Vida e Trabalho

MARCHETARIA

Os traços precisos de Raul aplicados à arte em madeira

 

Funcionário aposentado do IAE/DCTA, onde atuou por 23 anos na área de Dinâmica e Segurança de vôo, Raul de Magalhães Gomes continua lidando com números ao produzir ornamentos em superfícies de madeira

 

Shirley Marciano

 

Um pouco de tudo. Criar belos trabalhos artísticos em madeira, ler muito e com grande diversidade de temas, praticar jardinagem, fotografar e, claro, ainda prestar serviços relacionados a projetos de segurança de voo.

 

Clélia Maria Pereira Gomes, a esposa, se apressa em dizer, num tom brincalhão: “Precisamos de um mês de férias para que possamos viajar”.

 

Foi com este bom humor que fomos recebidos na casa do matemático e artesão Raul de Magalhães Gomes, em Baependi (MG).

 

O mineiro de São Domingos do Prata se aposentou há cinco anos. Foi servidor do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE/DCTA) na área de Dinâmica e Segurança de voo durante 23 anos, prestando serviço, também, junto à Agência Espacial Alemã.

 

Seu trabalho exigia extrema habilidade técnica e responsabilidade, por lidar com questões ligadas à segurança, pois ele tinha que garantir, em projeções numéricas, que ao lançar um foguete este seguiria o rumo certo.

 

Explicando melhor, a função de Raul era calcular a trajetória do veículo para que as partes, ao se soltarem, como ocorrem com foguetes, não caíssem em locais errados.

 

Para tanto, era necessário fazer as compensações levando em conta as diferentes condições: climáticas, direção e velocidade do vento, relação de peso e diversos outros fatores.

 

“Sempre gostei muito do meu trabalho, tanto que até hoje ainda realizo alguns projetos na área, mas desvinculados do DCTA”.

 

Lado lúdico

 

Graduado em Matemática pela Universidade Nilton de Paiva, de Belo Horizonte, com mestrado em Matemática Aplicada pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), Raul sabe como ninguém a importância da precisão dos traços.

 

Foi assim no trabalho no DCTA e foi assim que quis desenvolver o seu lado lúdico, ainda quando estava no IAE.

 

Utilizando técnicas de marchetaria, que é a arte de fazer ornamentos em superfícies planas, principalmente em madeira, criou o seu primeiro trabalho, um tabuleiro de xadrez. Daí em diante não parou mais.

 

No seu ateliê, repleto de quadros de foguetes, ele mostra como tudo é feito.

 

Um trabalho extremamente minucioso, tanto que a confecção de uma única peça pode lhe ocupar por até uma semana.

 

Primeiro ele desenha o projeto, definindo os traços, o tamanho e os formatos.

 

Em seguida são recortadas as pequenas lâminas de madeira que, por sua vez, são coladas na superfície do objeto que será decorado, geralmente caixas ou móveis. Após a secagem, ele aplica verniz e cera.

 

Pergunto se já pensou em expor, mas ele explica que não faz nada para vender, porque é hobby mesmo.

 

Costuma dar as obras de presente aos amigos.

 

Pai de dois filhos, que lhe deram dois netos, após se aposentar mudou-se para a pequena Baependi porque queria viver em um lugar mais tranquilo, pois antes morava em São José dos Campos, próximo do trabalho.

 

Conta que escolheu Baependi por ser a cidade natal de sua esposa e local onde cultiva amizades há mais de quarenta anos, além de lhe permitir ficar mais perto dos filhos e netos.

 

Ficção no Egito

 

A esposa, também artesã, mas na área de patchwork, compartilha com Raul o gosto pela arte.

 

Já em clima de Natal, ela decorou lindamente todos os espaços da casa com seus artesanatos. “As crianças adoram, mas a gente decora tudo em cooperação.

 

Nos juntamos num dia, distribuímos as funções de cada um e depois fazemos um lanche; a magia está em proporcionar a participação de todos”, explica Clélia.

 

Avisto uma biblioteca e peço para olhar.

 

“Um livro triste é um livro parado numa estante”, comenta Raul, explicando que gosta muito de ler, sobre todos os assuntos, e que também costuma emprestar livros aos amigos para que todos possam compartilhar aquele conhecimento.

 

Ele me mostra o livro que está lendo no momento: Guerreiro Tigre, de David Gibbins. “É um livro de ficção que se passa no Egito. Muito boa a história”, afirma.

 

Pergunto a ele se valeu a pena se aposentar. Ele diz que sim, e explica que o bom da vida é poder escolher o que se quer fazer.

 

Acrescenta que tem muitos gostos pessoais e isso contribui muito para quem deseja se aposentar. Por exemplo, é ele quem cuida do jardim da casa — que, aliás, é belíssimo.

 

Também aprecia muito fotografar. “O fundamental é planejar o que se pretende fazer quando deixar as atividades de trabalho, e foi o que fiz”, finaliza.  

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