Mobilidade urbana x caos e poluição: já fez sua escolha?

TRANSPORTE E SUSTENTABILIDADE

Mobilidade urbana x caos e poluição: já fez sua escolha?

Shirley Marciano

Novidades no trânsito e no transporte coletivo de São José dos Campos refletem planejamento de mudança conceitual de mobilidade, dando prioridade ao transporte coletivo.

Desde que a nova gestão municipal assumiu, houve diversas alterações no transporte em São José dos Campos. Entretanto, é pouco divulgado que tudo isso é parte de um planejamento de mudança conceitual de mobilidade, no qual se define, por exemplo, que no futuro a maioria dos munícipes opte por andar de ônibus e metrô por questões ambientais e de fluidez do trânsito, já que a cada ano ingressam mais mil carros nas ruas da cidade.

A imprensa local tem tratado o assunto de uma maneira muito simplista, apostando até mesmo na criação de situações que fogem ao bom senso, como trazer um piloto de corrida para questionar as sinalizações de trânsito de São José dos Campos. Quem conhece outras cidades e estados, porém, sabe que a cidade tem uma boa sinalização e que qualquer questionamento deve ser feito com base comparativa.

No mundo, fatores como imensos congestionamentos e demora para chegar em seus destinos, além da poluição ambiental, fizeram os países desenvolvidos mudarem a forma de utilização dos meios de transporte nos grandes centros urbanos.

A nova orientação é deixar o carro em casa e andar de ônibus, trem, bicicleta ou até mesmo a pé. Artigo dos pesquisadores Peter Newman e Jeff Kenworthy, do Instituto de Sustentabilidade da Universidade de Perth na Austrália, aponta que nos EUA, Europa e Austrália o uso de carro teria chegado ao seu pico a partir de 2004 e, por essa razão, os governos vem desenvolvendo políticas públicas para diminuir o número de carros particulares nas ruas, e isso já está dando resultado.

O estudo publicado por eles mostra que, na década de 1960, a quantidade de quilômetros rodados por carro aumentou 42% em relação à década anterior; na década de 1970, 26%; na de 1980, 23%. O período de 1995-2005 mostra um aumento global de 5,1%, mas apresenta queda em várias metrópoles de países desenvolvidos: Londres (-1,2), Estocolmo (-3,7), Viena (-7,6). Nos EUA teve redução de 15% e em Atlanta 10%. Na Europa, muitos países estão colocando dificuldades para os carros intencionalmente, como em Viena, onde diversas ruas foram fechadas ao uso de veículos particulares. Em Londres e Estocolmo taxas de congestionamento passaram a ser cobradas; em cidades alemãs, foram criadas zonas nas quais podem circular carros com baixa emissão de poluentes.

Cenário brasileiro

No Brasil, a tendência tem sido inversa. De acordo com pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica (IPEA) nas 12 principais regiões metropolitanas do país, na última década aumentou 8% ao ano o uso de carros particulares e 15% o de motos. Concomitantemente, houve uma redução de 30% no uso de transporte público. O pesquisador Carlos Henrique Carvalho, do IPEA, explicou, em entrevista concedida à revista Época, que as pessoas entendem esse fenômeno como sendo uma melhora da qualidade de vida, quando na realidade estão gerando poluição, congestionamento e mais acidentes de trânsito.

Ainda segundo o IPEA, o usuário de carro polui 36 vezes mais o meio ambiente que o passageiro de metrô e nove vezes mais que os cidadãos que utilizam o serviço de ônibus. A questão das emissões poluentes é uma preocupação mundial e, infelizmente, muitos países tardam a combater esse mal, chegando a índices alarmantes, como o da cidade de Harbin, uma fria metrópole no nordeste chinês, que praticamente parou no mês de outubro quando o índice de poluição atmosférica chegou a cerca de 50 vezes o limite máximo tolerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

De acordo com a Secretaria de Transporte, objetivo das mudanças é priorizar o transporte coletivo, promovendo melhorias no sistema, para mais pessoas utilizarem o serviço, e também para buscar uma maior fluidez. Dentre as principais mudanças ocorridas estão o Bilhete Único, a implantação dos corredores exclusivos de ônibus nos principais acessos ao centro, a reformulação dos sentidos das ruas de alguns bairros, o aumento da frota de ônibus, a alteração de itinerários, um plebiscito para definir o destino da ECO (estação de baldeação), financiamento de R$ 800 milhões para a primeira fase de implantação do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), além de um reforço na fiscalização paraque os ônibus cumpram os horários.

“É um trabalho duro que mexe muito com o cotidiano e costume das pessoas, mas estamos motivados por saber que esse projeto garantirá condições melhores a todos”, explica Wagner Balieiro, secretário municipal de Transporte. No dia 21 de outubro foi realizada uma audiência pública na Câmara Municipal para discutir o projeto VLT, e na ocasião a Prefeitura anunciou que a implantação do VLT terá início na região central (e não na região Sul, conforme divulgado inicialmente), em função do maior fluxo de pessoas no centro da cidade. Cabe à população, agora, acompanhar e fiscalizar as mudanças.

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