"Força Aérea não prestou atenção à Lei de Murphy e deu errado, 21 morreram!”

“Força Aérea não prestou atenção à Lei de Murphy e deu errado, 21 morreram!”

Várias falhas de segurança foram identificadas na investigação das causas do acidente fatal com o VLS em 2003. É o que afirma Luciano Magno Costalonga Varejão, irmão de César Augusto Costalonga

Varejão, técnico civil morto na tragédia de Alcântara. Na condição de representante das famílias das vítimas, Luciano foi um dos membros da Comissão de Investigação constituída com a finalidade de apurar as causas do acidente. Doutor em Engenharia Mecânica pela Universidade de Minnesota, professor aposentado da Universidade Federal do Espírito Santo, Luciano considera que a investigação foi conduzida “com isenção e competência” pelo brigadeiro Marco Antonio Couto do Nascimento, hoje reformado. O engenheiro fez estas declarações em resposta a questões que lhe foram encaminhadas pelo Jornal do SindCT.

Dez anos após a tragédia de Alcântara, qual é a sua avaliação do que ocorreu?

Principalmente falhas de segurança. Com o dispositivo de ignição (espoleta) já no lugar, as normas de segurança determinavam que apenas seis pessoas poderiam estar no ambiente da torre de lançamento do VLS, três para executar as tarefas e outras três para verificar se as executavam segundo as normas de segurança.

Na sua opinião, a Comissão de Investigação trabalhou com independência?

Sim. O brigadeiro Couto, que presidiu os trabalhos da Comissão, com isenção e competência, não poupou esforços para que os objetivos fossem atingidos.

Que erros conduziram à explosão?

Apesar de não ter sido possível apontar exatamente qual a falha que de fato causou a combustão intempestiva dos motores do VLS,várias falhas foram detectadas que poderiam, isoladamente ou em conjunto, ter causado o acidente. Dentre elas: 1) falhas gerais de segurança; 2) substituição de cabos blindados por cabos sem blindagem; 3) falta de documentação de modificações efetuadas; 4) falta de aprovação para modificações executadas; 5) colocação da espoleta sem comunicação aos funcionários que foram trabalhar no VLS e que acabaram sendo vítimas; 6) colocação de proteção, contra chuva, de material não comprovado como seguro para aquele ambiente; 7) gerenciamento deficiente no que tange ao cumprimento das normas de segurança; 8) alta rotatividade do gerenciamento geral do programa VLS — o cargo era usado como forma de progressão na carreira militar.

A Comissão identificou responsabilidades individuais?

É óbvio que havia alguém responsável pelo comando de toda a operação de lançamento do VLS. Esta pessoa, que não sei quem era, deve ter respondido pelas falhas de segurança que ocorreram. Se não respondeu, houve mais uma falha, falha jurídica.

O VLS e o programa espacial devem continuar sob controle militar?

Não tenho opinião formada a este respeito. Nada tenho contra militares. Um executivo que domine toda a complexidade do programa VLS, seja militar ou civil, tenho certeza que será muito bem vindo. Porém, o comando de um programa da envergadura do VLS não pode ser usado apenas como trampolim para promoções na carreira militar. Certamente, o tempo necessário para se conhecer toda a complexidade do programa VLS é muito superior ao tempo mínimo que um militar deve permanecer no posto apenas para contar pontos em sua carreira militar.

Uma queixa dos familiares das vítimas é que alguns dos maiores responsáveis diretos pela tragédia não sofreram qualquer punição, ao contrário, foram promovidos. O sr. concorda com essa avaliação?

Não acompanhei a carreira dos responsáveis pelo programa VLS, portanto não tenho como afirmar. O que soube é que o brigadeiro Couto (a quem passei a admirar pela integridade e competência), que presidiu com isenção e competência a Comissão que apurou as causas do acidente, da qual participei, não galgou degraus mais elevados em sua carreira militar. Também não sei o motivo da interrupção de sua carreira militar, ap nas espero que não tenha sido o fato de ter “incomodado” alguém por ter presidido e conduzido, com isenção e competência, os trabalhos da Comissão.

Os familiares receberam as devidas reparações de ordem material e de ordem simbólica, que pudessem compensar as perdas sofridas?

Se compararmos os valores recebidos pelas famílias das vítimas, com os valores recebidos por famílias de vítimas de acidentes semelhantes nos Estados Unidos da América, conclui-se que deveriam ter recebido reparações materiais de maior monta. Quanto à reparação de ordem simbólica, a melhor será o sucesso do programa VLS.

Encerrados os trabalhos da Comissão, restou para o sr. algum aprendizado pessoal, como resultado dessa experiência certamente difícil e dolorosa?

Sim. O mais óbvio aprendizado é de cunho humano. Perdas são irreparáveis, principalmente quando se trata de alguém tão cheio de vida, tão cheio de planos e projetos, de alguém com presença tão marcante em sua família como meu irmão Cesar. A morte de alguém que cumpriu todos os seus ciclos de vida, deixa saudades, mas é entendida como natural. Porém, a morte prematura de alguém, com ciclos de vida ainda a cumprir, não é sentida da mesma maneira. Fico sempre com a impressão de que meu irmão não deveria ter morrido, que não era a hora dele, que a missão dele aqui ficou incompleta, ele ainda tinha muito a fazer. Há também o aprendizado de ordem prática, que confirma o adágio conhecido como “Lei de Murphy”, capitão da Força Aérea Americana, que disse: “Se alguma coisa tem a mais remota chance de dar errado, certamente dará”. Ironicamente, o pessoal da Força Aérea daqui não prestou a devida atenção à Lei de Murphy e deu errado, 21 morreram!!!

 

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