Faísca gerou incêndio e explosão do VLS

Faísca gerou incêndio e explosão do VLS

Fernanda Soares

O relatório de investigação do acidente que destruiu o VLS e a torre de lançamento de Alcântara em agosto de 2003, provocando a morte de 21 funcionários civis do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), foi concluído e apresentado oito meses depois.

A conclusão: uma faísca elétrica, resultante das condições adversas de trabalho provocadas pela falta de recursos, foi a principal causa do incêndio e imediata explosão do foguete. Durante a apresentação do relatório, em São José dos Campos, o então ministro da Defesa, diplomata José Viegas Filho, resumiu: “Muitos equipamentos ficaram guardados por falta de dinheiro para a manutenção, e a escassez de recursos materiais colaborou para a falta de condições de trabalho”.

Apesar de extenso e detalhista, o relatório não explica porque havia tantos funcionários trabalhando na Torre Móvel de Integração (TMI) no momento do acidente, quando as normas de segurança determinavam que o número máximo deveria ser seis. Inicialmente foi levantada pela imprensa a hipótese de sabotagem, que o major brigadeiro Tiago Ribeiro, à época diretor do CTA e principal responsável pelo lançamento, chegou a considerar como plausível, antes que o relatório da investigação fosse concluído. Contudo, não foi detectada na investigação nenhuma atividade externa ou criminosa que pudesse ter produzido o acidente.

O acidente

O incêndio no VLS, que causou a tragédia, teve início após a faísca elétrica ter acionado o detonador do motor “A” do primeiro estágio do foguete. Embora o sequenciamento das atividades seguisse um cronograma e fosse relatado minuciosamente em fichas preenchidas pelos chefes de equipes, nenhuma das fichas que constam do inquérito policial do caso relata quando o detonador foi instalado, sendo que, por segurança, este seria o último item a ser montado no VLS.

A investigação também constatou que o Dispositivo Mecânico de Segurança (DMS) que protege o ignitor do motor, impedindo seu acionamento acidental, havia sido removido do Projeto VLS. Em 1997, após o lançamento do protótipo VLS-1 V 01, o DMS havia sido apontado como a causa da falha no acionamento de um dos motores do primeiro estágio desse foguete.

Durante as investigações da falha do VLS-1 V 01, foi recomendada a revisão do DMS e seus componentes, além de alterações necessárias e nova qualificação para o voo. Porém, no período entre o lançamento do V 01 e a montagem do V02, o DMS não foi revisto, mas simplesmente retirado do VLS (ver p. 9). De acordo com o gerente do Projeto VLS, tenente- coronel Alberto Mello Junior, “devido ao fato de não ter sido possível determinar a causa primária que levou à ignição intempestiva de um dos motores, não se pode afirmar que a presença do DMS teria evitado o acidente.

A falta deste dispositivo foi apontada como fator contribuinte, no entanto, outros itens de segurança foram considerados quando foi tomada a decisão de não se utilizar o DMS que se tinha disponível à época no V 03”.

Sucateamento”

O engenheiro Luciano Magno Costalonga Varejão, representante das famílias das vítimas na comissão que investigou o acidente, acredita que as investigações foram conduzidas com isenção e competência. “Apesar de não ter sido possível apontar exatamente qual a falha que de fato causou a combustão intempestiva dos motores do VLS, várias falhas foram detectadas que poderiam, isoladamente ou em conjunto, ter causado o acidente”. Além de “falhas gerais de segurança”, ele aponta “substituição de cabos blindados por cabos sem blindagem”, falta de documentação e aprovação para modificações efetuadas, “colocação da espoleta [detonador] sem comunicação aos funcionários que foram trabalhar no VLS e que acabaram sendo vítimas”, “colocação de proteção, contra chuva, de material não comprovado como seguro para aquele ambiente” e “gerenciamento deficiente das normas de segurança” (ver p. 7).

A presidente da Associação dos Familiares das Vítimas do Acidente com o VLS, Doris Maciel Cezarini, sustenta entendimento oposto ao de Varejão. Ela critica o relatório da investigação, que a seu ver é parcial e inconclusivo, principalmente por ter sido dirigido pelo Ministério da Defesa.

“Não se aprofundaram sobre o que realmente aconteceu. Tenho certeza de que foi sucateamento de tudo. Lembro do meu marido contando das coisas que estavam quebradas. Se fosse algo feito com responsabilidade, o acidente não teria acontecido”, afirma. Para as famílias, a não identificação de culpados e a impunidade dos responsáveis não deixa a dor da tragédia ser superada.

“Eles não foram acusados e nunca vão ser. Ao contrário, foram todos promovidos”, desabafa Doris. O brigadeiro Carlos Antônio de Magalhães Kasemodel, atual diretor do IAE, considera que não foi possível identificar a causa determinante, nem chegar-se a responsabilidades individuais: “Acidentes dessa natureza, da mesma forma que os acidentes aeronáuticos, em geral ocorrem pelo somatório de diversos fatores contribuintes, sendo muitas vezes impossível se chegar a uma única causa determinante do sinistro.

A investigação do acidente de Alcântara foi realizada por diversas comissões: oficiais, missões estrangeiras foram criadas para analisar as causas do acidente. Todas elas apontaram possíveis causas do acidente, e quando não se pode ir além do plano das hipóteses não é possível apontar inequivocamente um responsável. De qualquer modo, as investigações conduzidas cumpriram seu maior propósito que foi o de contribuir para a prevenção da reincidência futura de acidentes como o ocorrido em 2003”.

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