Pronto para o próximo CBERS?

Tânia Caliari*

 

O fracasso do lançamento do CBERS-3 na China demonstrou que a área espacial é difícil até para os mais preparados. Agora o governo brasileiro antecipa a montagem de um novo satélite, sacrificando as chances de qualificação de técnicos no Brasil.

Foi impossível chegar à China para o lançamento do Cbers-3 no início de dezembro do ano passado sem sentir um pouco de orgulho pelo que estava prestes a acontecer: o lançamento de um satélite concebido e construído parcialmente no Brasil, por engenheiros, técnicos e industriais brasileiros.

 

Antes de partir, ouvi explanações detalhadas de como fora o desenvolvimento de partes do satélite pelos engenheiros e técnicos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), seus desafios, seus progressos. Havia visto in loco a superação na indústria para a construção dos subsistemas, tendo de se qualificar, adequar suas estruturas e força de trabalho, e enfrentar as restrições de importação de componentes, com destaque para a história da câmara Mux, sobre a qual já em 2012 eu havia feito uma reportagem.

 

Foi impossível também chegar à China sem carregar uma certa frustração: o programa CBERS (China- -Brazil Earth Resources Satellite, ou Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres) vem sendo levado a trancos e barrancos pelo Brasil, e a parte que nos cabia no CBERS-3 havia sido construída com muitos problemas e atrasos, adiando seu lançamento muitas vezes. Adicionalmente, analisando-se de uma forma mais ampla o Programa Espacial Brasileiro (PEB), o CBERS-3 seria levado para o espaço por um foguete chinês, visto que ainda não temos um veículo lançador de satélite.

 

Estava claro que, desde o início do programa de cooperação com a China, em 1988, havíamos avançado muito pouco na área espacial, em comparação às conquistas do programa espacial chinês.

 

A pouca frequência com que o Brasil constrói e lança satélites (seis satélites em 20 anos!) ressaltava, de forma melancólica, a importância de se testemunhar aquele evento. De qualquer forma, a calorosa e organizadíssima recepção dos chineses faria qualquer um se sentir bem na chegada, com cuidados como o oferecimento de chá quentinho e até a distribuição de casacos para a delegação brasileira aguentar os rigores do inverno na base de lançamento de satélite em Taiyuan. De Beijing até Taiyuan, cidade do interior de 4,5 milhões de habitantes, cujas luzes de neon à noite lembravam uma Las Vegas, a viagem foi feita por trem-bala.

 

Antes do embarque, políticos, técnicos e empresários brasileiros se adiantaram em tirar fotos diante da composição que chegaria a 300 quilômetros por hora. Durante o trajeto pude ouvir de alguns empresários suas impressões sobre o programa espacial chinês: “Os investimentos que os chineses fizeram na área são verdadeiramente de um país que quer ser uma potência espacial”, disse Edgar Menezes da Onmysis, que, juntamente com outros empresários que participaram da fabricação do CBERS-3, esteve visitando empresas estatais executoras do programa espacial chinês em Xangai e em Beijing, em agenda organizada pela Agência Espacial Brasileira (AEB).

China, ontem e hoje

Os empresários também puderam ver o enorme e sofisticado laboratório de integração da China Academy of Space Technology (CAST), a parceira chinesa do INPE no desenvolvimento dos CBERS, onde havia pelo menos dez satélites, de diferentes finalidades e tamanhos, sendo montados ao mesmo tempo. Aquela sim parecia a demanda dos sonhos de qualquer industrial...

 

A participação de indústrias brasileiras no programa CBERS deu- -se sobretudo a partir do CBERS-3, quando o INPE praticamente organizou um arranjo industrial para o setor espacial, determinando as características dos equipamentos e subsistemas necessários para suprir a cota brasileira de 50% do satélite, e repassando sua execução para cerca de dez empresas, que foram se qualificando para dar conta do recado. “Um programa como este tem três objetivos: geopolítico, de relação Sul-Sul; de desenvolvimento tecnológico, com a participação dos técnicos do INPE; e industrial, para formar indústrias com capacidade de fabricar sistemas espaciais no Brasil”, explicou Leonel Perondi, diretor do INPE, durante a viagem de trem.

