A onda de mobilizações de junho de 2013

Mobilização gera mobilização

A onda de mobilizações de  junho de 2013

Por Gino Genaro*

As grandes mobilizações ocorridas no Brasil, desde 13 de junho de 2013, constituem motivo de comemoração e otimismo. O país necessitava deste chacoalhão, que abre a possibilidade de se avançar, de maneira mais rápida, no processo de reformas sociais e políticas que o país tanto necessita. Mas, para isto, é preciso que se faça uma detida reflexão sobre estes acontecimentos.

Estas mobilizações não constituem um raio em céu azul, ao menos para os que vinham acompanhando a mudança nas condições do país desde o início do governo Dilma.  Já era possível observar, por exemplo, as mudanças sociológicas e geracionais do país, a alteração na postura do grande capital, a ofensiva ideológica e política da direita partidária e midiática e, principalmente, o fato da política econômica vir provocando um atendimento limitado às necessidades e demandas das massas populares.

Não resta dúvida de que hoje o país está melhor do que estava na era FHC, e de que está melhor do que estaria sob Serra e Alckmin. Mas é forçoso reconhecer que o país estaria ainda melhor se as reformas estruturais que o país necessita já tivessem sido implementadas, como as reformas agrária, política e das comunicações.

A fotografia dos índices de opinião nos últimos meses era largamente favorável a Dilma, mas o filme mostrava uma realidade em movimento: uma mudança na postura do grande capital em relação ao governo; a insatisfação crescente de setores da classe trabalhadora tradicional e uma ambiguidade no apoio da “nova classe trabalhadora”.

Mostrava também grandes novidades geracionais: a mais alta proporção de jovens trabalhadores no conjunto da população, com acesso a empregos precários e mal remunerados, dividindo seu tempo entre trabalho, estudo e transporte, o que ajuda a entender porque a qualidade do transporte e o valor das tarifas são temas tão sensíveis. Estes e outros elementos eram completamente perceptíveis antes do 13 de junho de 2013. A partir desta data, a quantidade converteu-se em qualidade, num processo de mobilização social que devemos analisar com o máximo de atenção.

Em primeiro lugar, está claro, por exemplo, que o movimento começou de forma espontânea, em torno da luta contra as tarifas do transporte urbano; cresceu como movimento de solidariedade contra a repressão policial; depois entrou numa terceira fase, onde a direita passou a disputar com força a condução do movimento. Houve então uma reação do governo e das esquerdas, em torno principalmente da proposta de Plebiscito; nos próximos dias, foram convocadas várias mobilizações, desde o locaute (“greve” articulada por empresários) convocado por setores da direita para o dia primeiro de julho, até a mobilização das centrais sindicais nos dias 4 e 11 de julho. 

Em segundo lugar, é importante destacar a predominância da juventude. Cabe analisar melhor o perfil deste setor social que foi às ruas e atentar para o fato de que a juventude, especialmente nas periferias, é alvo de uma pauta predominantemente negativa: violência de Estado, toque de recolher, redução da maioridade penal, com 30 mil jovens negros morrendo todo ano. Numa primeira aproximação, pode-se dizer que, ao menos numa primeira etapa, foi às ruas uma juventude trabalhadora ou filha de trabalhadores, com idade média até 25 anos e formação predominante universitária.

Aliás, chama a atenção que alguns que antes comemoravam a “entrada de milhões na classe média”, agora criticam as manifestações por estarem “compostas predominantemente por gente de classe média”: tanto a comemoração anterior quanto a ojeriza posterior incidem em erros, sociológicos e políticos. 

Em terceiro lugar, é necessário reconhecer o sentido em geral progressista das demandas e do processo. Ampliação dos direitos sociais e mudança no sistema político do país são bandeiras históricas da esquerda, dos setores progressistas do Brasil. Tarifa zero, assim como educação e saúde públicas, não são plataforma da direita, do grande capital e dos setores conservadores, ainda que estes setores busquem apropriar-se oportunisticamente destas bandeiras para tentar dirigir um movimento cujo conteúdo é no limite contraditório com seus interesses de classe. Como já apontaram muitos, o sentido das ruas está em contradição com o desejo dos mercados.

Em quarto lugar, é prudente atentar que o desfecho está em aberto. O consórcio mídia-partidos de direita está disputando a consciência popular, as pautas da mobilização, o sentido geral do movimento. Querem converter um movimento de pressão por mais políticas públicas e mais democracia política, num movimento contra o governo. Neste sentido, é importante saudar as diversas iniciativas de unidade democrática antifascista das diferentes forças da esquerda político-social e alertar para o fato de que setores da oposição de direita estão apostando na desestabilização da economia, inclusive recorrendo a locautes.

Grande parte dos que foram às ruas desde 13 de junho, são produto do país que começou a ser construído a partir de 2003. Que as manifestações tenham sido por mais direitos --e não contra o corte deles, nem por salários e empregos-- é um sinal disto. 
As mobilizações em curso podem ajudar a defender a ampliação dos direitos sociais, contra a ortodoxia fiscal. Ajudar a fazer a reforma política, contra o conservadorismo do atual parlamento brasileiro. Ajudar a colocar as reformas estruturais na pauta política do país. Aliás, um dos saldos deste processo é nos lembrar, a todos, que a correlação de forças e a agenda política do país podem ser alteradas, e que a luta de massas tem esta capacidade.

Como já se convencionou dizer, é hora de fazer do limão, limonada. Partir do quadro atual, para aprofundar as mudanças e fazer a reforma política. Aliás, é bom reafirmar: sem reforma política e democratização da comunicação, não haverá futuro e nem estarão consolidados os avanços sociais conquistados nos últimos anos. Posto de outra maneira, não há como prosseguir mudando o país sem alterar as instituições estatais brasileiras.
(*) Gino Genaro é tecnologista do Inpe e diretor do SindCT
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