Compra dos caças suecos é aposta geopolítica

Camila Boehm

e Nelson Lin*

 

O brigadeiro Maurício Brandão, professor do ITA, está otimista com o desenvolvimento conjunto do Gripen NG, pois a transferência de tecnologia extrapolaria a área militar, como ocorreu no Projeto AMX, que reuniu Embraer, Aeritalia e Macchi.

 

No último dia 18 de dezembro, o Ministério da Defesa anunciou que o jato sueco Gripen NG (New Generation), da fabricante sueca SAAB, saiu vencedor na concorrência para a fabricação e compra de caças supersônicos da quarta geração.

 

A escolha encerrou um processo que se arrastava desde 2000 e que mobilizou os governos dos EUA e da França, interessados em ganhar o contrato para suas empresas de aviação. A previsão é de que o governo brasileiro desembolse cerca de R$ 4,5 bilhões até 2020 para a compra e desenvolvimento desse novo caça, que terá 40% de seus componentes desenvolvidos no Brasil, de acordo com a FAB.

 

Dentre suas principais características, está o seu raio de ação de 1.300 km em 30 minutos a partir da base terrestre. O Gripen possui também o recurso “Guerra Centrada em Rede” (NCW), em que suas esquadrilhas compartilham informações por datalink, podendo uma aeronave disparar um míssil baseada em informações de radar de outra aeronave.

 

O caça sueco tem versatilidade na seleção do armamento, podendo ser equipado e adaptado com armamentos de fornecedores diferentes. Além disso, seu tamanho menor em relação aos concorrentes lhe dá a vantagem de operar em pistas de pouso curtas, de 500 metros.

Emergência

Em 2000, o então presidente Fernando Henrique Cardoso deu início ao projeto FX, abrindo concorrência para a compra inicial de 12 a 24 caças de última geração, prevendo um custo total de R$ 700 milhões.

 

Cinco empresas ou consórcios apresentaram projetos, mas o governo FHC deixou a decisão da compra para o próximo presidente. No governo Lula, iniciado em 2003, a decisão foi sendo adiada até 2005, quando o prazo para as propostas expirou sem que houvesse um escolhido. O Brasil, então, comprou emergencialmente 12 caças Mirage-2000 da França e em 2008 abriu o projeto FX 2.

 

Nessa nova concorrência, além de fornecer os caças, as empresas deveriam apresentar propostas de transferência de tecnologia à indústria brasileira. Seis candidatas apresentaram-se: as norte- -americanas Boeing (F-18 e/F SuperHornet) e Lockheed Martin (F-16), a francesa Dassault (Rafale), a russa Rosoboronexport (Sukhoi SU-35), a sueca SAAB (Gripen NG) e o consórcio europeu Eurofighter (Typhoon). No final de 2008, a FAB elaborou uma short- -list com três empresas: Boeing, Dassault e SAAB, levando em conta os critérios de logística, técnica, compensação comercial e transferência de tecnologia para a indústria nacional.

 

O presidente Lula chegou a declarar sua predileção pelo Rafale em 2009, na comemoração de 7 de setembro, junto ao então presidente Nicolas Sarkozy. Mas em seguida o Ministério da Defesa solicitou melhorias nas propostas dos concorrentes finais. E em janeiro de 2010 um relatório técnico da Aeronáutica apontava o Gripen NG como o caça preferido.

 

Posteriormente, no governo Dilma, em uma reunião com Timothy Geithner, secretário do Tesouro dos EUA, em fevereiro de 2011, a presidenta teria manifestado sua preferência pelos caças da Boeing, conforme noticiado à época pela agência Reuters. Em maio de 2013, em reunião com o vice-presidente Joe Biden, Dilma teria recebido dele garantias de que o congresso norte-americano não restringiria a transferência de tecnologia, algo considerado vital para a presidenta. Gunther Rudzit, coordenador do curso de Relações Internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco, declarou ao Jornal do SindCT que havia também a possibilidade de uma coordenação comercial- militar em curso entre o Brasil e os EUA, que incluiria a venda de Super Tucanos da Embraer ao Paquistão, a ser intermediada pelas forças armadas norte-americanas e que por consequência fortaleceria a escolha do caça da Boeing.