 

Da cidade de Taiyuan, as delegações seguiram no outro dia para o distrito de Kelan, onde fica efetivamente a base de lançamento. Chineses e brasileiros foram conduzidos em seis microônibus numa confortável viagem de três horas. No caminho, com paisagem dominada por montanhas de rochas de cor ocre, peladas de vegetação e cobertas por neve nos pontos mais altos, o empresário Célio Vaz conta que a primeira vez que fez aquele trajeto, para acompanhar o lançamento do primeiro satélite CBERS, em 1999, ainda como engenheiro do INPE, aquela viagem havia durado dez horas, com a estrada ainda sem asfalto, muito precária e esburacada.

 

Este seria mais um depoimento comparando a China do início do programa CBERS com a China de agora. “Em 1988, quase não havia carros em Pequim. Eram apenas 1.200 carros de estrangeiros, de embaixadas e do governo”, diria um técnico do INPE; “O próprio presidente da CAST chegava ao trabalho de bicicleta!”, diria outro. A cada comentário, o cenário do passado contrastava mais com a aparente opulência da China hoje: “O laboratório de integração deles funcionava, mas era muito tosco... Hoje é uma potência”. “Ficávamos loucos para comer batata frita, e não tinha”. “Os técnicos chineses eram todos maduros, e nós do INPE éramos jovens. Hoje a situação se inverteu completamente...”.

 

Muitos desses técnicos podem ser vistos jovenzinhos em sua primeira visita à China na reportagem feita pelo jornalista Sérgio Brandão para o programa Globo Ciência da Rede Globo, em 1988 (confira no You Tube, http://goo.gl/Tjk0Mw). Antes de entrar na base, nossos jovens guias chineses, todos com graduação em alguma engenharia ligada à área espacial e pós-graduação em marketing ou administração, disseram que não poderíamos filmar ou fotografar nada.

 

Felizmente os anfitriões ofereceram depois para o Ministério de Ciência e Tecnologia e Inovação imagens daquele dia de céu muito azul, com o registro das atividades das delegações na base, que flagram o otimismo e a desconcentração dos visitantes.

Desolação (e pressão)

Às 11h26 (1h25 no horário de Brasília) do dia 9 de dezembro, testemunhamos então a impressionante subida do foguete Longa Marcha 4B, de 250 toneladas e 48 metros de altura, que carregava em sua ponta o CBERS-3, com a missão de colocá-lo em órbita a uma distância de 778 quilômetros do planeta.

 

Aquela seria a 35ª viagem desse consagrado modelo de foguete chinês que até então colecionava 100% de sucesso em seus lançamentos. Diante da imponente imagem, fica difícil acreditar que o lançamento fracassou. O motivo, confirmado pelos chineses, foi uma falha ocorrida no terceiro estágio do foguete.

 

Os dados enviados à base pelo lançador registraram que os dois estágios anteriores haviam queimado seu combustível e sido descartados no tempo e na velocidade programados. O terceiro estágio, porém, teria tido um tempo de propulsão, de queima de combustível, 11 segundos menor do que o previsto, não atingindo assim a velocidade necessária, de cerca de 7 quilômetros por segundo, para colocar o satélite em órbita. No hotel da base de Taiyuan, onde todos se reuniram depois do lançamento, cerca de uma hora depois da notícia da falha do foguete que levou à destruição total do CBERS- 3, o ministro de Ciência Tecnologia e Inovação, Marco Antonio Raupp, já pensava na antecipação do lançamento do CBERS-4, novo satélite a ser lançado em 2015. Sentou-se à mesa que reunia os funcionários do INPE para um almoço que deveria ter sido comemorativo.

 

“Eu não entendo nada, mas compreendo isso: vocês estão de parabéns pelo trabalho que fizeram no CBERS-3”, disse, depois de perguntar ao engenheiro Antonio Carlos de Oliveira Pereira, o Pinda, gerente do programa pelo lado brasileiro, em que pé estavam os equipamentos do CBERS-4.

 

Ficou satisfeito em ouvir que a maioria dos subsistemas já estavam prontos, e que os equipamentos reserva do CBERS-3 já estavam na China. Ao comentário de Genésio Hubscher, veterano do INPE e do programa CBERS, de que a pressão para se antecipar o novo satélite ira ser grande, o ministro respondeu, bonachão: “Eu vim aqui me sentar com vocês.

