Ministro do MCTI realiza campanha pelo fim da pós-graduação no Inpe

Raupp ataca novamente pós-graduação do Inpe
Ministro do MCTI realiza campanha pelo fim da pós-graduação no Inpe

Desde que assumiu o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação - MCTI, Marco Antonio Raupp, vem acusando o INPE de estar se afastando de sua “missão” ao manter cursos de pós-graduação em suas diferentes áreas de atuação, como sensoriamento remoto, previsão de clima e tempo, e engenharia espacial.

Da Redação

Tais ataques acontecem, mesmo com a pós-graduação do INPE tendo conseguido se firmar como referência internacional na área espacial, tendo com seus cursos obtido notas que superam até mesmo a conceituada Universidade de São Paulo – USP, de acordo com avaliação de desempenho divulgado periodicamente pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES. O ministro argumenta que a pós-graduação estaria desviando o INPE de sua real finalidade.

Opinião oposta tem o pesquisador do INPE, Dr. Antônio Fernando Bertachini de Almeida Prado, Presidente do Conselho da Pós-Graduação e chefe da Divisão de Mecânica Espacial e Controle - DMC. Em matéria publicada no Jornal do SindCT em 2012, Bertachini afirma que o alegado “desvio das funções do instituto” não existe, conforme atestam dados de uma pesquisa realizada em outubro de 2012, a qual aponta que, no quesito docência, o envolvimento de funcionários do INPE na PG é de cerca de 60 homens-hora, o que representa menos de 10% do efetivo institucional.

Em visita à unidade do INPE de Cachoeira Paulista, em julho passado, Raupp afirmou: “A dedicação dos docentes à área de pós-graduação prejudica a finalidade dos serviços prestados pelos Institutos, por desviar recursos físicos e humanos.” Também criticou os tecnologistas ligados diretamente aos programas de satélites do INPE por estarem cursando pós-graduação, quando estes deveriam estar “engenheirando”.

Carlos Afonso Nobre, servidor do INPE e Secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do MCTI, tem a mesma visão de Raupp sobre o assunto, tendo afirmado na mesma oportunidade que considera errado o CPTEC formar pessoal qualificado para as universidades, visto que a maior parte dos mestres e doutores acaba não permanecendo na instituição.

No dia 17 de abril, na Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara dos Deputados, o secretário-executivo do MCTI, Luiz Elias, mais uma vez desferiu críticas à pós-graduação do INPE, desta vez de forma irônica, afirmando que “Há Institutos agindo como universidade, se dedicando à pós-graduação, em vez de pesquisa e desenvolvimento”.

Bertachini rebate estas críticas em seu artigo afirmando que a pós-graduação do INPE é vítima de sua eficiência, pois o programa está entre os mais bem avaliados do país; entretanto, sem prejudicar os trabalhos dos pesquisadores, já que cada funcionário alocado nessa atividade dedica cerca de 30% de seu tempo. Este número é ainda menor, cerca de 20%, para os funcionários das áreas tecnológicas do Instituto. Ele acrescenta ainda que a pós-graduação no INPE é uma atividade voluntária e que em muitos casos são realizados fora do horário normal de expediente.

De acordo com ele, a pós-graduação é reconhecida por ser um elemento agregador de profissionais externos ao INPE. Pesquisadores de renome mundial orientam alunos dos cursos da PG, em parceria com docentes da Instituição. Isso colabora com a produção acadêmica da instituição, sem que exista qualquer gasto extra, já que esses alunos, em geral, são bolsistas FAPESP.

A pós-graduação do INPE diferencia-se das demais em diversos aspectos, pois os programas são focados em tópicos bastante específicos e costumam envolver áreas de atuação não cobertas por universidades brasileiras. Alguns exemplos dessas especificidades são:
a) na astrofísica, existe grande atividade no desenvolvimento de instrumentação científica para observações astronômicas e radioastronômicas;

b) na engenharia, há o único programa na área de propulsão do Brasil, bem como o único programa brasileiro em Engenharia de Sistemas Espaciais. Várias áreas de mecânica espacial ligadas a satélites artificiais também são únicas no Brasil, assim como em pesquisa de materiais. A Engenharia tem uma ligação muito forte com empresas do setor aeroespacial da região, e colabora na formação de recursos humanos para essas empresas, o que universidades não fazem com tanta intensidade;

c) O recém-criado curso de Ciências do Sistema Terrestre é o único no Brasil com foco na formação de especialistas aptos a buscar soluções para os problemas ambientais globais que incluam o Brasil, tópico de grande importância atualmente.

d) O curso de Geofísica Espacial é o curso mais antigo e melhor classificado no Brasil na área, e tem grande foco em problemas relacionados à região onde o Brasil se encontra.

e) O curso de Meteorologia atua na previsão numérica de tempo e clima e ajuda o INPE a ficar no “estado da arte” na área.

f) As atividades desenvolvidas no curso de Sensoriamento Remoto ajudam a formar profissionais aptos a atuar em técnicas específicas para os problemas brasileiros.

g)O curso é CAP - Computação Aplicada, que tem a nota 5 pela última avaliação CAPES.

Esses ataques aos cursos de pós-graduação dos institutos, em especial aos do INPE, demonstram que Raupp, Nobre, Luiz Elias e outros, evidenciam desconhecimento absoluto dos Institutos, de seus laboratórios e dos núcleos de trabalho científico e tecnológico neles alocados; não sabem da necessidade de se formar potenciais doutores e servidores altamente especializados na área, preparados para as atuações específicas que os institutos têm.

Antes de fazerem ataques gratuitos aos programas de pós-graduação, as autoridades de Brasília deveriam se lembrar de que o “P” do INPE vem de Pesquisa, produzida, na grande maioria dos casos, no âmbito dos projetos e atividades dos alunos e pesquisadores que atuam na pós-graduação.

Compartilhe
Share this

testando