Dez anos após a tragédia de Alcântara, VLS é dúvida. Programa espacial patina

Dez anos após a tragédia de Alcântara, VLS é dúvida. Programa espacial patina

Shirley Marciano e Pedro Pomar

Há dez anos, no dia 22 de agosto, na base de Alcântara, no litoral do Maranhão, engenheiros e técnicos civis empenhavam-se nos ajustes e preparativos na Torre Móvel de Integração (TMI) em que seria realizado o teste de lançamento do Veículo Lançador de Satélites (VLS). Era um dia de expectativa para todos os envolvidos, pois faltavam apenas três dias para o lançamento do foguete de 19,5 metros e cerca de 50 toneladas, em torno do qual girava o Programa Espacial Brasileiro (PEB).

Porém, a ignição inesperada de um dos motores do foguete provocou uma enorme explosão, que matou os 21 homens que ali trabalhavam, experientes funcionários do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE). A TMI transformou-se numa impressionante sucata retorcida. A tragédia, certamente a maior da história mundial dos programas espaciais em número de mortes, deixou sequelas de todo tipo.

A TMI demorou uma década para ser reconstruída — foi oficialmente entregue apenas em 2013. A perda do conhecimento dos funcionários que faleceram ainda não foi superada, pelo contrário: os números evidenciam uma redução do quadro de pessoal nas áreas ligadas ao programa VLS.

Por outro lado, persistem a duplicidade e a descontinuidade de comando na gestão do programa espacial (ver p. 9 e 12). Outra questão a ser resolvida diz respeito à indenização das famílias das vítimas. Durante o velório, o presidente Lula anunciou que enviaria ao Congresso Nacional um projeto de lei propondo uma indenização de reparação às famílias. Contudo, o valor pago a cada família pelo governo federal, em 2004, foi de 100 mil reais, a título de antecipação. Os familiares entendem que têm direito a um valor que seja mais compatível com o que as vítimas ganhariam ao longo da vida profissional.

Entraram na Justiça para pleitear esta correção, mas o processo já dura nove anos e nada foi definido. “Estamos pedindo 3 milhões de reais por família, que equivale a dois terços da remuneração por mês que faltava para que a pessoa vitimada completasse 70 anos”, explica José Roberto Sodero, advogado dos parentes das vítimas. Além das indenizações, as famílias fazem jus a pensões mensais proporcionais ao salário de cada vítima. Entretanto, por absurdo que pareça, o governo ameaça descontar 50% do valor das pensões.

“Já não basta ter perdido meu marido, agora querem retirar a pensão?”, questiona, indignada, Aparecida Garcia, viúva de Gines Ananias Garcia. Como ocorre desde 2004, na data da tragédia os familiares realizaram uma emocionante homenagem às vítimas, no Memorial Aeroespacial Brasileiro (MAB). Vinte e um tiros de rojão foram desfechados pontualmente às 13h26, horário do acidente. Logo após, viúvas, irmãos e filhos leram textos escritos há nove e dez anos (ver p. 4 e 5).

 

Sem culpados?

O relatório oficial da investigação, divulgado em fevereiro de 2004 pela Comissão de Investigação, não atribui responsabilidades individuais pelo acidente, limitando-se a explicar o conjunto de falhas que culminou na grande tragédia. Elenca fatores de ordem técnica, meteorológica, humana e operacional. O então vice-diretor do Centro Técnico Aeroespacial (CTA, hoje DCTA) e chefe da comissão, brigadeiro Marco Antônio Couto, afirmou à época que não houve uma causa única para o acidente e sim uma somatória de fatores, dentre eles o corte de orçamento, a redução dos testes e também do número de funcionários. A investigação concluiu, por exemplo, que o radar do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA) estava inoperante desde 1989, data em que chegou, porque não havia um profissional para operá-lo. 

O problema é associado a outro fator apontado no relatório: a falta de recursos financeiros e humanos. Tudo isso, combinado, teria ocasionado aquilo que a Comissão de Investigação definiu no relatório final como “diminuição da capacidade de consciência situacional”, ou seja, a redução das condições de percepção de risco.

