Ciência e Tecnologia

CONTRA-ESPIONAGEM

Governo decide acelerar lançamento do Satélite Geoestacionário de Defesa

 

Projeto do SGDC é dar maior segurança ao fluxo de dados militares e estratégicos do país, além de levar a Internet a regiões de difícil acesso ou que não interessem às teles. SindCT questiona conceito

 

Shirley Marciano

 

Provocado a responder às ações de espionagem praticadas por Estados Unidos e Canadá, o governo brasileiro resolveu acelerar a montagem e o lançamento do Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicação Estratégica, conhecido pela sigla SGDC.

 

Já foram escolhidas (com dispensa de licitação, tendo em vista a previsão de lançá-lo em 2016), as duas empresas fornecedoras: a franco-italiana Thales Alenia Space para o satélite e a europeia Ariane Space para o lançador. Prevê- -se que os contratos sejam assinados entre 12 e 13 de dezembro, por ocasião da visita do presidente francês, François Hollande, ao Brasil. Já o contrato de R$ 1,3 bilhão entre a Telebrás e a Visiona Tecnologia Espacial foi assinado em 28 de novembro. Formada pela própria Telebrás e pela Embraer, a joint-venture Visiona atuará como uma espécie de “montadora” do SGDC.

 

O SGDC dará conta tanto do fluxo de comunicações estratégicas e militares quanto do fluxo da Internet. A demanda por ele não resultou apenas das denúncias de Edward Snowden, ex-funcionário da agência norte-americana NSA.

 

O projeto estava em andamento com a finalidade de atender ao Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), que visa ampliar o acesso da população à rede mundial de computadores, oferecendo maior cobertura e qualidade a preços módicos.

 

Embora as decisões do Ministério das Comunicações no tocante ao PNBL tenham sido frustrantes, pois a pasta curvou-se à pressão das teles, permanecem os planos de utilização do SGDC para cobrir regiões que hoje não dispõem de acesso à Internet.

 

Há localidades nas quais não chega a rede de fibra óptica, como é o caso do interior do Amazonas, e as teles descumprem o dever de colocar antenas nas regiões com menor contingente de usuários, pois querem operar apenas nas regiões mais rentáveis.

 

O resultado disso: cerca de 2 mil municípios sem acesso à Internet. Além disso, existe uma preocupação antiga com o modelo de comunicação de Defesa por utilizar um satélite estrangeiro, o “Star One”, que possui uma base de controle privada, situada no estado do Rio de Janeiro.

 

O SGDC, ao contrário, permitirá que o controle das informações seja compartilhado apenas entre o Ministério da Defesa e a Telebrás, cada uma com sua respectiva banda, X e Ka.

 

Decodificação

 

“O satélite é um espelho, que reflete o envio dos dados, mas os equipamentos de terra que serão usados serão todos de fabricação nacional, o que nos permite garantir uma maior segurança, sem interceptação de dados estratégicos.

 

Além disso, todos os dados serão criptografados para evitar interferência”, declarou Caio Bonilha, presidente da Telebrás, ao jornal O Estado de S. Paulo. Especialistas do INPE, que preferem não se identificar, afirmam que o SGDC não dá garantia de blindagem contra espionagem, apenas reduz os riscos, porque a capacidade de decodificação criptográfica de alguns países, como os Estados Unidos, é muito superior à capacidade de codificação do Brasil. Afirmam também que o fato de serem empresas estrangeiras a fabricar o satélite aumenta os riscos de futura interceptação de dados.

 

O INPE já desenvolve satélites, no entanto, ainda não domina a tecnologia necessária ao modelo geoestacionário, que orbita em grande altitude e possui maior complexidade.

 

Portanto, um dos maiores objetivos desta empreitada é a transferência do conhecimento, conforme exigência contratual. Técnicos e engenheiros do INPE explicam, porém, que a transferência tende a não ocorrer, pois os países desenvolvedores de tecnologia preferem vender os produtos com valor agregado ao invés de transferir os conhecimentos envolvidos, de modo a manter cativa a sua clientela e evitar a criação de concorrência.

 

Consultado pela reportagem, Sérgio Rosim, diretor do SindCT, desfechou uma crítica contundente ao SGDC: “Este satélite é a materialização de um conceito que levará ao desmonte da engenharia do INPE. O modelo de construção que envolve a Visiona e fornecedoras europeias é extremamente dispendioso, além de não oferecer garantias nem quanto à efetiva segurança do fluxo de dados, nem quanto à transferência de tecnologia alardeada pelo MCT”.

 

 

Projeto com balões

 

No dia 14 de novembro, no INPE de Cachoeira Paulista, um balão equipado com um protótipo do Conectar, projeto que levará sinal de Internet às comunidades distantes dos centros urbanos, foi lançado para demonstrar sua operacionalidade.

 

O balão carregava um sistema de comunicação desenvolvido pelo INPE. José Ângelo Neri, coordenador do projeto, explica que o sistema embarcado para o teste não é novo, mas o que o diferencia é o fato de estar dentro de um balão, pois nele a comunicação em banda larga usando radiofrequência atinge maior área de cobertura em comparação às torres convencionais, além de levar menos tempo para implementação.

 

Assim, o projeto Conectar pode ser executado com custo competitivo em relação às tecnologias existentes.

 

Estiveram presentes o diretor do INPE, Leonel Perondi, e os ministros da Ciência, Tecnologia e Inovação, Marco Antonio Raupp, e das Comunicações, Paulo Bernardo. Este projeto também visa atender o PNBL.

 

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