 

No entanto, em junho de 2013 as denúncias de Edward Snowden de espionagem da NSA (Agência de Segurança Nacional) nas comunicações da presidenta Dilma e de empresas brasileiras abalaram o relacionamento com os EUA e impossibilitaram a parceria pretendida. Nesse sentido, completa Rudzit, a escolha do Gripen NG teria uma dupla função: prestigiar a FAB, que havia manifestado sua preferência pelo caça sueco em 2010, e ao mesmo tempo enviar ao governo norte-americano um forte recado de descontentamento com relação às atividades ilegais da NSA.

 

Procurada pelo Jornal do SindCT, a FAB negou a influência das revelações de espionagem norte- -americana no desfecho do caso, afirmando que “a decisão do governo seguiu o assessoramento técnico da FAB, baseado em um estudo criterioso que apontou o Gripen NG como a melhor opção para a Força Aérea” e que “a SAAB também apresentou o melhor preço”.

 

Ainda segundo a FAB, a compra do Gripen “oferece a oportunidade de participar do desenvolvimento de um projeto que significa capacitar nossa indústria para que mais tarde tenhamos condições de desenvolver um caça de quinta geração.”

Geopolítica

O brigadeiro da reserva Mauricio Panzini Brandão, professor titular do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), opina que a compra de uma aeronave de primeira linha, com velocidade superior ou igual a Mach 2 (duas vezes superior à velocidade do som), é essencial para defender o amplo espaço aéreo brasileiro.

 

Ele lembra que, apesar de o país não ter uma guerra em seu território continental em 150 anos, há histórico de incursões não autorizadas de aviões militares estrangeiros no espaço aéreo brasileiro (na guerra das Malvinas, por exemplo) e “a história mostra que quem não tem alguma força (militar), sempre correu riscos de sofrer pressões e ações militares de quem tem a força”.

 

Na América Latina, o Chile adquiriu caças norte- -americanos F-16 em 2006, a Venezuela optou pelo russo Sukhoi-30 também em 2006 e a Argentina está em processo de compra de caças israelenses Kfir. No entender de Tullo Vigevani, professor do programa de pós-graduação em relações internacionais da Unesp, esses fatos demonstram que “há uma preocupação de parte dos Estados latino- -americanos para o reequipamento das suas forças armadas, cada um por suas razões específicas”.

 

Vigevani não vislumbra efeitos negativos nas relações com os EUA e nas relações comerciais com a Boeing. Ele lembra que parte dos componentes do Gripen NG é de origem norte-americana, por isso parte da decisão sobre transferência de tecnologia do caça cabe aos EUA. Rudzit também não vê mudanças profundas nas relações diplomáticas e comerciais com a superpotência.

 

Apesar de a escolha do Gripen NG ter sido um sinal duro aos EUA, ele afirma que ela não fará os dois governos se afastarem definitivamente, pois há projetos muito grandes de aquisição no Ministério da Defesa. Por isso, nem os EUA nem qualquer outro país eliminado da concorrência do FX/2 vão “eliminar suas futuras chances de vender ao Brasil”.

 

O brigadeiro Brandão mostra otimismo com o desenvolvimento conjunto do Gripen NG, pois, acredita ele, os benefícios da transferência de tecnologia a partir do desenvolvimento do novo caça não serão restritos à área militar. Ele cita como exemplo a participação da Embraer no projeto AMX, de criação de um caça subsônico nos anos 1980 em conjunto com empresas italianas Aeritalia e Macchi, que fez a empresa desenvolver jatos comerciais competitivos no começo dos anos 1990.

*Jornalistas

 

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