O Brasil precisa investir mais em alta tecnologia espacial

COMO ANDA O NOSSO PAÍS
UM PROJETO DE PAÍS precisa de um projeto tecnológico

O desenvolvimento político, econômico e cultural de um país está diretamente relacionado ao domínio que este tem da alta tecnologia. O Programa Espacial é central para o país.

Por Claudia Santiago

A visão de Estado mínimo, predominante em quase todo o mundo a partir dos anos 90, afetou fortemente as instituições de C&T públicas.

A ideia-chave do novo credo neoliberal era a desqualificação de tudo o que é público e a entronização do deus mercado no centro do novo Panteón. Com a C&T não foi diferente.

O mercado, porém, não tem pátria, não tem nação, e tem uma lógica puramente utilitarista.

Não tem projeto de país e come avidamente aquilo que lhe traz lucros imediatos. No mundo todo fortes investimentos Um programa espacial requer muito investimento humano e material para que ele desenvolva as novas tecnologias necessárias, respeitando o seu ciclo de maturação.

Além disso, ele está ligado à política industrial do país, agrega valor à indústria e se desenvolve no seu rastro. Um outro aspecto do programa é o que se convencionou a chamar de “main contractor”, ou seja, a capacidade de integração e testes de sistema espaciais.

Um forte programa espacial requer instituições públicas com equipes de engenheiros e técnicos treinados e reciclados em instituições internacionais, laboratórios modernizados e financiamento adequado.

Todos os dias novas tecnologias surgem com potencial aplicação em sistemas espaciais. É assim no mundo inteiro.

Os programas espaciais atendem ao desenvolvimento industrial e de defesa do país.

Por isso, além do forte investimento estatal, precisam interagir com outros setores industriais, principalmente o aeronáutico e o de defesa.

O necessário investimento do setor público Algumas atividades da pesquisa e desenvolvimento tecnológicos são de interesse puramente acadêmico.

Em países ricos, grandes corporações realizam intensamente o trabalho de pesquisa exploratória.

No Brasil, ainda não temos esta tradição.

O investimento privado em pesquisa ainda é pequeno e na área espacial, nulo.

Portanto, se o país almeja o seu desenvolvimento tecnológico, esse tem de ser realizado por especialistas das instituições públicas de C&T, com grande experiência na área espacial, principalmente em qualificação de equipamentos e respectivos processos, enquanto incentiva a participação do setor industrial e de serviços.

As tecnologias desenvolvidas em instituições públicas de C&T, a pesquisa espacial, traz inovações tecnológicas que podem ser incorporadas pelo setor industrial e de serviços e gerar o aumento de produtividade, melhorias dos produtos, empregos, maior competitividade. Missão Espacial Completa Brasileira A Missão Espacial Completa Brasileira (MECB) foi aprovada em agosto de 1980.

Desde então, dois satélites tipo SCD´s (Satélite de Coleta de Dados) foram construídos e colocados em órbita e ainda estão em operação, atendendo ao Sistema de Coleta de Dados.

Outros três satélites foram desenvolvidos em parceria com a China e colocados em órbita pelos lançadores chineses.

No início de 2004, foi iniciado o desenvolvimento da nova geração de satélites em parceria com a China.

Nesta nova geração, a participação brasileira aumentou para 50%. Além disso, esses dois últimos satélites possuem câmeras de maior sofisticação do que na primeira geração.

Todos esses subsistemas e equipamentos foram projetados e fabricados integralmente no país. Apenas componentes eletrônicos, materiais ou pequenos itens menos significativos foram importados.

Estratégia Nacional de Defesa

No final do ano de 2008 o governo brasileiro divulgou a sua Estratégia Nacional de Defesa.

Entre outros pontos, o documento menciona “a reorganização da indústria nacional de defesa, para assegurar que o atendimento das necessidades de equipamentos das Forças Armadas apoie-se em tecnologias sob o domínio nacional”.

Para cumprir o que o próprio governo determina na sua Estratégia Nacional de Defesa, ou seja, para o Brasil ter o domínio de tecnologia na área, é preciso financiamento que possibilite aumentar a atuação de empresas espaciais nos setores aeronáutico e de defesa.

Isto pressupõe desenvolvimento de tecnologias, política industrial e fortalecimento dos trabalhadores das instituições públicas de pesquisa, como, o INPE e o DCTA. Mas, o Brasil, hoje, ainda precisa dar passos decisivos para superar esta dependência externa crônica na cadeia dos setores produtivos aeronáutico e de defesa.

Para o documento o setor espacial é estratégico com estas prioridades:

Projetar e fabricar veículos lançadores de satélites e desenvolver tecnologias de guiamento remoto, sobretudo sistemas inerciais e tecnologias de propulsão líquida;

Projetar e fabricar satélites, sobretudo os geoestacionários, para telecomunicações e os destinados ao sensoriamento remoto de alta resolução, multiespectral e desenvolver tecnologias de controle de altitude de satélites;

Desenvolver tecnologias de comunicações, comando e controle a partir de satélites, com forças terrestres, aéreas e marítimas, inclusive submarinas, para que elas se capacitem a operar em rede e a se orientar por informações deles recebidas; e

Desenvolver tecnologias de determinação de coordenadas geográficas a partir de satélites.