Em outras palavras, embora houvesse se instalado um ambiente de grande vulnerabilidade e alto risco, a equipe operacional do VLS não se deu conta do perigo que estava correndo. No entender do engenheiro e professor universitário aposentado Luciano Magno Costalonga Varejão, irmão de uma das vítimas, César Augusto Varejão, e membro da Comissão de Investigação, os erros determinantes foram as falhas de segurança: “Com o dispositivo de ignição (espoleta) já no lugar, as normas de segurança determinavam que apenas seis pessoas poderiam estar no ambiente da torre de lançamento do VLS, três para executar as tarefas e outras três para verificar se as executavam segundo as normas de segurança”, esclareceu.

O relatório também registrou que no CLA havia problemas de ordem operacional, que impediram um gerenciamento de risco mais criterioso e maior aperfeiçoamento na gestão de qualidade, mas não identificou culpados. “Algumas perguntas ainda estão sem respostas”, afirma a Associação dos Familiares das Vítimas em artigo publicado nesta edição: “Por que tantos funcionários trabalhando ao mesmo tempo e, pior, com os dispositivos [de ignição dos motores] instalados? Por que os dirigentes da missão não receberam punição?” O então diretor do CTA, major-brigadeiro Tiago da Silva Ribeiro, não foi encontrado pelo Jornal do SindCT para comentar as críticas.

 

IAE é competente”

Além das vidas perdidas, o Programa Espacial Brasileiro sofreu um impacto significativo, pois não houve um novo lançamento, embora o então presidente Lula tenha se comprometido a lançar a versão 4 do VLS até 2006. De lá para cá, surgiram apenas novidades preocupantes, como a criação da binacional Alcantara Cyclone Space (ACS), fruto de um acordo com a Ucrânia, destinada a lançar satélites comerciais. Como explicar tudo isso? “Em 2010, visitei o IAE, que havia sofrido o trauma do acidente.

A organização da pesquisa me pareceu completamente recuperada. É uma instituição de pesquisa competente, apesar do nocivo isolamento em que é colocada. Do ponto de vista técnico, não me parece haver problema algum. No INPE, também não. Os erros foram bastante bem equacionados, descritos no relatório da comissão de investigação”, diz o professor Paulo Murilo, do Instituto de Física da Universidade Federal Fluminense.

“O problema do Programa Espacial Brasileiro não está em São José dos Campos (IAE e INPE) nem em Alcântara. Mora em Brasília. A falha é do gerenciamento, este não foicorrigido”, avalia Murilo, que representou a comunidade científica na Comissão de Investigação. “Até a primeira providência de estabelecer um comando único do programa como um todo, que deveria ter sido tomada há muito tempo para permitir a correção dos problemas específicos, não foi efetivada até hoje”.

 

Revisão crítica completa”

Visão oposta defende o tenente- coronel Alberto Walter da Silva Mello Junior, atual gerente do Projeto VLS-1 e coordenador de Projetos Espaciais do IAE. No tocante à segurança, ele garante que houve “uma revisão crítica completa e passou-se a adotar a cultura de certificação, melhorando a garantia da qualidade dos produtos”.

Engenheiro aeronáutico, doutor em Engenharia Aeroespacial pela Universidade do Texas, o oficial mostra otimismo com o programa espacial: “De 2003 até hoje, houve 24 lançamentos de veículos suborbitais, todos com sucesso. Exporta-se VSB-30 para a Europa.

O VS-40, composto pela parte alta do VLS-1, também será utilizado por parceiro internacional. Todo esse trabalho já coloca o Brasil entre os países mais desenvolvidos na área espacial. O Veículo Lançador de Microssatélites-1 (VLM-1), concebido nesse período, será um projeto conjunto entre Brasil e Alemanha”.

Quanto ao cronograma do projeto, ele informa que em 2014 haverá duas operações: Santa Bárbara, para testes dos sistemas embarcados, e a de lançamento do VSisnav, ou Veículo Lançador do Sisnav, Sistema de Navegação do VLS-1 (ver texto “Projeto VLS hoje, segundo seus gestores” na p. 8). O PEB remonta aos anos 1980. A etapa de produção de satélites e o seu controle em solo já foi alcançada pelo INPE nos anos 1990.

Contudo, para que os objetivos iniciais do programa sejam plenamente atingidos, falta ainda o lançamento com sucesso do VLS, levando ao espaço um satélite de fabricação nacional. As tentativas de lançamento de protótipos do VLS realizadas em 1997 e 1999 foram mal sucedidas. A de 2003 resultou na tragédia que trouxe imensa dor e deixou cicatrizes nas instituições envolvidas e nos projetos em curso.

 

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