Homenagem emociona familiares e amigos

Homenagem emociona familiares e amigos

Fernanda Soares

A homenagem foi bela, simples, mas acima de tudo emocionante. Exatos dez anos após a tragédia de Alcântara, que abalou a comunidade científica do IAE-DCTA e INPE e comoveu o país, as famílias das vítimas reuniram-se no Memorial Aeroespacial Brasileiro (MAB) para assinalar a data e relembrar seus entes queridos.

Vinte e um tiros de rojão foram disparados pontualmente às 13h26, horário do acidente. Logo após, viúvas, irmãos e filhos leram textos que foram escritos há nove e dez anos. Também compareceram amigos e colegas de trabalho, que não conseguiram conter as lágrimas. Os familiares se sentiram reconfortados ao compartilhar a dor que carregam nestes dez anos. Aparecida Garcia, viúva de Gines Ananias Garcia, diz que os dias ainda se alternam entre “altos e baixos”.

Seu objetivo é continuar trabalhando, “mantendo o foco” e vencendo um dia após o outro. “Sei que algumas viúvas já se casaram novamente, já se separaram... mas eu ainda não consigo. A gente tinha um vínculo de alma, não está sendo fácil viver sem ele”, revela. Cabelereira, Aparecida precisou se desfazer do salão após a perda do marido, pois não conseguia se concentrar no trabalho.

Hoje, ela presta serviços em outro salão. Rodrigo, seu filho, diz sentir falta dos momentos de conversa que tinha com o pai. “Eu tinha a impressão de que ele sempre sabia a coisa certa a dizer e os momentos em que eu não precisava ouvir nada, só precisava da presença dele. Ele era um cara bastante especial”.

Vinícius Pereira, filho de José Eduardo Pereira, não teve a oportunidade de conviver muito com o pai. Quando o acidente aconteceu ele tinha apenas dois anos. O que ele sabe do pai e de seu trabalho, portanto, é contado pelos familiares. Mesmo assim, a uma indagação sobre a homenagem ao pai, responde com rapidez: “Achei bem legal, porque é uma forma de falar para ele que estamos bem”.

Lúcia de Fátima Varejão, viúva de César Augusto Costalonga Varejão, enxerga nos quatro filhos do casal uma forma de superar a ausência do marido. “Eu vejo muito ele nos meus filhos e isso me deixa bem... Meu marido sempre ajudou muito na educação dos filhos e hoje eles estão bem, graças a ele. Seguem o que o pai ensinou e têm bom caráter”.

Pensão ameaçada

Não é apenas a dor das perdas que as famílias enfrentam. Recentemente, o governo questionou o valor das pensões pagas às viúvas e filhas. Após uma auditoria, o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG) afirma que a pensão deveria ser de apenas 50% do salário do servidor. As famílias impetraram uma ação judicial, contestando a decisão. Caso percam, serão obrigadas a devolver todo o valor recebido “a mais” nestes 10 anos.

“Isso é um absurdo. Já não basta ter perdido meu marido, agora querem retirar a pensão?”, indaga Aparecida Garcia. Além da pensão mensal, as indenizações pelas mortes também são questionadas na justiça. Há dez anos, cada família recebeu R$ 100 mil do governo federal, a título de “antecipação da indenização”, até que o valor real fosse definido.

Mas, para receber a indenização pela morte, as famílias também precisaram impetrar ações. E os processos ainda não chegaram ao fim. “Tem gente que pensa que recebemos indenizações altas e estamos milionárias”, afirma Doris Cezarini, viúva de Antonio Sérgio Cezarini e presidente da Associação dos Familiares das Vítimas. Em um dos processos de indenização, foi determinado o valor de R$ 300 mil a ser pago à família.

Contudo, desse montante serão descontados, com a devida correção monetária, os R$ 100 mil antecipados. A viúva, que não quis se identificar, está revoltada. “Para a Justiça, a vida do meu marido só vale R$ 300 mil! E as pessoas que assistiram à reportagem na TV acham que eu recebi R$ 3 milhões”.

Punição dos culpados

Reunidas após a homenagem, as famílias são unânimes ao afirmar o que lhes falta: indenização justa e punição dos culpados pelo acidente. “Sei que é forte, mas sempre digo que meu marido foi assassinado e o culpado está solto”, protesta Doris, inconformada. A identificação dos responsáveis pela catástrofe, e as correspondentes punições, dariam conforto aos familiares e os ajudariam a superar a dor.

 

Texto escrito pela filha de Antônio Sérgio Cezarini, lido em 22/8

Pai

Saudade...

Saudade do teu sorriso

Das tuas palhaçadas...

Tua risada gostosa

Teu assovio quando estava perdido no

supermercado

Tua mão grossa

Teus olhos brilhosos

Tua orelhinha pequena

Saudades de quando você me cobria antes

de dormir

De quando me chamava de franguinha

Quando chamava a mãe de cuchinha

De quando perguntava como foi meu dia

na aula

Quando perguntava se eu tinha ballet...e eu

ficava brava, porque tenho ballet todo dia!

Saudade de ouvir o barulho da sua chave

chegando pra me buscar na academia

Saudade de te acordar e falar: pai você tá

roncando!

De brigar quando a filmagem não ficava do

jeito que eu queria

De ver a luz vermelha da sua câmera lá no

fundo...

Saudade de te acordar e falar: pai me leva

na aula!

De te ligar mais cedo e falar, me busca!

E você sempre ia!

Saudades de te atormentar porque tua

barriga estava ficando grande

De te ajudar a escolher uma roupa pra sair

De brigar pra você sair logo do computador

Pedir pra você parar de fumar

Saudade de sempre ver você descendo

daquele avião enorme e estar aliviada por

ter chegado bem

Saudades de ter a certeza de que você estava

ali quando eu precisasse

Saudades de você, pai... simplesmente de

você...

de sua filha, Bruna Cezarini

 

 

Compartilhe
Share this

testando