Todo o programa deve ser feito de acordo com as metas de Estado estabelecidas e apresentadas pelo Plano Brasil 2022 e pela Estratégia Nacional de Defesa.

O risco da terceirização está presente

AMEAÇA NEOLIBERAL
PERIGO À VISTA na condução da engenharia espacial

Quando uma missão espacial é definida, a total responsabilidade pela execução do projeto fica a cargo de uma instituição executora, comumente chamada de MAIN CONTRACTOR. Essa instituição pode ser um órgão público ou uma empresa privada.

CABE AO MAIN CONTRACTOR:

1. Realizar as atividades de gerenciamento e engenharia de sistemas
2. Sub-contratar outras empresas para o desenvolvimento, fabricação e testes dos subsistemas e equipamentos
3. Acompanhar e fiscalizar as atividades a cargo das sub-contratadas
4. Fazer as revisões ao projeto que se fi zerem necessárias
5. Dar o aceite final a cada um dos subsistemas que compõem a plataforma
6. Responsabilizar-se pelas atividades de integração e testes
7. Contratar os serviços de lançamento
8. Participar da campanha de lançamento
9. Acompanhar a operação em órbita na fase inicial de validação
10. avaliar a capacitação e a competência dos subcontratados

No caso de satélites, o INPE atua como main contractor. Todas as atividades necessárias à implementação de uma missão espacial, desde a fase de concepção e estabelecimento dos requisitos de missão, incluindo a definição da órbita, ficam sob a responsabilidade dos engenheiros do INPE.

Só depois dessa fase são contratadas as empresas que se encarregarão do desenvolvimento, projeto, fabricação e testes dos subsistemas/equipamentos que irão compor o satélite. Essas serão acompanhadas e orientadas pelo INPE. O INPE tem completa infraestrutura para as atividades de integração e testes de satélites.

Hoje a indústria nacional desenvolve os seguintes subsistemas:

Estrutura do satélite
Painéis solares
Subsistema de potência
Transponder DCS
Subsistema de telemetria e telecomando
Câmera de alta resolução – MUX
Câmera de largo campo de visão – WFI
Transmissor de dados de alta taxa
Fabricação e teste dos computadores de bordo
Gravador de bordo e antenas.

O instituto também possui um Centro de Controle de Satélites, cujos aplicativos são desenvolvidos internamente pelas equipes de engenheiros. Esse desenvolvimento não é sub-contratado por razões de segurança. Possui também estações de Telemetria/Telecomando, como estações de recepção de dados das cargas úteis dos satélites.

Essas estações estão localizadas em pontos adequados do território nacional.

Raupp não diz o que é estratégico para o país

MUITAS DÚVIDAS e muitos receios

Em artigo na revista Tecnologia & Defesa nº 124, o presidente da Agência Espacial Brasileira, Marco Antonio Raupp, afirma, acertadamente, que o “Programa Espacial Brasileiro contribui diretamente com a soberania e a capacidade de auto-gestão do país”.

Entretanto, mais adiante, o presidente da AEB coloca no mesmo patamar de importância do Programa Espacial Brasileiro as áreas de defesa e o meio ambiente sem, no entanto, deixar claro o que realmente é estratégico para o país. Ele vai além.

Desqualifica o muito que se fez todos estes anos no INPE e no DCTA.

Ao fazer um balanço do Programa Espacial Brasileiro, Raupp afirma que “resta um histórico de poucos resultados, atrasos e baixa prioridade em comparação com outras políticas públicas”.

O artigo não historiciza a questão e não diz que o grande vazio na área da C&T se deu nos governos Collor e FHC.

Além disso, não aponta os motivos que teriam levado a estes “poucos resultados e atrasos”, como a suspensão de concursos públicos para reposição da força de trabalho, salários defasados e, principalmente, os erros político-administrativos por parte dos dirigentes da área nos últimos anos.

Neste sentido, Raupp parece demonstrar que irá persistir nos erros.

A ideia central defendida pelo presidente da AEB no artigo parte do pressuposto liberal.

O mesmo que embasou o sucateamento do setor público. Assim, ele diz, de forma não explícita, que propõe a substituição do INPE como main contractor, no caso dos satélites, por uma empresa “prime contractor”.

Ora, constituindo-se, nas palavras de Raupp, “uma empresa integradora, capaz de fornecer sistemas espaciais completos (satélites, foguetes e sistemas de solo) que favoreça a organização de uma cadeia produtiva de fornecedores e serviços do setor espacial, orientada para os mercados interno e externo”, o INPE deixaria de ser o main contractor e a tecnologia sairia da mão do Estado.

Não se pode vacilar na defesa estratégica de se manter a presença do INPE na gerência dos projetos de satélites como MAIN CONTRACTOR. Isso porque, é o maior detentor de competência humana para essa posição além de ser mais barato, garante o controle e a tecnologia envolvida nas mãos do Estado.

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