chefes agem de acordo com o que dizem” (47%).

 

A Direção do INPE emitiu nota reconhecendo que a instituição “não se destacou na pesquisa entre as melhores instituições”, apesar da melhora de alguns índices quando comparados aos resultados das pesquisas de 2011 e 2012. A nota afirma ainda que, quanto aos “pontos que oferecem oportunidade de desenvolvimento” (eufemismo para se referir aos aspectos em que a instituição obteve notas mais baixas), “observa-se que há fatores críticos que necessitam de ações institucionais para que sejam minimizados”, sendo as principais ações propostas o “desenvolvimento de novas estratégias de comunicação” e a “capacitação contínua das lideranças”.

 

Tal desempenho é indicador de problemas institucionais importantes: excesso de centralização nos processos decisórios, privilegiando decisões individuais em detrimento de espaços coletivos de deliberação por conselhos ou comitês; processos de avaliação não contextualizados à realidade e impostos “de cima para baixo”, sem a participação dos servidores; preocupação com o atendimento à saúde no local de trabalho, em particular os de natureza de urgência e emergência. Por fim, pode sugerir a existência de processos não democráticos de indicação de chefias, que privilegiam aspectos políticos em detrimento da competência técnica e administrativa, levando à perpetuação de grupos no poder por décadas a fio.

 

 

 

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