Sindicalismo na berlinda

ORGANIZAÇÃO E LUTA COLETIVA

Sindicalismo na berlinda

Moacyr Pinto*

Sindicato é coisa para peão”. Certo? Errado! Assim como na sociedade escravista brasileira o quilombo se constituiu na única real saída para o conjunto dos trabalhadores subjugados naquele sistema social... Assim como na sociedade feudal ocorreram a luta pela reforma agrária no campo (como na Revolução Francesa) e a demanda pelas cidades, onde os trabalhadores puderam avançar na organização das guildas e corporações de ofícios, com o objetivo de se livrarem do jugo dos senhores...

Na sociedade capitalista, sistema baseado na compra e venda de mão-de-obra no mercado “livre”, a experiência do estica-e-puxa das lutas e conflitos entre as classes sociais, e entre estas e o próprio Estado, terminou engendrando o sindicalismo como principal instrumento de organização e luta coletiva dos trabalhadores, além de dar origem a códigos legais que regulam a relação entre capital e trabalho, ou entre patrões e trabalhadores (no Brasil, esse código é a Consolidação das Leis do Trabalho, ou CLT; voltaremos a ela em outra oportunidade).

A luta pelo fim do próprio capitalismo, apesar de poder também passar pelo sindicalismo, já é outra história. Do mesmo modo, nos três sistemas (até no escravista) houve/há gente que tentou/tenta se dar bem individualmente.

Isso também é uma outra boa história, cheia de mitos Não haveria nenhuma novidade e o “blábláblá” acima apresentado seria completamente desnecessário, no Brasil de 2013, não fossem os seguintes senões: 1. As escolas não ensinam/ não debatem seriamente esses assuntos no período de formação básica da nossa juventude; menos ainda no período de formação superior, principalmente nos cursos voltados para o “mercado”, como os de Engenharia, Medicina, Direito, Jornalismo etc.

Os destaques são para a competição, o individualismo, o “empreendedorismo”, o sucesso no mercado profissional. 2. Como a maioria esmagadora da população brasileira saiu da roça nos últimos 50 a 60 anos, aqueles que entre nós e, mais ainda entre os nossos filhos, avançaram nos estudos, compondo uma pretensa elite de formação superior (mesmo que tenham frequentado péssimas faculdades), não querem ser confundidos com gente “feia”, de macacão, que fala alto, obstrui o trânsito e bate panela. Daí a rejeição ao sindicalismo e outras formas de lutas coletivas.

A mídia comercial, por sua vez, aborda o mundo sindical com desprezo, atacando a ideia de organização independente dos trabalhadores, forjando estereótipos negativos e reforçando preconceitos. 3. Por uma série de injunções — inclusive por termos amargado 21 anos de Ditadura Militar, que estimulou e ajudou a forjar um sistema nacional de comunicação (TV à frente) conservador e altamente alienante — saímos da roça, a partir dos anos 1950, diretamente para a sociedade de consumo de massas. Viramos consumidores sem nos tornarmos cidadãos.

É assim que nos tratam na escola, no serviço público de saúde, no Sesi, Sesc etc. 4. Quinhentos anos de colonialismo, reforçados por décadas de um determinado comportamento nas universidades mais elitizadas do país (onde tem gente que já pensa em inglês, gosta de falar na Europa e nos EUA com intimidade, mas não conhece o Nordeste brasileiro, do qual tem andado com certa má impressão, depois que o governo criou essa tal de “Bolsa Família”), moldaram em boa parcela da minoria melhor situada social e economicamente da nossa sociedade um tipo de avaliação que o sociólogo Emir Sader resumiu bem, ainda que por outras razões, em artigo postado recentemente no seu blogue em www.cartamaior.com.br.

Com ironia, Emir, entre outras coisas, escreveu o seguinte, em relação à direita política e à elite conservadora brasileira: “O que fazer diante do sucesso do Lula, dentro e fora do Brasil? Diante da sua capacidade para eleger e reeleger sua sucessora?

Refugiar-se na melancolia. (...) Fazer o discurso escatológico de que o mundo está pior do que nunca, que o Brasil vai pro brejo, que o povo nunca aprende, que tudo pode ainda ficar pior... Desencontrados do Brasil que melhora, da América Latina que avança — na contramão dos seus queridos EUA e Europa — só lhes resta um final resignado e resmunguento...”

Resumo da ópera

Quem pertence à classe trabalhadora, ou seja, vive uma relação de emprego no mercado de trabalho, seja ele público ou privado, e ainda que o empregador se disfarce de “organização não governamental” (ong) ou “organização social” (OS) e o trabalhador seja obrigado a passar-se por “pessoa jurídica” (PJ), não adianta pensar pela cabeça dos “especialistas” da mídia, nem achar que a Internet veio para substituir, magicamente a velha e boa organização dos trabalhadores nos locais de trabalho.

As novas tecnologias e mídias devem ser utilizadas sim, mas para reforçar, amplificar e qualificar a mobilização e a luta das categorias. Quem não pensa assim patina, como infelizmente estão patinando, por exemplo, os empregados da Embraer, que desde 1985 não tiveram uma hora sequer de redução na sua jornada de trabalho; situação muito diferente dos empregados das concorrentes pelo mundo afora.

Nos Estados Unidos, centro maior do capitalismo, trabalhadores que ganham altos salários não têm vergonha de sair às ruas para lutar por seus direitos. Os controladores de voo americanos, muito melhor remunerados do que os seus colegas brasileiros (que, diga-se de passagem, travaram uma luta heroica em 2007 e foram implacavelmente perseguidos e punidos pela Aeronáutica), sempre que necessário se mobilizam e entram em greve. Em 2007, os roteiristas de Hollywood fizeram passeatas, empunharam cartazes, e após quatro meses de luta conseguiram derrotar os poderosos estúdios. Um movimento histórico, liderado pelo sindicato da categoria. No Brasil, porém, quem ganha salários melhores tem aversão a sindicato e acha que manifestação de rua é baderna. Ou seja: pensa pela cabeça do patrão.

*Moacyr Pinto é sociólogo, educador e escritor

 

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