 

Já estou fazendo isso”. No voo de volta ao Brasil, o ministro destacou a importância de se ter logo um novo satélite em órbita. “O objetivo do programa é ter um satélite operacional captando imagens do nosso território, coisa que há muito a gente não tem. Esse satélite deveria ter sido lançado em 2009, quando parou de funcionar o CBERS-2B. Desde então, temos recebido imagens de satélites lançados por outros países”.

 

Segundo o ministro, o governo federal tem uma boa noção da importância de se usar satélites para monitorar nosso enorme território nacional e seus recursos a partir do espaço. “Mas o importante é entender qual é a visão da sociedade brasileira. Esses satélites de aplicação têm grande impacto e aceitação”, diz, destacando que este tipo de programa requer muitos recursos.

 

A construção e os lançamentos dos CBERS-3 e 4 custaram cerca de US$ 150 milhões, segundo o INPE. Isto leva a um custo estimado de R$ 180 milhões somente para o CBERS-4. Refletindo sobre a importância de o Brasil possuir um satélite imageador, e ainda, de conseguir conceber e produzir esse satélite, outro veterano do programa CBERS, o engenheiro Luiz Bueno, do INPE, considera que o valor de se construir um satélite vai além de sua aplicação.

 

“Se for para ter as imagens você compra por aí, é um produto. Mas quando você faz um satélite você ganha autonomia, independência tecnológica, e além disso começa a criar um parque industrial capaz de fazer equipamentos mais sofisticados. As dificuldades superadas podem servir como uma alavanca de desenvolvimento para o país”, avalia.

Perda de oportunidade

Pinda concorda com o colega, mas entende que no momento é preciso providenciar um novo CBERS o mais rapidamente possível para atender à demanda dos usuários de imagens.

 

Respondendo à pressão do ministro, o engenheiro apresentou uma estratégia para antecipar a integração do CBERS-4 e deixá- -lo apto para o lançamento, que seria também antecipado de dezembro de 2015 para o final de 2014. O principal ponto da estratégia é fazer a integração do satélite na China.

 

As réplicas de cada equipamento do CBERS-3, fabricadas para substituir os originais em caso de alguma falha, já se encontram no país asiático e, segundo o engenheiro, ao se evitar repatriar os subsistemas brasileiros e seus equipamentos de testes, além de trazer as partes chinesas e também seus aparelhos de testes, e depois enviar o satélite já integrado no Brasil para a China, pode-se ganhar seis meses de tempo.

 

Outro ponto importante da estratégia é enviar mais técnicos do INPE para coordenar os testes e a integração, e delegar grande parte do trabalho de montagem dos subsistemas na estrutura, atividade considerada de pouco ganho tecnológico, aos chineses, que têm abundância de recursos humanos qualificados para isso.

 

Em reunião entre os funcionários envolvidos com o programa CBERS realizada no final de dezembro no INPE, porém, ficou claro que nem todos concordam com a necessidade dessa antecipação. Para muitos, abrir mão da montagem do satélite no Brasil significará a perda de oportunidade de se qualificar novos profissionais nas atividades de integração.

 

Para os que ponderam que o Brasil já passou por essa experiência, tendo integrado os satélites CBERS-2 e 2B no Laboratório de Integração e Testes (LIT) do INPE, vale lembrar que isso foi há mais de seis anos, e que, com o envelhecimento dos seus quadros, o instituto necessita desesperadamente de chances para novas qualificações.

 

É no que acredita Adalberto Pacífico Comiran, físico e engenheiro do INPE de 70 anos, que já está com sua viagem para a China marcada para o final de fevereiro para começar a integração do novo satélite. Ele estava à mesa do almoço que se sucedeu ao lançamento fracassado do CBERS-3 na base de Taiyuan quando o ministro Raupp sentou-se para falar do CBERS-4.

