Filme brasileiro recebe prêmios internacionais

CINEMA BRASILEIRO: O dia que durou 21 anos

Filme brasileiro recebe prêmios internacionais

Fernanda Soares

O documentário “O Dia que Durou 21 anos”, produzido pelo jornalista e escritor Flávio Tavares e dirigido por seu filho, Camilo Tavares, já recebeu dois prêmios internacionais. Depois de ganhar o Prêmio Especial do Júri no 29º Long Island Film Festival, em Nova York, o filme recebeu o Prêmio Especial do Júri do 22º Arizona International Film Festival.

O filme, escrito pelo jornalista Flávio Tavares e dirigido por seu filho Camilo Tavares, denuncia, por meio de depoimentos e documentos raros, a atuação do governo norte-americano nos bastidores do golpe militar de 1964 no Brasil.

Com documentos secretos e gravações originais da época, o filme mostra como os presidentes John F. Kennedy e Lyndon Johnson se organizaram para tirar o presidente João Goulart do poder e apoiar o governo do marechal Humberto Castelo Branco.

De 1964 a 1985, o governo militar violou os direitos civis e instalou um regime ditatorial, com graves consequências para toda a América Latina. 
Na época do golpe, Flávio Tavares foi considerado “terrorista” e estava preso. Ficou preso até o dia em que outros “terroristas” sequestraram o embaixador dos Estados Unidos e o trocaram por “brasileiros terroristas” presos. Camilo Tavares (seu filho) nasceu fora do Brasil, pois seu pai não pôde dar continuidade à vida cotidiana no país.

Veja a entrevista que Camilo Tavares concedeu à  revista Carta Maior:
Por que escolheu dar o enfoque do documentário na atuação norte americana no golpe de 64? 
Camilo Tavares: A riqueza do material encontrado nos levou a esta opção. Tanto os telegramas da CIA, como as conversas da Casa Branca, assim como os incríveis programas de TV produzidos pela CBS (em 1961) para convencer a opinião pública dos EUA.

Acredita que no Brasil há uma percepção comum dessa participação ativa dos presidentes norte-americanos no golpe? 
Camilo Tavares: Há muito pouco conhecimento do assunto. Este foi um dos objetivos do filme. Nossa meta é que o filme que teve patrocínio do Ministério da Cultura e da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, via Eletrobras, Sabesp e Cesp, seja distribuído na rede de ensino público com foco no público jovem que precisa conhecer melhor nossa história. E também do público adulto em geral que viveu a ditadura militar mas não conhece a dimensão dos interesses dos EUA em nosso país.

O documentário traz uma série de documentos secretos do governo dos EUA e da CIA, além de gravações entre embaixadores e os presidentes dos EUA. Como foi o processo de pesquisa? Quanto tempo durou, como foram adquiridos esses materiais e como foi organizado? A divulgação desse material é considerada inédita no Brasil? 

Sim é inédita no sentido do volume de informações. Tivemos apoio de historiadores muito antenados como Carlos Fico (UFRJ) que pesquisou os arquivos e publicou dois livros sobre o assunto, Peter Kornbluh (NARA_Washington) e da jornalista e escritora Denise Assis que fez a pesquisa do IPES e IBAD. A Pequi Filmes , minha produtora, arcou um árduo e custoso trabalho de 3 anos para levantar todo o material de arquivo. Aliás temos um rico material suficiente para novas series de TV ou filmes longa-metragem das relações Brasil, EUA e América Latina.

O documentário traz também dois aspectos interessantes: a insistência do interesse financeiro dos governos norte-americanos em apoiar o golpe militar e a suposta falta de controle de pessoas que apoiaram o golpe mas não concordavam com torturas, prisões e outras medidas autoritárias. Acredita que os objetivos norte-americanos foram atingidos ou em algum momento houve um descompasso com os interesses dos militares brasileiros? 

Os militares brasileiros fizeram exatamente o que os americanos queriam. Entregaram nosso mercado para os EUA e adotaram o modelo de desenvolvimento financiado pelas empresas americanas, que hoje são as grandes empresas do Brasil nos setores estratégicos da economia. A primeira medida do Presidente Castelo Branco ao assumir foi acabar com a lei que limitava a remessa de lucros excessivos das empresas americanas ao EUA. Ou seja abriu as portas , como diz a música do Raul Seixas: “ a solução é alugar o Brasil”. E alias como será que está esta lei de remessa de lucros atualmente?
Foram colhidos depoimentos de militares. Com que objetivo buscou isso?
Este foi o grande desafio ouvir a voz dos militares como o Ministro Jarbas Passarinho, General Newton Cruz, Almirante Bierrenbach e também dos militares que apoiavam João Goulart, como Capitão Ivan Proença e o Brigadeiro Rui Moreira Lima.

 

 

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