Números, física quântica e sindicalismo

Shirley Marciano

 

Em 1977 Conde foi prestar serviço ao DCTA, passou a viver em São José dos Campos e se pós graduou no ITA. Em 1982, surgiu uma oportunidade no INPE, e em 1989 ele ajudou a fundar o SindCT.

 

Vamos contar a história de um aposentado que tem estreita ligação com as lutas da nossa categoria. É filho e neto de médicos, mas escolheu ser físico pelas melhores escolas superiores do país, graduado e pós-graduado, respectivamente, na Universidade de São Paulo (USP) e no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA).

 

Casado, pai de dois filhos, amante da boa leitura, tem um gosto particular pela política, em particular pelo movimento sindical. Fala de forma direta e sem meias palavras. Pelo tom de voz, parece que está bravo, mas é somente o seu jeito de ser, autêntico. Francisco Conde nasceu em Lorena, mas viveu até os 14 anos em Cachoeira Paulista, quando foi morar na cidade natal e ficou lá até se matricular em Física na USP, em 1970.

 

Na época era comum que o filho seguisse a profissão paterna. Mas com Conde não foi bem assim, a linha do provável fez algumas curvas e traçou um novo rumo para ele. Sendo o pai e o avô médicos, foi natural a opção por ciências biológicas durante o ginásio, mas percebeu de imediato que o seu forte era outro. Gostava de matérias que envolviam números.

 

A área de Exatas entrou de vez em sua vida quando adquiriu um conjunto de livros americanos, que foram traduzidos para o português pelo MEC. “Fiquei impressionado quando me deparei com a física quântica. Era algo muito interessante”, conta. Conde estava motivado para estudar as disciplinas de sua predileção, mas não lhe passou despercebida a intensa movimentação política dentro e fora da universidade, relacionada à Ditadura Militar. Embora não tenha participado diretamente da oposição ao regime ditatorial, interessava-se pelas discussões sobre o presente e o futuro do país, que eram constantes.

 

Falava-se das riquezas do país como sendo benefício da população, sobre os atrasos tecnológicos, o impacto da falta de ensino e da distribuição das riquezas. “O período era de tanta opressão que estar num boteco conversando normalmente poderia ser problema. Eles abordavam e pediam a carteira de trabalho. Caso não tivesse, era levado e sabe-se lá o que poderia acontecer com a pessoa”, relata. Nos dois últimos anos de faculdade, 1975 e 1976, ele trabalhou na Fundação Brasileira para o Desenvolvimento do Ensino de Ciências (Funbec).

 

Foi lá que aprendeu mais sobre ótica instrumental, um dos ramos da física que lhe seria útil para o próximo emprego, porque em 1977 foi prestar serviço ao DCTA, passando a viver em São José dos Campos, onde também se pós-graduou no ITA.

 

“Era um trabalho de projeto de mísseis brasileiros, de sistemas bélicos. Meu foco era na cabeça do míssel, que possui sistemas ópticos — lentes e detectores para coleta de dados para guiagem”, explica. Também trabalhou no Laboratório de Estudos Avançados, na mesma área, com laser de dióxido de carbono. Em 1982, surgiu uma oportunidade no INPE e decidiu ir para lá, mais exatamente para a Missão Espacial Completa Brasileira (MECB), na área de Sensoriamento Remoto. Alguns anos depois, em 1988, mudou-se para a área de Engenharia Espacial. Vontade de mudar Em 1979 vivia num apartamento na Vila Maria. Certo dia, um amigo, que morava no mesmo prédio, pediu ajuda porque iria se mudar.

 

Ele, prontamente, foi dar uma força ao seu vizinho. E sai geladeira, entra cama, sai sofá, entra mesa... Assim foi o dia todo. Ao final, resolveram fazer um churrasco, mas precisavam que alguém fosse comprar a carne. Então, sobrou para Conde e uma amiga da namorada deste seu amigo. O nome dela é Maria Aparecida ou, simplesmente, Parê. Um pequeno passeio até o açougue com a moça e um ano depois estariam casados, e mais tarde com dois filhos.

 

Nesse tempo, Conde achou que era hora de fazer algo que ajudasse o Brasil a mudar, em meio à efervescência política que marcou o processo constituinte, ao final da Ditadura. Promulgada em 1988, a nova Constituição Federal permitiu ao funcionalismo público a sindicalização, até então proibida. Foi quando participou da fundação da SindCT, em 1989.

 

“Os sindicatos nasceram da necessidade dos trabalhadores de se unirem para conseguir pautar aquilo que interessava a eles, pois é um instrumento que potencializa o indivíduo”, define ele. O SindCT começou com 120 filiados. “Era tudo no improviso, lembro-me de que certa vez contratamos uma jornalista. Quando caímos na real, percebemos que não daria para pagá-la, então tivemos que fazer um acordo e ela saiu”, lembra com bom humor dos perrengues enfrentados.

 

Mas na segunda gestão melhorou, foi para 500 filiados, depois 1.400, em seguida 2.500 e hoje são mais de 3.000. Pergunto o que o teria motivado a engajar-se no sindicalismo e tornar-se um líder sindical, atuando por quase vinte anos. Ele responde que foi a vontade de mudar algo, mas que isso não surge na mente de forma gratuita.

 

Explica que foi influenciado pelas leituras que fez à época, de livros como Política (Aristóteles), A República (Platão), Contrato Social (Rousseau), O Leviatã (Thomas Hobbes), Utopia (Thomas Morus) e outros, além das amizades que o teriam ajudado na construção de seus ideais. Mas o que Conde faz hoje? “Agora estou a serviço da família e voltei a estudar matemática também”, resume.

 

Porém, mesmo fora da direção do SindCT, ele é sempre consultado para uma coisa ou outra. Até porque foram anos intensos de dedicação. “Acabou?”, pergunta Conde. “Tenho de ir à padaria, comprar pão para levar para casa”, explica. E assim nosso personagem e a repórter despedem- se um do outro e deixam o Parque Vicentino Aranha, os pássaros e as árvores que estimularam a conversa.

 

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