 

Especializado em testes nos equipamentos que usam rádio-frequência, Pacífico participou da montagem do CBERS-2B e é sincero ao dizer que, por ele, não iria mais à China. “A gente vai porque não tem mais ninguém... eu queria é passar meu trabalho para gente nova”, diz. Segundo Pacífico, depois da integração do CBERS-2B não foi possível realizar todos os testes necessários no Brasil, pois na época a câmara de termo vácuo do LIT, fundamental para testar a resistência do satélite, não estava pronta. “Agora sim, ao integrar o CBERS-4, teríamos a chance de fazer o trabalho completo aqui e a oportunidade de qualificar muita gente”, lamenta.

 

*Repórter da revista Retrato do Brasil enviada à China pelo SindCT.

 

 

 

Antecipar lançamento do CBERS-4 é um erro, porque torna inevitável a integração na China

Assim que se confirmou a falha no lançamento do satélite CBERS-3 devido a um mau funcionamento do último estágio do foguete chinês Longa Marcha 4B em dezembro de 2013, começaram a surgir propostas no sentido de se antecipar a integração (montagem) e lançamento do satélite CBERS-4, como forma de se amenizar o prejuízo causado pela perda do CBERS-3.

 

Originalmente o CBERS-4 estava previsto para ser lançado no final de 2015, decisão esta que já havia sido ratificada pela Comissão Sino-Brasileira de Alto-Nível (Cosban), que coordena as atividades no âmbito da cooperação espacial entre Brasil e China, na sua última reunião ocorrida em novembro de 2013, portanto, poucos dias antes da tentativa frustrada de lançamento do CBERS-3 (vide matéria publicada no Jornal do SindCT 27, http://goo.gl/BpmvBt).

 

Aparentemente, a ideia de se antecipar o lançamento do CBERS-4 partiu do próprio ministro Raupp (MCTI), que divulgou declarações à imprensa neste sentido enquanto ainda se encontrava na China, acompanhando o lançamento do CBERS-3. O argumento central desta proposta baseia-se no fato de que o Brasil já se encontra há vários anos sem a cobertura de imagens de seu território, desde que o satélite CBERS-2B deixou de operar em 2009.

 

Assim, de acordo com o ministro, caso o cronograma do CBERS-4 fosse mantido, o país ainda teria de esperar mais dois anos até que a geração das imagens fosse retomada. Uma vez tomada a decisão de se antecipar em um ano o lançamento do CBERS-4, a consequência natural seria dar início imediatamente à sua integração na China, por várias razões, dentre as quais o fato de boa parte da estrutura do satélite já se encontrar naquele país, e o fato de a China possuir uma quantidade muito maior de técnicos bem treinados que poderiam ser alocados nestas atividades de integração.

 

Se a integração fosse feita no Brasil, estima- se que seriam gastos cerca de três meses só com atividades de importação destas partes para o Brasil (e posterior exportação para a China na época do lançamento). Além disso, é sabido que o INPE enfrenta sérios problemas relacionados à escassez de recursos humanos, fato que se verifica também no Laboratório de Integração e Testes (LIT-INPE), onde os satélites são montados e testados.

Alto preço

Portanto, o questionamento que se deve fazer em relação ao CBERS-4 é se a antecipação de seu lançamento é ou não pertinente.

 

Neste aspecto, a decisão de vir a integrá-lo na China ou no Brasil é uma mera decorrência desta decisão preliminar. Rigorosamente, não há argumentos convincentes que justifiquem a antecipação do lançamento do CBERS-4.

 

Do ponto de vista do acesso a imagens do seu território, o Brasil já vem adquirindo imagens feitas por satélites estrangeiros desde 2009. Continuar importando estas imagens por mais um ou dois anos não irá fazer grande diferença. Além disso, o preço a ser pago com a antecipação do lançamento deste novo satélite será muito alto para o Brasil, por duas razões.

 

Em primeiro lugar, porque não haverá tempo hábil para se aprofundar na solução de todos os problemas técnicos enfrentados quando da integração do CBERS-3, em particular relacionados à falha de componentes eletrônicos importados dos EUA. Em segundo lugar, porque teremos de abrir mão de integrar o satélite no Brasil, perdendo uma oportunidade fundamental para se qualificar novos profissionais nas atividades de integração, e principalmente para justificar os investimentos de centenas de milhões de dólares feitos pelo governo no LIT, onde foram integrados apenas dois satélites para colocação em órbita nos últimos 12 anos.

Diretoria do SindCT

 

 

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